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Vozes da razão

João MeloJoão Melo*

“Fala a sério e fala no gozo, fala p’la calada e fala claro, fala deveras saboroso, fala barato e fala caro” – Alexandre O’Neill

Quando lancei o primeiro CD da minha banda em 1996 foi como ligar um botão: a 31 de Março éramos incógnitos, no dia seguinte um fenómeno mediático. Devido à agenda da editora teríamos de fazer o lançamento durante aquela semana e por mera piada escolhemos o dia 1 de Abril; o videoclip do tema “Batman” que se propunha ser uma crítica divertida às igrejas evangélicas passou em todos os telejornais do dia na SIC e TVI. Não havia memória no meio musical nacional de uma banda desconhecida merecer tamanho destaque em serviços noticiosos importantes, e a razão mais que provável foi simplesmente o tema vir a calhar para a data. Após esta exposição massiva ao grande público percebi ter levado um banho de responsabilidade: a inocente inconsciência do projecto evaporou-se naquele dia; o que era entretenimento circunscrito a um nicho de público da capital passou a chegar a todo o lado, a estar sob constante exame, recebendo críticas e elogios, alguns inesperados vindos de pessoas ou sectores que nunca se equacionaram atingir. Sentia nomeadamente a simpatia das forças de segurança, polícias e militares, manifestada em cartas enviadas para a agência e editora, lembremo-nos que se vivia numa época sem smartphones e redes sociais. Ora o normal numa banda do género seria ter fãs adolescentes e por isso este apoio tão específico soava curioso, bizarro até. No essencial as missivas enalteciam o facto de dizermos o que ninguém dizia.

Fui particularmente visado por um general que enviava extensos faxes para o nosso agente, desdobrando-se em considerações políticas e sociais, dando ideias para abordar assuntos, mesmo sugerindo que eu criasse um partido político, ele estava disposto a apoiá-lo! Parece mentira mas é verdade. Dada a minha sensível relação com as forças armadas descrita no penúltimo texto, o assédio assustou-me, ele corporiza o tipo de ideias que servem de leit motiv à criação de um partido como por exemplo o “Chega”, são terrenos demasiado pantanosos para o meu gosto. Hoje não se coloca a questão de “dizer o que mais ninguém diz”, toda a gente tem canais de expressão, porém duas situações persistem: o prestígio dos canais faz a diferença entre uma opinião mais ou menos conceituada, e a circunstância de a polícia e forças armadas terem limites no que toca a tecer opiniões públicas, na prática continuam sem voz.

Como expliquei nesse texto, compreendo talvez demasiado bem a lógica da guerra e por isso nesta vida optei por mantê-la distante; fartei-me, quem paga as vertigens bélicas são sempre os civis. Um militar deve servir lealmente e está à vista há tempo de sobra a quantidade de obscuros móbeis por trás de cruzadas, estados islâmicos, guerrilhas nacionalistas, exércitos imperiais, milícias nazis, sei lá eu que maluco ou projecto maluco estou a servir? Quando a discórdia descamba em conflito armado fico sempre de pé atrás uma vez que a partir daí tudo é possível, a dinâmica dos acontecimentos engole a racionalidade, a escalada de horrores no terreno faz esquecer o que levou ao primeiro disparo, a manipulação das forças em disputa baralha-nos a objectividade.

Desde o início da guerra na Ucrânia tenho evitado intoxicar-me de propaganda mormente deixar-me arrastar pela bipolarização em que o mundo mergulhou, uma bipolarização nutrida por convicções, apelos emocionais. Cativos das emoções não controlamos o processo racional, seguimos o de outros. Eis porque a generalidade dos comentadores de guerra me aborrecem, exibem estados de alma, ecoam pensamentos alheios, unicamente acrescentam ruído. Eis também porque outro dia assisti na TV a um general (Agostinho Costa) comentando as movimentações de tropas e pasmei com o discernimento; não há dúvida: fundamentados em conhecimentos académicos e empíricos, os oficiais generais têm uma clara noção de guerra, geo-estratégia e geo-política. Embora a narrativa do general fosse acessível a um QI mediano, notei o incómodo da jornalista, o interlocutor não ia de encontro às expectativas, então ela tentava condicioná-lo às suas convicções. Supus aí que não voltaria a ser convidado a opinar.

