“Nenhum governo brasileiro pode arriscar um afastamento da China”

“Nenhum Governo brasileiro pode arriscar um afastamento deliberado da China”

Há mais de uma década que a relação comercial entre a China e o Brasil cresce a olhos vistos. O PLATAFORMA foi tentar perceber a razão deste sucesso, entrevistando Tulio Cariello, diretor de conteúdo e pesquisa do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), que falou sobre os investimentos chineses, a influência geopolítica nas relações comercias Brasil-China e muito mais, nomeadamente o ambiente político entre Jair Bolsonaro e Xi Jinping

– Desde 2010 que a China se consolidou como um dos maiores investidores no Brasil. Quais as razões para tal?

Tulio Cariello – Desde o final da década de 2000, o Brasil tem sido um polo de atração de investimentos externos de forma geral, não apenas da China. Mesmo com os diversos problemas socioeconómicos enfrentados nesse período, houve relativa estabilidade política e regulatória, fator que atraiu o interesse de diversos países. Nesse mesmo período, a China passou a implementar uma estratégia de extroversão, encorajando as suas empresas a investirem no exterior. Esse movimento de extroversão ficou ainda mais evidente e relevante a partir da crise financeira internacional de 2008-2009, momento em que o mundo lutava para evitar uma nova depressão económica e a China despontava como um dos poucos países com envergadura económica para investir no exterior. Foi nesse contexto que o Brasil passou a receber investimentos chineses. Primeiramente, em áreas relacionadas ao intenso comércio bilateral, como petróleo e mineração, e posteriormente, em áreas que ofereciam maior abertura, como eletricidade e manufaturas. Ou seja, o Brasil não foi uma exceção à regra, mas parte de um movimento global de internacionalização das empresas chinesas.

– Papel dos BRICS (termo usado para se referir ao Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul como grandes mercados emergentes) foi preponderante também nesta relação comercial entre os dois países?

T.L. – Creio que os BRICS não tem papel muito significativo na área comercial entre Brasil e China. As relações comerciais entre os dois países é pautada de forma independente, sobretudo por uma lógica de mercado e pela grande complementaridade entre as duas economias.

– Quais são os principais negócios dos investidores chineses no Brasil e quais outros, distintos dos atuais, entende que podem vir também a ser uma aposta no futuro

T.L. –Do valor do stock dos investimentos chineses confirmados entre 2007 e 2020 no Brasil, 48 por cento foram direcionados ao setor de energia elétrica – no qual há presença marcante de gigantes como State Grid e China Three Gorges –, seguido por extração de petróleo e gás (28), extração de minerais metálicos (7), indústria manufatureira (6), obras de infraestrutura (5), agricultura, pecuária e serviços relacionados (3) e atividades de serviços financeiros (2). Para os próximos anos, acredito que os maiores investimentos continuarão a ser feitos nas áreas de eletricidade e petróleo, mas vejo grande potencial para a entrada cada vez maior de empresas chinesas nas áreas de infraestrutura, indústria e tecnologia da informação. A título de exemplo, nos últimos dois anos temos visto o avanço da Tencent no Brasil, que tem feito investimentos frequentes no país em diversas empresas da área de tecnologia da informação, como Quinto Andar, Dotz e Omie. Recentemente, também vimos a entrada da China Great Wall, que tem projetos ambiciosos no setor automobilístico.

China Brasil

– O ambiente político entre China e Brasil não tem sido o melhor nos últimos anos, concretamente desde que Jair Bolsonaro está à frente dos destinos do país. Receia que esta relação poderá afetar os negócios comerciais no futuro?

T.L. – A China tem uma visão de longo prazo para a sua relação com o Brasil. Apesar de desentendimentos recentes, é muito evidente que há diversos segmentos da economia brasileira que priorizam uma relação pragmática com a China, como o agronegócio e as áreas de energia e mineração. A relação económica, de forma geral, não foi afetada por esse afastamento político. As duas áreas funcionam com relativa autonomia. De todo modo, vejo como fundamental que o Brasil, em termos de Estado, tenha muito claro quais são as suas prioridades na relação com a China. É fundamental que se pense essa relação no longo prazo, acompanhando as transformações em curso no país asiático. Nenhum governo brasileiro pode arriscar um afastamento deliberado da China, um país que terá, cada vez mais, influência na política internacional e na economia global.

A relação económica, de forma geral, não foi afetada por esse afastamento político. As duas área funcionam com relativa autonomia

– Quais as razões, ou tipo de trabalho foi feito, para que a China em pouco mais de uma década se tornasse também o principal parceiro de exportação? As más relações entre China e Estados Unidos, também políticas, ajudaram?

T.L. – Do lado chinês, temos acompanhado uma crescente demanda por recursos agrícolas, minerais e energéticos, impulsionada pela urbanização e a expansão da classe média do país asiático. Do lado brasileiro, tivemos uma oferta muito competitiva nas áreas de minério de ferro, soja, petróleo, carnes e celulose, para mencionar alguns setores. A complementaridade das duas economias é muito evidente nesse sentido, contribuindo para que a relação comercial se intensificasse desde então. Em determinados momentos, como no último ano e no ano corrente, o aumento dos preços dessas commodities também favoreceu maiores retornos financeiros para o Brasil, levando a recordes históricos, como as exportações totais para a China em 2021, que chegaram aos 87,9 biliões de dólares americanos. Sobre a deterioração das relações entre Washington e Pequim, certamente houve vantagens para o Brasil em determinados produtos que tiveram sobretaxas no comércio entre EUA e China, como nas áreas de proteína animal e oleaginosas. Mas essa é uma situação pontual e que deve ser vista com cuidado,  como uma vantagem momentânea.

