Deputado de Macau diz que Governo se tornou “arrogante”

Ron Lam considera que a insatisfação da população nos últimos anos se deve à forma como o Governo de Macau tem agido. A construção da estátua de Kun Iam é apenas um dos exemplos e o deputado quer saber "quem foi o responsável" pelo projeto que iniciou a construção sem conhecimento do público.

por Guilherme Rego

Na Assembleia Legislativa de Macau desde 2021, Ron Lam reconhece que o Hemiciclo tem prestado o devido apoio aos deputados. Contudo, e como refere em entrevista ao Ponto Final, o problema tem sido a atitude do Executivo na implementação das políticas.

Na entrevista concedida ao jornal local português, critica a falta de transparência do Governo, bem como a sua disciplina financeira. O deputado, que se sente “sozinho” na Assembleia Legislativa por muitas vezes ser o único a manifestar insatisfação, pergunta se o Governo está disposto a aceitar a fiscalização do público e prestar informações, em vez de as ocultar.

Há duas fases deste Governo, liderado por Ho Iat Seng, que o deputado faz questão de separar. A primeira foi durante a pandemia, onde considera que o Governo fez um bom trabalho ao “estabilizar a sociedade”, prestar apoio e equipamentos anti-Covid.

Porém, numa segunda fase, já pós-pandemia, “todos os problemas surgiram”, diz ao Ponto Final. Isto porque a “autoconfiança” do Governo, que identifica como uma boa característica, gradualmente se tem tornado em “arrogância”, não só para com os deputados, como também para com a população.

Assembleia Legislativa de Macau

O relatório financeiro Investimentos e Despesas de Desenvolvimento da Administração costumava ser também disponibilizado aos jornalistas, segundo o deputado, mas acabou por não sair da sala da Assembleia Legislativa de Macau.

Como exemplo mais claro, aponta a construção da estátua de Kun Iam, na Barragem de Hac Sá, que quando foi anunciada publicamente, já estava a ser construída.

Perante uma petição com 9 mil assinaturas, que chegou à Assembleia pelas mãos de Ron Lam, as autoridades anunciaram pouco depois que não iriam avançar para a construção da estátua, que iria custar 42 milhões de patacas. Mesmo assim, o deputado local revela que a população, face à atitude que o Governo tem tido nos últimos tempos, não esperava que este revertesse a decisão.

“Muitas pessoas agradeceram-me por lançar a petição, mas estavam desesperadas por considerarem que o projecto não seria suspenso, ‘porque este Governo não ouve opiniões'”.

“Parece-me que este Governo acha desnecessário falar com o público sobre o que quer fazer. O líder do Governo tinha dito aos jornalistas que ‘não era preciso falar tudo convosco’. Mesmo que nessa altura estivesse a falar com os jornalistas, quem é que os jornalistas representam?”

Campo de Aventuras Juvenis da Praia de Hac Sa, Macau

A construção do Campo de Aventuras Juvenis da Praia de Hac Sá, tinha um orçamento fixado em 230 milhões de patacas. Quando foi anunciado publicamente, o orçamento era sete vezes maior. Na fotografia, pode ver-se também a estátua de Kun Iam, que não vai ser construída.

Diga-se que, a estátua de Kun Iam foi “empacotada”, como o deputado diz, num projeto maior e também não isento de críticas. A construção do Campo de Aventuras Juvenis da Praia de Hac Sá, tinha um orçamento fixado em 230 milhões de patacas. Este orçamento tinha sido apenas revelado aos deputados, através do relatório de Investimentos e Despesas de Desenvolvimento da Administração (PIDDA).

Este relatório financeiro costumava ser também disponibilizado aos jornalistas, segundo o deputado, mas acabou por não sair da sala da Assembleia Legislativa.

“Perguntei porque é que apenas os deputados têm o relatório do PIDDA. A sociedade também precisa de ver o relatório. No caso da estátua de Kun Iam, só os deputados sabem que o orçamento era de 230 milhões de patacas. Há muitos anos, os jornalistas tinham acesso ao PIDDA, que não é um documento confidencial. Todos os projectos do Governo têm orçamento. Não há razão para não divulgar isso”, disse ao Ponto Final.

Devem tomar a iniciativa para investigar qual é a história completa, e quem é responsável. Para um projecto tão grande, com grande orçamento, não é possível que ninguém do Governo saiba disso.

Ron Lam, deputado da Assembleia Legislativa de Macau

Mas a resposta que obteve foi curta e pouco esclarecedora. “Perguntei isso a Ho Iat Seng, e respondeu apenas que não tinha sido divulgado. Uma frase só”, lamentou.

Acontece que, quando o parque juvenil foi anunciado, o orçamento já não era de 230 milhões de patacas, mas sim 1.6 mil milhões, quase sete vezes mais.

“O Governo também admitiu que o orçamento aumentou, mas pergunto como é possível fazer um orçamento assim. Mais recentemente, o orçamento alterou novamente para 1,4 mil milhões de patacas. Em qualquer lugar do mundo, seja da governação com alta pressão, seja do governo democrático, é difícil avançar e implementar um projecto que obtém oposição extrema da opinião pública dominante”.

Sobre estas obras, o deputado pede atenção do Comissariado contra a Corrupção. “Devem tomar a iniciativa para investigar qual é a história completa, e quem é responsável. Para um projecto tão grande, com grande orçamento, não é possível que ninguém do Governo saiba disso. Acho que deve haver uma explicação clara e um relatório detalhado para o público. As autoridades têm de ser activas para investigar o caso, para resolver a preocupação dos cidadãos”.

 

 

 

 

 

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