Lula da Silva é o novo Presidente do Brasil. Durante muitos anos a ligação entre a China e o país sul-americano foi profícua, mas arrefeceu com Jair Bolsonaro. Agora, o futuro parece mais promissor, até porque, mesmo com atritos recentes, a ligação comercial entre os dois países tem vindo a crescer
“Estamos dispostos a trabalhar com o novo Governo brasileiro, liderado por Lula da Silva, para elevar as relações a um novo patamar, visando alcançar benefícios para ambos os países e povos”.
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Foi esta a primeira mensagem que a China, através do porta-voz chinês Zhao Lijian, enviou para o novo Presidente do Brasil. Um novo ciclo no caminho dos dois países ou apenas um regresso ao passado?

A relação entre Pequim e Brasília arrefeceu durante o mandato de Jair Bolsonaro, que assumiu o poder com a promessa de reformular a política externa brasileira, com uma reaproximação aos Estados Unidos, e pondo em causa décadas de aliança com o mundo emergente asiático.
Aliás, o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros do Brasil, Ernesto Araújo, que foi entretanto substituído, chegou mesmo a adotar uma posição hostil face à China, apelidando mesmo o coronavírus como “comunavírus”, sendo que também o filho de Jair Bolsonaro, Eduardo, nunca se coibiu de atacar o regime chinês, sobretudo quando declarou apoio a uma aliança norte-americana, sem “a espionagem da China”.
Lula da Silva, por sua vez, foi quem ‘elegeu’ a China como um dos principais parceiros económicos, entre 2003 e 2011, altura em que ocupava a presidência brasileira. Por isso, não será de estranhar que o primeiro passo seja tentar restaurar uma ligação que ficou algo complicada com Jair Bolsonaro no poder.
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“Num momento de redefinições da ordem internacional, o Brasil de Lula da Silva elaborou uma estratégia de aproximação das potências mundiais, como o estado chinês, de forma a favorecer a construção de uma ordem multipolar e multilateral. Isso aconteceu há quase 20 anos e teve o seu momento mais alto em 2004, quando Lula da Silva viajou até à China,” salienta ao PLATAFORMA o economista Pedro de Freitas.

“Muita coisa foi feita, mas também muita ficou por fazer, mesmo planos que estavam previstos, mas não saíram do papel. Mas, no geral, o entendimento trouxe muitos benefícios para os dois lados, por isso entendo que agora aconteça o mesmo”.
Ao contrário de Jair Bolsonaro, que apontou todas as suas baterias a uma parceria com os Estados Unidos, sobretudo no tempo de Donald Trump à frente dos destinos norte-americanos, desta feita Pedro de Freitas acredita que tal não vai acontecer no mandato de Lula da Silva.
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“Tal como aconteceu no início do milénio, com a aproximação do Brasil à China, com Lula da Silva não houve um rompimento com outras potências, bem pelo contrário. Poderá ter havido mais parcerias, entendimentos, etc., com a China, mas nunca fecharam portas a outras potências. A estratégia de Lula da Silva foi sempre a de uma ligação a potências regionais e isso é o que, certamente, acabará por acontecer neste mandato. A China como grande aliado, porque financeiramente é a que mais aporta ao Brasil, mas sem favorecimentos. Ficarei surpreso se não for assim”, refere o especialista, que dá novo exemplo.
“Quando os BRICS [Grupo de países de mercado emergente, constituído por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul] foram formados, Lula da Silva estava na frente do Governo e foi ele que decidiu hospedar a primeira reunião do grupo, em 2009. Se a ideia fosse ligar-se a apenas uma potência, não teria sentido a sua forte ligação ao BRICS, ao contrário da ideia de Bolsonaro, que não entendia esta ligação como produtiva. E agora acredito que esta parceria económica, até fruto da crise mundial derivada da pandemia e agora da guerra na Ucrânia, volte a ser mais forte, com Brasil, China e Rússia na frente”.

A mesma análise teve Ralph Newmark, diretor do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade La Trobe, em Melbourne, que, em declarações ao South China Morning Post, revelou a importância dos BRICS daqui para a frente.
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“Uma vitória de Lula, em conjunto com a África do Sul e a Índia, deve ajudar o BRICS a voltar ao seu papel original de ser um contrapeso ao domínio excessivo dos EUA e, portanto, promover o desenvolvimento Sul-Sul”.
Desde 2009, refira-se, a China é o principal parceiro comercial do Brasil, com o comércio bilateral a passar de nove mil milhões de dólares, em 2004, para 135 mil milhões, em 2021. Entre 2007 e 2020, a China investiu, no total, 66 mil milhões de dólares no Brasil.
XI JINPING E A PARCERIA ESTRATÉGICA
Poucos minutos após a declaração do porta-voz do Governo chinês sobre a eleição de Lula da Silva, o Presidente Xi Jinping também abordou a vitória do político, com quem não chegou a trabalhar diretamente, dado que o brasileiro saiu do poder em 2011 e Xi Jinping é o líder chinês desde 2013. Ainda assim, da China choveram declarações muito positivas para que a ligação entre ambos os países sejam profícuas.
“Atribuo grande importância ao desenvolvimento das relações China-Brasil. Estou disposto a trabalhar com o Presidente eleito Lula, de uma perspetiva estratégica e de longo prazo, para planear e promover conjuntamente a um novo patamar a parceria estratégica abrangente entre a China e o Brasil, em benefício dos dois países e dos seus povos”, salientou o Presidente chinês.

Refira-se que já no início deste ano, também Lula da Silva elogiou Xi Jinping e a China, sobretudo pela forma que lidaram com a pandemia de Covid-19.
“A razão pela qual a China conseguiu combater o coronavírus tão rápido é que tem um partido político forte e um Governo forte e o Governo tem o direito de controlar e comandar. A China é um exemplo de desenvolvimento para o mundo. Espero que outros países aprendam a lição, para que possamos ser mais ricos e mais fortes. Trabalhei muito com Hu Jintao [antigo Presidente chinês] a necessidade de uma relação Sul-Sul, para não sermos dependentes dos países do norte”, esclarece.
“Lamentavelmente, não conseguimos chegar lá, mas tenho a certeza que vamos conseguir fazer isso a partir de 2022”, disse Lula da Silva na altura.
Saliente-se, em jeito de curiosidade, que após os votos contabilizados, em Pequim e Xangai, na China, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) saiu vitorioso no segundo turno das eleições. O candidato recebeu 199 votos, enquanto Jair Bolsonaro ganhou 146 votos.