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– A soja é uma das principais ‘culpadas’ para o sucesso de exportação com a China, que outros produtos brasileiros estão a conquistar o Oriente?

T.L. – As exportações também se concentram em de minério de ferro e petróleo, que ficam atrás apenas da soja – a grande locomotiva das vendas para a China. Por outro lado, vejo grande potencial nas exportações do agronegócio em geral, que de fato estão mais diversificadas. Atualmente, as exportações brasileiras de proteína animal para a China ficam atrás apenas das de soja, tendo registrado considerável aumento de participação em anos recentes. Em 2016, o setor respondia por 8 por cento das vendas do agronegócio para o país asiático, percentual que subiu para 19 por cento em 2020. Durante esse período, os embar­ques cresceram 275 por cento em termos de valor, atingindo 6,56 biliões, com aumento expressivo também do volume enviado, que cresceu 179 por cento. Outros segmentos do agronegócio que não tem participação absoluta tão relevante também tiveram expansão significativa nas vendas para a Chi­na nos últimos anos, em alguns casos com aumentos percentuais de três ou quatro dígitos. Dentre eles, cabe destacar os seguintes: algodão, fibras têxteis, café, frutas, especiarias, produtos hortícolas, produtos de floricultura e laticínios.

Revelou recentemente que o Brasil deve explorar novas áreas para continuar a desenvolver o comércio com a China. Que tipo de áreas e negócios identifica nesse caso?

T.L. – Creio que é uma ilusão imaginar que haverá uma mudança estrutural nas exportações para a China. O país asiático é muito mais competitivo na área de manufaturados, o que dificulta uma disputa no quesito preço. Por outro lado, empresas brasileiras podem explorar nichos de mercado, focando na crescente classe média chinesa. Vejo potencial nas área de moda e cosméticos, que podem ter sucesso se direcionadas a públicos específicos, sobretudo por meio do comércio eletrónico. Também penso que o setor do agronegócio, onde o Brasil já é competitivo, pode explorar mais oportunidades, com produtos de maior valor agregado, seguindo o mesmo raciocínio de investir em nichos de mercado. Nesse caso, ao espelho da experiência de países como Austrália e Nova Zelândia, podem investir nos mercados de carnes e laticínios premium, para citar alguns exemplos. Evidentemente, essa é uma tarefa difícil, que exige planejamento de longo prazo e um entendimento muito claro do mercado chinês, que apesar de gigantesco, é altamente competitivo por conta da presença de empresas de todo o mundo e também das concorrentes chinesas.

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– O comércio bilateral entre os dois países alcançou um valor histórico no ano passado, com cerca de 125 mil milhões de dólares em negociações. Acredita que é um valor para bater já este ano? E as razões?

T.L. – Creio que os resultados recentes não são sustentáveis no longo prazo. O salto de 29,4 por cento no valor das exportações para a China no acumulado de 2021 se deu sobretudo por conta do aumento dos preços de determinados produtos. Dos dez setores mais vendidos à China, nove tiveram quedas em termos de volume. Por outro lado, em análise financeira, sete dos dez tiveram aumentos. Caso os preços se mantenham em alta esse ano, não descarto a possibilidade de haver novos recordes, mas com uma eventual estabilização dos preços internacionais em níveis mais baixos, dificilmente veremos valores tão altos como no ano passado. Hoje o mundo enfrenta desafios como a redução da oferta de fertilizantes e o aumento do preço de combustíveis e do frete, que sofreram pressões por conta da pandemia e, mais recentemente, por conta do conflito entre Rússia e Ucrânia. São fatores chave para determinar os resultados do comércio do Brasil com a China e do comércio internacional, de forma geral.

– Pode dizer-se que o Brasil, no pós-pandemia, poderá estar um pouco órfão da China no que à recuperação económica diz respeito?

T.L. – Creio que a relação bilateral na área econômica continuará sendo fundamental para o Brasil. A China continuará sendo nosso principal destino de exportações e uma das mais importantes fontes de importações. Não há sinais de que essa estrutura mude no longo prazo. Na área de investimentos, creio que as empresas chinesas darão continuidade aos projetos que já começaram — sobretudo nas áreas de eletricidade e energia –, mas também haverá novas oportunidades em setores como infraestrutura e tecnologia, áreas em que o Brasil oferece grande atratividade. Me preocupa, no entanto, que não haja ainda, por parte do Estado brasileiro, uma estratégia clara para sua relação com a China. O país asiático está mudando, se preocupa mais com questões ambientais e de sustentabilidade, busca novos fornecedores no mundo para evitar dependências, inclusive em setores nos quais o Brasil vende muito para a China, como soja e minério de ferro. É fundamental que as lideranças nacionais, sejam quais forem, entendam as dimensões dessas mudanças na China e busquem adequar a relação bilateral a essa nova realidade que se desenha.

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– A guerra na Ucrânia poderá prejudicar o desenvolvimento do comércio com a China, ou o facto dos governos brasileiro e chinês se terem, até ao momento, colocado numa posição neutra face à Rússia, não deverá afetar esse mesmo desenvolvimento?

T.L. – A guerra na Ucrânia tem potencial para afetar setores sensíveis do comércio Brasil-China. Mesmo que os governos mantenham certo distanciamento do conflito, não há como escapar de questões conjunturais. Os impactos nos mercados internacionais de petróleo, produtos agrícolas e, sobretudo, fertilizantes, impacta diretamente nos preços, o que acaba afetando as relações comerciais bilaterais. É um novo desafio que se soma a um cenário global que, por conta da pandemia, já era desafiador.

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