Gordos - Plataforma Media

Gordos

Um dia resolvi transcrever para formato digital bobines de filmes super 8 que o meu pai filmara entre os anos 60 e 70. Ao visioná-las a minha namorada de geração mais recente notou que em 4 horas de filmagens com dezenas de protagonistas não descortinara um gordo. Na escola primária havia um gordo, cuja alcunha era… o gordo. No liceu outro gordo de alcunha “o gordo”. As histórias do menino Nicolau de Sempé e Goscinny que lia na infância (e ainda leio) relatam as aventuras de um grupo de miúdos em que um é gordo, o Alceste nas traduções actuais, o Horácio nas do Vilhena. No meio onde cresci a percentagem de gordos situava-se abaixo da dos pinguins em Lisboa, escusávamos de procurar outra característica para apelidar um badocha. Nessa época a obesidade era suficientemente distintiva, agora o epíteto morreu, gordos são todos, meramente o são mais ou menos. Igual destino teve aquela polida designação do gordo, “um senhor forte“; nunca gostei dela, não por achar paternalista mas por pensar que sendo ele “forte” isso fazia de mim “fraco”. Há anos houve uma reunião de antigos alunos do liceu com os quais perdera contacto e todos estavam disformes como se lhes tivesse explodido uma bomba por dentro. Curiosamente, o único magro era… o gordo. 

Que eu saiba nenhuma personagem das tais películas caseiras passava fome, aliás comíamos que nem feras esfaimadas, não obstante todos tínhamos ar de trinca-espinhas, em contraste com o nível de obesidade que actualmente grassa. Era uma sociedade sedentária, ninguém fazia exercício além de andar, nem existiam ginásios; para quê? Há poucas gerações a maioria dos nossos ancestrais laborava de sol a sol à força de braços, quem teria interesse em regredir, suando as estopinhas para, sei lá, puxar carroças? Se a obesidade era uma questão inexistente, o que mudou? Duas coisas: o padrão de avaliação e a alimentação. 

Antigamente o modelo de beleza era mais “cheinho” e quem no presente o é acha-se gordo, uma vez que o modelo “emagreceu”; logo neste factor aumentou exponencialmente a quantidade de gordos. Começámos também a ingerir muito mais alimentos processados e calorias inutilizadas. Depois todos os animais ou vegetais medraram antes de tempo, engordaram à pressão para se tornarem rapidamente rentáveis. Quando ingerimos esses alimentos parecem ter o mesmo efeito em nós, engordamos à cadência de cada mastigadela. A seguir toca a ir para o ginásio queimar calorias. Isto acaba por ser um processo infindo já que ao prosseguirmos a absorção de lixo precisamos de exercício desumano para o eliminar. No momento em que se pára é o descalabro. Pim, aprisionámo-nos a um sistema que nos mantém ocupados e deixa pouco tempo livre para outros interesses. Quem sai desta roda, ou seja, quem desiste de recuperar a figura, ganha uma forma relaxada, aplicando-se a disfarçá-la e a canalizar recursos mentais de modo a fortalecer a auto-estima. Estamos sempre assoberbados. Tal como os animais e plantas que inchamos a um ritmo alucinante convertemo-nos em máquinas de processar aceleradamente, o motor do corpo anda no limite das rotações. Talvez para arrefecer a máquina os nutricionistas recomendam o consumo de quantidades absurdas de água; de repente apareceu a necessidade de ingestão mínima de dois, três ou mais litros de água por dia… Se eu beber meio litro desloco-me meio dia à casa de banho, de meia em meia hora vejo-me obrigado a interromper as minhas actividades. Desde quando é que o ser humano foi concebido para se acorrentar a um urinol? Transitando por meios urbanos fica difícil encontrar moitas ou acácias para mijar, por exemplo. Fechou-se o circuito do sedentarismo. Julgamos ser mais livres no século XXI, apesar de tudo estamos mais cativos… por causa da comida.

Obviamente cada pessoa é um caso, falo por mim, um indivíduo com resquícios neendertais de caçador-recolector. Debaixo do meu tecto habita um gato filho da rua, nunca lá foi, alimenta-se da ração mais cara, supostamente de melhor qualidade, não mexe uma palha e é magro. Reparei que não come o que deixa, pronto é gato, porém pede mais. Não sendo ele o caçador do que tem à frente a refeição deve ser decepcionante, uma função sem outro propósito que não aliviar contracções estomacais. Engano-o pelo menos com a novidade, retirando os restos para o saco e voltando a despejar “presas acabadas de caçar” na sua taça. E através do felino finalmente percebi um comportamento singular da minha infância. Passava férias nuns tios que tinham cerejeiras no quintal. Após a refeição as cerejas eram servidas à sobremesa mas eu não as queria comer. Fixei o episódio porque o primo mais velho se irritou bastante e disse que eu era maluco, via-me a apanhar cerejas durante o dia e a comê-las; qual o problema daquelas à mesa, são diferentes? Hoje sei que são diferentes, sim, nem precisava de viajar tão distante à infância, bastava ir à adolescência e pensar em nêsperas: quem é que come nêsperas compradas? O fruto em si já é 95% estúpido, 90% do peso é caroço e 5% pele. Contudo as nêsperas devoram-se prazenteiramente até à caganeira se forem roubadas em grupo, ainda sabem melhor caso o dono surja furioso aos tiros de caçadeira. 

Pois meus amigos, exceptuando problemas hormonais, genéticos ou de medicação o que mudou foi o mindset e a qualidade dos alimentos. Primeiro perdemos a vontade de comer, e refiro-me ao verdadeiro prazer de saborear uma refeição conquistada, não de encher o depósito de combustível que se pode pagar. Depois comemos sozinhos porcarias tristes. Se o peixe é do mar viveu a comer microplásticos, se é de viveiro foi engordado a Nestum, só faltou dar-lhe a papinha à boca. Bem nos convencem estarmos rodeados de alimentos sérios, alegres, tradicionais, excitantes, de sabores clássicos, modernos, no entanto não têm graça nenhuma. Felizmente não engulo piadas de mau gosto, ponho-as de lado no prato. Tenho a sorte ou o azar de ser como os gatos de estimação, se a qualidade de um alimento é pobre, mal o levo à boca desfalece o apetite. Não insisto, quedo-me imediatamente saciado. Nem me venham com conversas de que em rigor isto não é bem assim; estou todo queimadinho dos excessos da vida e percebo a diferença: abandalhámos o critério. Por isso sei que o meu gato não é esquisito, tem é brio no que come e esse brio reflecte-se na figura esbelta.

*Músico e embaixador do Plataforma

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