O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, parte na próxima semana para uma cimeira entre superpotências com o seu homólogo chinês, Xi Jinping, esperando que a guerra no Irão não comprometa o ambiente em Pequim. Trump deverá contar com uma receção grandiosa no encontro de alto risco, que tinha sido adiado em março devido ao conflito no Médio Oriente.
No entanto, a guerra continuará a dominar a sua primeira visita à China desde 2017, que deverá centrar-se na redução das tensões comerciais e na questão de Taiwan entre as duas maiores economias do mundo. Trump afirmou que os dois líderes irão discutir o tema e que Xi tem sido “muito respeitador” relativamente ao Irão.
Ainda assim, enquanto Trump procura desesperadamente um acordo para pôr fim à guerra antes de chegar a Pequim, a China poderá tentar aproveitar a sua posição fragilizada para obter concessões em questões-chave. “A realidade é que, neste momento, o Irão é crítico para os EUA e os chineses sabem disso”, afirmou Edgard Kagan, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS).
O mundo acompanhará de perto a cimeira Trump-Xi, mas a incerteza quanto ao calendário e a falta de preparação significam que os resultados concretos poderão ser limitados.
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Para um Presidente norte-americano obcecado com a ideia de diplomacia entre grandes potências, a principal prioridade durante a visita de 14 e 15 de maio será a imagem de ser bem recebido por um líder forte. Trump, de 79 anos, tem destacado repetidamente a sua “muito boa relação” com Xi, de 72 anos, com quem se encontrou na Coreia do Sul em outubro passado, chegando mesmo a dizer que o líder chinês lhe dará “um grande e caloroso abraço” por causa do Irão.
O Presidente norte-americano espera também regressar da cimeira com grandes acordos comerciais, tendo em vista as eleições intercalares, nas quais os republicanos enfrentam dificuldades devido aos elevados preços do petróleo causados pela guerra no Irão.
Embora alguns líderes empresariais refiram que os convites ainda não foram formalmente enviados, a administração Trump planeia convidar presidentes executivos de empresas como Apple, Exxon, Nvidia e Boeing, segundo a Semafor, estando em discussão um possível grande acordo com a Boeing.
Trump pretende ainda alcançar entendimentos em áreas como inteligência artificial, minerais críticos e combate ao fentanil. Um dos resultados concretos que a China, em particular, espera poderá ser a extensão da frágil trégua comercial de um ano acordada entre Trump e Xi na Coreia do Sul, em outubro.
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No entanto, Pequim já demonstrou estar pronta para responder a Washington, ao afirmar, a 2 de maio, que não cumprirá sanções norte-americanas contra empresas visadas por transações de petróleo iraniano. “Parece que a trégua não é tão sólida quanto esperávamos”, afirmou Sean Stein, presidente do US-China Business Council.
A China, governada pelo Partido Comunista, procurará estabilidade num mundo agitado por Trump e ganhar tempo, sabendo que o volátil líder norte-americano cumpre o seu segundo e último mandato. Pequim deverá também tentar tirar partido da posição enfraquecida de Trump sempre que possível.
“Há, de facto, muita margem de manobra que Pequim pode explorar”, afirmou Patricia Kim, investigadora sénior de política externa na Brookings Institution, em Washington. “Trump procura uma vitória, certo? Não tem tido muitos sucessos nas últimas semanas, com a guerra no Irão em curso”, acrescentou.
Taiwan poderá ser uma das áreas onde Xi tentará obter concessões, nomeadamente no que diz respeito à venda de armas à ilha autónoma que Pequim reclama como sua, segundo analistas. Trump já se afastou anteriormente da linha oficial sobre este tema sensível, e aliados na região, receosos de uma China mais assertiva, estarão atentos a quaisquer sinais de recuo por parte dos EUA.
Ao mesmo tempo, Pequim deverá apostar no gosto de Trump por pompa e elogios, consciente de que um líder norte-americano contrariado poderá criar dificuldades.
Ainda assim, os responsáveis chineses tentarão distanciar-se de qualquer envolvimento direto na guerra com o seu aliado Irão e desviar a pressão de Trump durante o encontro. A receção, esta semana, do ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano em Pequim foi “um sinal de que percebem o que está para vir”, concluiu Kagan, do CSIS.