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Entre EUA e China, escolhemos Portugal!

No enredo já antigo entre Estados Unidos da América (EUA) e China, onde ambos lutam pela conquista do império das telecomunicações a nível mundial, Portugal viu-se nos últimos dias a braços com um “ultimato” por parte do embaixador dos EUA em Portugal, George Glass, em que, de uma forma bastante diplomática, quase que nos obrigou a escolher de que lado nos queremos posicionar relativamente à tecnologia 5G. 

No que diz respeito a este e a outros temas, será sempre difícil escolher entre estas duas equipas, uma vez que ambas apresentam décadas de fragilidades, no que diz respeito a matérias fraturantes da nossa sociedade e relativamente às quais não podemos ficar indiferentes.

Se, por um lado, é longa a relação cordial que mantemos com os EUA, tal não nos pode cegar relativamente às sucessivas manifestações de violência policial, de discriminação racial ou de violação dos direitos humanos que ali ocorrem e de que é exemplo a pena de morte, que ainda vigora em 29 estados do país e que, desde 1976, já foi responsável pela execução de 1.518 pessoas. Já para não referir a forma leviana com que a crise pandémica tem sido gerida pelo atual presidente, desde o seu início, bem como o corte de relações do país com a OMS numa altura tão crítica para todos e todas, ou a desvinculação dos compromissos internacionais em matéria de alterações climáticas, a maior crise dos nossos tempos, ou ainda no que respeita à proteção da biodiversidade.

Nem EUA nem China estão no direito de exigir o que quer que seja a Portugal, nem Portugal deve ceder a qualquer tipo de ultimato. Falamos de dois países que em matéria de direitos humanos têm ainda um longo caminho por fazer.

Não deixa de ser, também, irónico termos um ministro dos negócios estrangeiros que apregoa que “as decisões tomadas em Portugal são tomadas de acordo com os valores democráticos e humanistas”, e ao mesmo tempo termos também um governo que não só mantém relações comerciais com a China como tem aprofundado essas mesmas relações ao longo do tempo. Ora, como podemos falar de valores democráticos e humanistas quando fechamos os olhos ao facto de esse um país cometer reiterados atentados contra os direitos humanos? Práticas de prisão e morte, doutrinação forçada de prisioneiros de minorias étnicas, igualdade de género longe de ser alcançada, com a maioria das mulheres relegadas ao trabalho doméstico e a sofrer sucessivos atos de violência são só alguns dos exemplos de ações de um país com o qual não podemos andar cegamente de mãos dadas.

Na verdade, nem EUA nem China estão no direito de exigir o que quer que seja a Portugal, nem Portugal deve ceder a qualquer tipo de ultimato. Falamos de dois países que em matéria de direitos humanos têm ainda um longo caminho por fazer.

Portugal deve, sim, garantir a sua independência e, aproximar-se daqueles países que são exemplo em matéria de igualdade e de direitos humanos. Por cá, devemos ir beber conhecimento aos estados que nos permitam construir ferramentas para combater tantos fenómenos e práticas sociais nefastas, que, infelizmente, ainda persistem no nosso país, como é o caso da mutilação genital feminina, do casamento precoce e forçado, ou da violência doméstica que mata dezenas de mulheres todos os anos. Por cá, devemos trabalhar por uma maior participação cívica e pela sobrevivência da nossa democracia, para que ideologias populistas antidemocráticas, que estrangulam, p.e., a igualdade entre géneros (e que encaram como uma possibilidade retirar ovários às mulheres que se decidem pela interrupção voluntária da gravidez), não tenham lugar na nossa sociedade. Entre os EUA e a China? Escolhamos, pois, Portugal.

*Deputada do partido Pessoas-Natureza-Animais (PAN) – Portugal

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