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O círculo da ignorância

João MeloJoão Melo*

Há 47 anos numa quinta-feira de Abril o meu pai, pessoa séria e reservada, saiu de manhã para trabalhar. Regressou em menos de nada eufórico, parecia uma criança, nunca o vira assim. Ligou o rádio, um imponente móvel Loewe-Opta com gira-discos, e todas as estações passavam vibrantes marchas militares, não do meu agrado, mas também as músicas que me tocavam numa estranha corda da alma, aquelas que o meu pai tinha em disco e dizia para nunca ouvirmos se ele não estivesse em casa porque “o vizinho é polícia”… Infelizmente só quem esteve “dentro” ou viveu o “antes e o depois” dará real valor à liberdade, e embora não a entendesse devido à tenra idade tive a sorte de intuí-la através da música. Contudo a lição mais marcante do dia, a que permaneceu até hoje, foi perceber quão notável pode ser a força do pensamento e da livre expressão artística já que coisas aparentemente insignificantes parecem representar imenso perigo para algumas pessoas. Então agora ficava o vizinho caladinho no seu canto, amedrontado por causa de umas músicas? Que disparate… Polícia, polícia sei que o vizinho não era, e nunca cheguei a saber se pertenceria à da política. É-me indiferente, a sua demonização serviu para nos defender. Assim se vivia no antigo regime, onde o outro era motivo de permanente suspeição.

Mudaram os tempos, mudaram as vontades, e passados 47 anos constato estarmos na mesma. Numa sociedade livre o outro continua a gerar temor qualquer que seja o móbil, e desde 2020 a desconfiança até se tornou cientificamente certificada: sei lá se o vizinho está infectado? Distância será a opção mais segura. Relativamente ao pensamento e expressão artística é fácil inibi-los, sempre foi, basta não educar. Dantes negava-se o acesso das massas ao conhecimento, agora massifica-se informação mascarada de conhecimento. Em certas regiões do globo pouco familiarizadas com a liberdade ainda vigoram os métodos “à antiga”, repressão pura e simples, visível; noutras onde a liberdade é um chavão ideológico utilizam-se estratégias mais sofisticadas, a sua repressão é invisível. No fundo a liberdade é uma falácia, ninguém escolhe o que não existe, e sim o disponível. Nas sociedades democráticas o disponível resulta da lógica de mercado, a lógica de mercado define-se pelos gostos das massas, e como os seus gostos não são educados não saímos disto. Já não há necessidade de a autoridade ter rosto ou haver um polícia a cada esquina, todos somos agentes repressores da nossa própria liberdade. Parámos de promover o juízo crítico, ele desapareceu de casa e da rua, substituído por novas tendências de consumo. Quem ainda produz arte ou pensamento é um ser estranho, criador de desconforto e até repulsa; é normal, receamos o desconhecido. Afora serem ricos ou sustentados por patronos, ao deixar de ter público os pensadores e artistas não encontram financiamento para publicar as suas obras, o que agora também já não importa visto escassear predisposição para os apreciar. A espiral evolutiva fechou-se numa circunferência autofágica que vai baixando de nível. O povo recreia-se na vulgaridade, os artistas e pensadores ou se adaptam ao entretenimento ou é melhor dedicarem-se à pesca. Vamos tendo liberdade mas apenas para vaguear dentro da área do círculo onde nos encerrámos e que raros ousam pisar o risco, quanto mais passá-lo. Em qualquer parte do mundo essa liberdade é suficiente visto privilegiarmos a segurança; logo se os governos precisam de aprovação, e as corporações de lucro, fazem-nos a vontade…

*Músico e embaixador do Plataforma

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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