O ‘Cluster’ da Saúde de Moçambique alertou que as necessidades humanitárias no setor continuam elevadas, apesar da assistência prestada aos afetados pelas cheias do início do ano no centro e sul e pelo conflito armado na região norte.
Segundo o mais recente boletim operacional do ‘Cluster’ da Saúde, com dados recolhidos até julho, Moçambique continua a enfrentar uma “situação humanitária complexa” impulsionada pelos impactos combinados de choques relacionados com o clima e de um conflito prolongado, com consequências para a saúde e o bem-estar das populações vulneráveis.
“As necessidades humanitárias permanecem agudas, particularmente entre populações deslocadas, retornados e comunidades anfitriãs, exigindo apoio continuado aos cuidados de saúde primários, serviços médicos de emergência, apoio à saúde mental e psicossocial e prevenção e resposta a surtos”, refere-se no documento.
No relatório assinala-se que as cheias que atingiram principalmente as províncias centrais e do sul nos primeiros meses do ano provocaram deslocações populacionais, danificaram infraestruturas de saúde e elevaram o risco de surtos de doenças transmitidas pela água, afetando o acesso e a continuidade dos serviços sanitários essenciais.
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Ao mesmo tempo, acrescenta-se no boletim, a insegurança na província de Cabo Delgado, rica em gás e alvo de ataques armados desde 2017, continua a provocar deslocações e a aumentar a pressão sobre um sistema de saúde já fragilizado.
“A renovação da atividade de grupos armados não estatais aumentou o número de deslocados, com 506.214 pessoas atualmente deslocadas no norte de Moçambique, um aumento de 9% em relação ao ano passado”, descreve o ‘Cluster’, assinalando que quase nove anos desde o início do conflito no norte de Moçambique, as necessidades humanitárias em Cabo Delgado continuam severas.
Em resposta, a instituição assinala que os parceiros humanitários têm mantido uma atuação coordenada, centrada em serviços móveis de saúde, vigilância epidemiológica, resposta a surtos, cuidados de saúde sexual e reprodutiva, apoio à saúde mental e atividades de água, saneamento e higiene.
Apesar destes esforços, o ‘Cluster’ da Saúde alerta que persistem desafios consideráveis, particularmente relacionados com o acesso humanitário, restrições de financiamento, escassez de recursos críticos e a necessidade de reforçar os sistemas de gestão de informação, monitorização e reporte em saúde.
No norte de Moçambique, os parceiros do setor alcançaram até ao final de julho mais de 170.977 pessoas através da resposta humanitária à crise provocada pelo conflito, o equivalente a cerca de 42% da população prevista no Plano de Resposta Humanitária de 2026.
No boletim refere-se ainda que 1,1 milhões de pessoas necessitam atualmente de assistência humanitária no norte do país, incluindo 919 mil nos distritos mais afetados de Cabo Delgado, numa altura em que a região enfrenta simultaneamente os impactos do conflito armado, do surto de cólera e das limitações de financiamento da resposta humanitária.
Mais de 6.600 pessoas morreram no norte de Moçambique em quase nove anos de insurgência armada, segundo a Organização de Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos (ACLED, na sigla em inglês) que monitoriza conflitos em todo o mundo.
Paralelamente, Moçambique é considerado um dos países mais vulneráveis aos efeitos das alterações climáticas, registando regularmente cheias, ciclones tropicais e outros fenómenos extremos durante a época chuvosa.
Segundo dados do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD), a última época chuvosa provocou 311 mortos e afetou cerca de 1,07 milhões de pessoas em diferentes regiões do país.