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Vale tudo se for entrudo

Deitei-me no leito escuro da incompreensão como se não houvera precisão de luz. Mas não encontrava o sono. Eram voltas e revoltas de uma insónia que minava qualquer tentativa de concerto. Do norte e do sul, do leste e do oeste, sopravam os ventos e todos me traziam a escritura verdadeira, assinada e tarimbada pelos mestres dos costumes, disfarçados de deus ou de ateus, e cada uma me dizia como era o mundo e que não podia ser de outra maneira.

A via era, julgava eu, ascensional, sempre a subir, e lá em cima, muito acima, vislumbraria a luz matriz, uma explosão de luz onde, por certo, numa qualquer contemplação, prescindiria do sono e talvez fosse feliz.

Mas eram muitos os caminhos, as veredas, as estradas. E em todas elas floresciam canteiros de sangue, flores da guerra, as estátuas derrubadas. Os ventos chocavam, rodopiavam e a terra sofria, volvia-se deserto e gemia, como também o vento geme enquanto pela terra rodopia.

Os ventos sopravam palavras e estas tinham o condão de se sumir no papel para não dizerem nada. Tantas palavras, tantas espadas, balas, morteiros, canhões; tanta gente exangue, desfeita, pela beira dos caminhos, das veredas, das estradas. E, mais além disso, aparentemente nada.

Lá em cima, havia luz, diziam-me; mas era áspero o caminho: escada de dores, fio de navalha, um campo de danações. “Sobe, meu filho, paga o imposto, verga o teu rosto na minha direcção e verás uma luz branda, cálida, suprema, que sobre ti se verterá.”

Dez mil seres me ladeavam e eles também pouco sabiam. Simplesmente existiam como estátuas, sem história ou memória, sem ofensa ou recompensa visível. Eles nada diziam do dia ou do escuro: deixavam que o sol os envelhecesse, a chuva os encharcasse, a poeira dos dias os lavasse, e nem a luz das estrelas lhes iluminava a noite funda em que marchavam encharcados. Ainda assim insistiam em existir sossegados e essa sossegada existência perturbava o meu sossego, pois não compreendia porque deles me sentia separado e eles inertes me olvidavam, por feitio e não por manha ou sedução.

Pouco fazia sentido, além de andar por caminhos, por veredas e estradas, e ver os mortos, as armas, as mulheres sempre cansadas. Ver os homens instruídos em ideias esgotadas e o martírio dos lírios em campos incendiados. Ver estátuas derrubadas, outras erguidas, sem que nada nesta angústia pudesse sarar as feridas.

Por muitos caminhos andei, porque outro remédio não há senão andar. Nunca parar, sempre hesitar. Os vários ventos teimavam em tisnar-me a fraca pele, torná-la espessa e rugosa, afeita à chuva, serva do tempo e do pensar recorrente. Normalmente temente, prudente e acidentado. E o tempo passava, os caminhos minguavam, as veredas apertavam e as reduzidas estradas sorriam do meu ardor. Lá em cima, imaginava, permanecia a luz, a imponente luz da crença, enquanto aqui, na superfície malhada da terra, se espalhava a doença e eu, sem outra religião para me ligar, ia desfolhando a rosa.

Os vários ventos traziam nuvens de palavras, com a principal tarefa de me esconder o céu. Do norte, do sul, do leste e do oeste. As palavras sumiam-se no papel e o papel era afinal água e moldava-se aos objectos onde era vertido. Pouco fazia sentido, além de andar por caminhos, por veredas e estradas, e ver os mortos, as armas, as mulheres sempre cansadas. Ver os homens instruídos em ideias esgotadas e o martírio dos lírios em campos incendiados. Ver estátuas derrubadas, outras erguidas, sem que nada nesta angústia pudesse sarar as feridas.

E nunca ficar deitado ou nem sequer me sentar. Andar, somente andar. Pedia ao anjo perdão por não ter efectivado o sonolento pecado e por isso não merecer improvável redenção sem o arrependimento, sincero e forte, ungido em tom de lamento. Bastava o desassossego para então me condenar a esta vida no escuro e tão distante da luz. Lavrava com lágrimas os sulcos dos caminhos, das veredas, das estradas. Na noite, subia escadas que pareciam não ter fim, mas quando dava por mim estava longe de chegar a um qualquer patamar, a um sossego parado.

Dava voltas e revoltas no leito escuro da incompreensão. Impossível adormecer. Espero quando morrer ver o negro absoluto. Pois não há um pior luto que o da esperança da luz que não será nunca acesa. E por isso me retiro a uma obscura tristeza, um temor sempre inquieto, a ter algo como certo além do céu percebido. Rolo num campo de trigo, loiro de cabelos, ardente de cigarras, pulmão que procura o ar, refém do sol moribundo na hora crepuscular.

Com ele talvez morrer de ciúmes da insuportável beleza da noite. É ela que me escraviza ao ópio. Ópio de ser. Talvez morrer. Talvez viver, mas à maneira. No dia seguinte acordar para nova brincadeira. Vale tudo se for entrudo.

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