Perante a dimensão do mercado do Interior da China e a crescente atividade cinematográfica na Grande Baía, Keo Lou, realizador e diretor criativo de vídeo da FreeDream – empresa local de produção cinematográfica –, considera inevitável uma estratégia virada para o exterior.
“Se um filme for produzido inteiramente por residentes de Macau e distribuído apenas em Macau, o público potencial é de cerca de meio milhão de pessoas, o que não é comercialmente viável”, afirma ao PLATAFORMA.
É precisamente na forma como os apoios são atribuídos que Lou identifica uma das vantagens de Macau. “As políticas de subsídios ao cinema e à cultura são comuns em todo o mundo, incluindo em Hong Kong e no Interior da China, mas os regulamentos variam”.
Nalguns mercados, o acesso aos incentivos está sujeito a condições mais restritivas. “Algumas jurisdições exigem que toda a produção seja filmada localmente, sendo os subsídios concedidos apenas depois de o projeto estar concluído e avaliado”, explica ao PLATAFORMA.
Leia também: Festival de cinema ‘queer’ em Macau é espaço para “dialogar e questionar preconceitos”
Em Macau, o modelo permite maior margem às produções, já que “as políticas de Macau são muito flexíveis. Podem exigir apenas que uma pequena parte das filmagens tenha lugar em Macau, e os subsídios são concedidos ‘antecipadamente’, em vez de funcionarem como um reembolso posterior”.

A mesma flexibilidade abrange produções realizadas no Interior da China que procuram chegar aos mercados internacionais.
“Nunca vi uma política assim em nenhum outro lugar. Normalmente, os filmes rodados no Interior da China têm de pedir subsídios através do Governo do Interior para serem exportados. No entanto, em Macau, os filmes do Interior podem obter subsídios e distribuição internacional simplesmente utilizando as plataformas de Macau”.
O processo de aprovação considera também a participação de profissionais locais, enquanto equipas do exterior ou do Interior da China têm de apresentar candidaturas através de empresas de Macau. “Isto dá-nos a oportunidade de estabelecer contatos com inúmeros profissionais da indústria”, diz Lou.
Cooperação para ganhar escala
A abertura a outros mercados pode igualmente “elevar os padrões das equipas locais de criação e produção”. “Quando o nosso trabalho precisa de chegar a um público-alvo mais vasto, temos de acompanhar as tendências do mercado. Já não podemos limitar-nos ao público de Macau, nem podemos concentrar-nos apenas ‘naquilo que pessoalmente queremos filmar’”, afirma.
Hengqin acrescenta condições de produção que Macau, devido aos custos dos terrenos e à escassez de grandes espaços interiores, dificilmente consegue oferecer: “A existência de cidades de cinema e televisão proporciona um espaço completamente livre de interferências para a criação e produção”.

Criar para o público
Lou recusa uma oposição entre criação artística e viabilidade comercias, já que os “filmes comerciais podem igualmente possuir valor cultural, qualidade artística e profundidade. Claro que o pressuposto de um filme comercial é ter potencial para gerar lucro”.
“Enquanto profissionais do cinema e da televisão, a nossa principal tarefa é criar, com recursos limitados, obras que interessem ao público, mantendo ao mesmo tempo uma perspectiva própria. Creio que este é o requisito fundamental de qualquer criador”, afirma ao PLATAFORMA.
Leia também: Instituto Cultural de Macau aprofunda laços com cinema chinês
A aposta no exterior começa, entretanto, a traduzir-se em projetos concretos. A equipa de Lou obteve aprovação para um “documentário sobre a história dos duplos de ação de Hong Kong”. Com apoio de Macau, financiou a “tradução para português” e procura agora “entrar no mercado português e aproximar-se dos países lusófonos”.
No entanto, Lou sublinha que um dos obstáculos à internacionalização, é estabelecer “relações de confiança” com empresas estrangeiras, em mercados fortemente comerciais e nem sempre familiarizados com “modelos de financiamento público semelhantes aos de Macau”, esperando que o “Governo possa assumir a liderança e levar-nos ao exterior para intercâmbios”.
“Creio que as atuais políticas culturais estão muito orientadas para o exterior”, afirma Lou, contrastando esta realidade com o passado, “quando estávamos confinados ao mercado local”. O incentivo para as obras “chegarem ao mundo” obriga, diz, as equipas de Macau a pensar em “mercados mais amplos”, ao mesmo tempo que aumenta as oportunidades de “contacto com profissionais estrangeiros” e de “reforço das próprias capacidades”.