O Brasil tem vindo a afastar-se cada vez mais dos Estados Unidos da América no que à economia diz respeito, sobretudo desde que Jair Bolsonaro é presidente e Donald Trump deixou de o ser nos Eua. E o novo aliado é a China. E é na China que o Brasil tem de continuar a apostar, seja com Jair Bolsonaro no comando deste ‘navio’ brasileiro ou com Lula da Silva
As eleições deste país lusófono, situado na América do Sul, estão marcadas para o próximo mês de outubro. As sondagens apontam para uma mudança de rumo, concretamente para o regresso de Lula da Silva ao mais alto cargo do Brasil. No entanto, de acordo com estatísticas, especialistas, etc, o que não pode mudar, pelo menos a curto e médio prazo, é a aposta que este país fez na relação com a China, de há um ano a esta parte, concretamente.
Se aquando da eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, as baterias da economia brasileira apontavam para os Estados Unidos, com Donald Trump na presidência, agora as mesmas estão do lado oposto do mundo, na China, sobretudo devido à crise económica que se perspetiva para os próximos anos, devido à pandemia de Covid-19 e a toda a instabilidade política no mundo, com a Guerra na Ucrânia e a tensão entre Estados Unidos e China na questão de Taiwan.

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“Já em 2008 foi a China que conseguiu levantar o mundo económico. Vivemos, e viveu o mundo inteiro, uma crise muito grave e aí foi a China que conseguiu que o mundo económico conseguisse algum equilíbrio. E conseguiu-o colocando muitos estímulos no mercado, numa altura em que nos Estados Unidos da América e na Europa Ocidente não haviam estímulos, mas sim muitos receios e recuos”, refere ao PLATAFORMA o economista Eduardo Pereira Nunes.
É verdade que as perspectivas de crescimento da China para este ano não são animadoras. Aliás, o PIB do país asiático frustrou as expectativas, crescendo apenas 0,4 por cento no segundo trimestre e aumentando o risco de recessão global. E isto poderá alavancar o Brasil também para um cenário idêntico, fruto da dependência dos brasileiros face à China, sendo mesmo o país que mais trabalha comercialmente com esta nação asiática.
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“Se em 2008 a China demonstrou força face a uma crise, agora não será diferente. É verdade que quando a China não cresce, o Brasil também não. Mas quando [a China] crescer, e vai voltar a crescer, o Brasil vai atrás. Os últimos dados não são animadores, é certo, mas se analisarmos o que o Governo de Xi Jinping fez nas últimas crises, temos de acreditar que acontecerá o mesmo.
Há algumas cadeias de crédito que já começam a mexer-se, com injeções de milhões no mercado e a emissão de novos títulos de dívida. É ainda incerto dizer o que vai acontecer em 2023, mas a China terá sempre de ser o grande aliado”, vaticina o especialista económico. É verdade, contudo, que os números vindos da China não são nada animadores, nem ninguém pode sonhar com muito mais em termos de crescimento.

“Sim, evidentemente. O importante aqui é perceber a forma como a falta de crescimento na China poderá afetar o menos possível a economia brasileira, dependente da China. É um trabalho que acredito que esteja a ser feito. O impacto da China não será apenas no Brasil, mas em todo o mundo. E para o mundo crescer em conformidade, certamente que as tais injeções no mercado não poderão ser feitas apenas pelo Governo de Xi Jinping, mas pelos grandes ‘players’ de mercado.
Penso que a crise de 2008 ensinou muito às grandes economias”, conclui Eduardo Pereira Nunes. Entretanto, o Fundo Monetário Internacional (FMI) melhorou a sua estimativa de crescimento para a economia brasileira em 2022, apesar das dificuldades enfrentadas pelas economias globais.
No seu relatório Perspectiva Económica Global, o FMI passou a ver crescimento do Produto Interno Bruto do Brasil neste ano de 1,7 por cento, bem acima da taxa de 0,8 por cento calculada em abril. Estes dados são também um pouco acima, por exemplo, dos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), que no início de junho apontava para um crescimento de apenas 0,6 por cento.
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No entanto, no mesmo relatório do FMI, e perspetivando o ano de 2023, os dados são menos animadores, mostrando uma expansão da atividade de 1,1 por cento.
Crescimento menor na China será realidade?
Com o crescimento do PIB em apenas 0,4 por cento e apesar das perspectivas de melhoria para o resto do ano, as metas do Governo chinês de crescimento de 5,5 por cento (o menor nas últimas três décadas) parecem cada dez mais inviáveis.

O Banco Mundial, por exemplo, já tinha feito uma revisão por baixo, para 4,3 por cento, mesmo com um forte estímulo do Governo Central no segundo semestre para reverter os impactos do confinamento devido à pandemia de Covid-19. Por sua vez, o Goldman Sachs, que tinha uma das estimativas mais altas, cortou a projeção de crescimento para a China em 2022 de 4 por cento para 3,3 por cento. Ainda assim, apesar destas perspectivas, o Governo chinês respondeu a estes dados com assertividade.
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Ou pelo menos confiança que o cenário pode ser alterado.
“Faremos grandes esforços para consolidar as bases da recuperação económica, empenhar-nos para estabilizar a economia e manter a operação económica dentro de um intervalo razoável, priorizar a realização do objetivo de estabilizar o emprego e os preços”, disse o ministério das finanças chinês em comunicado.
Por sua vez, o primeiro-ministro da China, Li Keqiang, também vaticinou esperança numa recuperação, ainda que tenha colocado algumas cautelas, sobretudo devido ao panorama mundial, onde a China, por exemplo, tem sido ainda muito restrita no que à pandemia de Covid-19 diz respeito, com a sua política de casos zero.
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“Neste momento, a economia está a recuperar-se, mas as bases são instáveis. É necessário muito trabalho para estabilizar a economia. É esse trabalho que estamos a fazer. Mas o resto do mundo tem de trabalhar também no mesmo sentido. É uma crise a nível global ou se não quisermos chamar de crise, teremos de chamar de crescimento menos sustentado, comparativamente com os últimos anos”, disse.