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Festival de cinema ‘queer’ em Macau é espaço para “dialogar e questionar preconceitos”

O Festival Internacional de Cinema Queer de Macau (MIQFF, na sigla inglesa), que arranca hoje, pretende ser um palco de diálogo e onde se questionam preconceitos, de acordo com o diretor Jay Sun

Lusa - Macau

A decorrer até 27 de junho, o MIQFF apresenta 24 propostas, com “uma parte significativa” das obras com origem em países europeus, disse à Lusa o diretor e fundador do evento, ressaltando “a estreita colaboração com consulados europeus e internacionais”.

“Não se limita, de forma alguma, à Europa. Contamos também com a ‘Asian Vision’, que apresenta histórias queer de toda a Ásia”, sublinha.

É precisamente com uma obra de Hong Kong que arranca a quarta edição deste evento cinematográfico: “Cyclone” (2026), de Philip Yung, narra a história de uma mulher trans da China continental que viaja até Hong Kong para fazer uma cirurgia de redesignação sexual.

A projeção do filme, com estreia mundial no Festival Internacional de Cinema de Roterdão, vai contar com a presença do realizador, do ator Liu Yuqiao e da argumentista Annabelle Kayee Li.

Outro dos destaques desta edição, indica Sun, é “Rosebush Pruning” (2026), uma tragicomédia do brasileiro Karim Ainouz, que estreou mundialmente no Festival Internacional de Cinema de Berlim, onde integrou a competição oficial, e tem agora estreia asiática em Macau. Inspirada no clássico italiano de 1965, “De Punhos nos Bolsos”, esta coprodução de vários países europeus acompanha uma família abastada e disfuncional isolada numa propriedade em Espanha.

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O filme aparece descrito no portal da Berlinale como uma “sátira negra”, no Festival de Cinema de Sydney, onde vai estar em cartaz este mês, como “comédia e filme LGBTQIA+” e no ‘site’ especializado de cinema IMDB atribui como “comédia negra, thriller e drama”.

Na classificação etária em Macau, as autoridades atribuíram a categoria de “Pornografia”, aparecendo no programa a imagem de promoção deste filme – uma fotografia de família – desfocada.

Sobre esta decisão, Jay Sun, diz “ser inapropriado comentar”, uma vez que “a classificação é da competência do Instituto Cultural” (IC), não estando o festival “envolvido no processo”.

A agência Lusa perguntou hoje ao IC qual o critério para esta classificação, mas até ao momento não recebeu nenhuma resposta. De acordo com a lei de Macau, são considerados produtos “pornográficos ou obscenos” aqueles que “contenham palavras, descrições ou imagens que ultrajem ou ofendam o pudor público ou a moral pública”.

“Ainda assim podemos mostrar o filme, desde que respeitemos a lei: projetar após as 23:30 e pagar a taxa correspondente”, nota.

Ainda no que diz respeito à programação, na secção “World Sprectrum”, o MIQFF apresenta filmes como “Trial of Hein” (2026), do alemão Kai Stänicke, o australiano “Saccharine” (2026), de Natalie Erika James, e o documentário “To dance is to resist” (2026), produção germano-ucraniana do realizador Julian Lautenbacher.

Na secção asiática, destaque para “East Palace, West Palace” (1996), do chinês Zhang Yuan, e “3670” (2025), obra do sul-coreano Park Joon-ho. Ao longo destes dias, é possível também assistir a “Whisperings of the Moon” (2025), filme cambojano da cineasta chinesa Lai Yuqing, que morreu há poucos meses aos 23 anos.

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O festival presta ainda homenagem a Rosa von Praunheim (1942-2025), nome artístico de Holger Mischwitzki, com a exibição de várias obras do cineasta alemão, um dos mais influentes defensores dos direitos LGBTQ+ na Alemanha. O nome Rosa surge em referência ao triângulo cor de rosa que homossexuais tinham de usar nos campos de concentração nazis, e Praunheim em honra ao bairro de Frankfurt onde cresceu.

Sobre a receção do MIQFF, já na quarta edição, Jay Sun, refere que hoje existe “mais abertura para ao cinema ‘queer’ e eventos culturais LGBTQ+”: “Vemos um maior interesse por parte do público, uma maior representação nos ‘media’ tradicionais e mais pessoas dispostas a envolver-se com diferentes tipos de histórias.”

Mas o “progresso não é uma linha reta”, admite. “Continuamos a assistir a retrocessos em várias partes do mundo, seja na forma de censura ou de restrições aos direitos da comunidade LGBTQ+. Por isso, não creio que possamos dar por concluído o trabalho”, continua.

Por essa razão, diz, este tipo de eventos continuam a ser importantes, com os filmes a “gerarem diálogos, a desafiarem preconceitos e ajudarem a criar empatia”.

Sun acrescenta que, no caso deste festival, o desenvolvimento foi significativo desde a primeira edição, começando por ser “um projeto movido pela paixão, totalmente autofinanciado e com recursos muito limitados”.

“Continuamos a ser um festival independente e autofinanciado, pelo que muitos dos desafios permanecem, mas já percorremos um longo caminho desde a edição inaugural, nota, classificando o evento como uma “plataforma reconhecida onde cineastas, público e membros da comunidade se podem reunir através do cinema”.

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