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Homem-estátua

Ana Sofia Fonseca*

O homem é uma estátua. Imóvel. Nem um gesto. O corpo em perfeita quietude. Gorro encarnado e barbas brancas. A baixa lisboeta atulhada de gente, nas compras de Dezembro, e ele em cima de um banco de cozinha. Ontem, Rato Mickey; hoje, Pai Natal. Sempre estátua. Cada um ganha o pão como pode. Bem feitas as contas, desde miúdo que sabe os truques de não mexer nem um dedo. Era assim que escapava ao cinto do pai. O corpo estacado e o pensamento às voltas. Rafael Cardoso, “saltimbanco de profissão, artista de variedades e homem-estátua”. Quando o conheci, em 2005, somava 20 anos no pedestal. Sempre a trocar de rua e de fato, ora em Portugal ora em Espanha. Nunca fora à escola, as letras do nome escapavam-se-lhe tortas, pôr a caneta entre os dedos tem mais magia do que parece. Tinha guizos, isso sim, na manga do fato encarnado para fazer  soar, sempre que uma moeda tilintava no seu chão. E tinha um quarto alugado, numa pensão da Praça da Figueira, frasco de Vick Vaporub na cabeceira, Homem-Aranha no roupeiro. Em Janeiro, havia de lhe vestir a pele.

Ser anti-racista é mais do que deitar uns bustos abaixo ou enchê-los de tinta. A luta não é com o passado. É com o presente. É para o futuro

Nos últimos tempos, tenho-me lembrado muito do Rafael. Estátua na Rua Augusta, das 10 da manhã às sete da tarde. A essa hora, era vê-lo enfiar o pedestal debaixo do braço. Onde estará agora? Rato Mickey?, talvez  Frozen? É aproveitar enquanto a moda de deitar estátuas abaixo não chega às personagens da Disney. Há estátuas na mira do bota abaixo por puro desconhecimento, ou não valesse a ignorância como martelo descontrolado. Outras são de figuras que, à luz do nosso tempo, mais teriam grades do que pedestal. É certo que derrubar uma estátua tem muito de simbólico e de estrondo. Tem também a ver com a utilização que se quer do espaço público. Mas a rua não funciona só das 10h00 às 19h00, vem da madrugada e para lá regressa. Vem de há séculos. Rafael sabia bem que era preciso cair do pedestal ao sabor das estações – Pai Natal em Dezembro, palhaço em Fevereiro, super-herói o resto do ano. Mas isso é poder de carne e osso, necessidade de quem vive das moedas do dia.

O problema de deitar estátuas abaixo é que mais do que derrubar pedra, é derrubar história. E, por muito ruim que o passado seja, é bom que não se apague. Um traficante de escravos nunca mereceria hoje uma estátua. O colonialismo é uma injustiça e uma crueldade sem tamanho. Mas existiu. E o esquecimento é caminho para a repetição. Vamos queimar livros, quadros? Os álbuns dos nossos avôs? A discussão polarizou-se e isso é uma ameaça séria de ponto final, mais ruído do que razão. É preciso saltar dos extremos. Derrubar o preconceito, a ignorância, a xenofobia. Ser anti-racista é mais do que deitar uns bustos abaixo ou enchê-los de tinta. A luta não é com o passado. É com o presente. É para o futuro.

*Jornalista

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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