https://sicnoticias.pt/mundo/guerra-na-ucrania-acaba-quando-biden-pegar-no-telefone-e-a-resolver-diz-o-general-agostinho-costa/

Desconheço se voltou, aqui deram-lhe voz mas recentemente li existir um certo mal-estar por se considerar que vários generais portugueses têm posições “pró-Moscovo”… Devido a vivermos numa sociedade de mentecaptos percebo que isto é um mero disparate senão seria um insulto. Haverá algum português dos sete costados formado em altos estudos militares cuja posição seja, como dizem, “pró-Moscovo”? O mundo não é a preto e branco, não se reduz ao like e dislike. Este tipo de caracterização comprova a ignorância e tirania do estado bipolar a que nos sujeitámos; no fundo o que os inquiridores pretendem dos militares é confirmar os seus pontos de vista, não ouvir o que tenham a dizer. Os generais são quem melhor domina os diferentes aspectos de uma guerra, e na incessante busca por especialistas que alimentem o espectáculo mediático lembraram-se deles, no entanto o tiro saiu pela culatra visto dizerem o que pensam sabendo do que falam, não o que se esperaria ouvir. Existe esperança na espécie humana…

Há décadas formei a impressão de nos encontrarmos numa espécie de “Feitiço do Tempo”, um filme em que o protagonista vive a repetir o mesmo dia até descobrir o amor verdadeiro; parece-me a analogia perfeita para o propósito da humanidade e como eternamente fugimos dele instigando guerras. Enfim, não tenho conhecimento académico nem empírico no assunto mas a razão tem-me conduzido a dissertações que, descobri agora, serem convergentes com as dos generais. Na seguinte entrevista ao major general Raul Cunha perpassa a impressão de vivermos num “Feitiço do Tempo”, mas em vez do 2 de Fevereiro do filme, o dia é o primeiro de Abril, repetindo-se a história e a dificuldade em discernir a verdade da mentira. O diktat social necessita que cada um se engaje numa das escolhas, preto ou branco, já que fá-lo sentir-se um pouco mais seguro sobre o que sabe ser inseguro e cinzento; prefere uma mentira que prometa segurança a uma verdade geradora de incerteza…

https://setentaequatro.pt/entrevista/major-general-raul-cunha-quem-brincou-roleta-russa-com-putin-e-um-dos-grandes-culpados-e

Obviamente que ser melhor para o povo a rendição da Ucrânia é apenas um de vários factores em consideração na cabeça de um estratega, não uma viabilidade real. Engordada por interesses externos a bola de neve ganhou proporções desmedidas, não há volta atrás; também é natural resistir, eu fá-lo-ia contra a lógica, e só a preservo por estar de fora, se tivéssemos nascido ucranianos lá estaria eu a lutar e o senhor general idem. Depois não precisei de fazer carreira nas armas nem ir para a Jugoslávia, Afeganistão ou Iraque para concluir que se fosse militar sentir-me-ia enganado, o que ele lucidamente admite; como confessei antes já superei esse equívoco, digamos, “noutras vidas”. Mas de resto e acima de tudo o que Agostinho Costa e Raul Cunha consideram ter estado em causa na guerra da Jugoslávia, o que está nesta, o que está na China, e até a data de 2025 são aspectos perfeitamente alinhados com a minha visão. Assustador. E o caldo ainda está morno porque quando chegar a vez de Taiwan é que vai aquecer, despertaremos em sobressalto para a fervura global.

No fim de contas nem estranho que os generais demonstrem ser vozes da razão no mundo da sensação, vozes livres num mundo de escravos; é por haver défice de razão e excesso de sensação que nos ofendemos tanto. Quer se goste ou não das pessoas e do estilo, concorde ou discorde com as suas opiniões, se há qualidades que homens desta estirpe possuem são a espinha dorsal, a lealdade a si próprios bem como a quem servem, e nos tempos que correm tais princípios acarretam custos pessoais elevados. É curioso como 48 anos após o 25 de Abril continuam a ser os que não têm voz (forças armadas) e servem o Estado (todos nós), os que pugnam com o seu exemplo pela liberdade de a termos. Que grande lição dos homens das casernas aos intelectuais. Infelizmente é uma luta quixotesca, dado que falar toda a gente fala, o problema é ouvir e entender.  

*Músico e embaixador do PLATAFORMA

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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