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Os invisíveis

Fernanda Mira*

A coronacrise está a ameaçar 75% dos trabalhadores domésticos, em todo o mundo, de perderem o emprego. O número equivale a 55 milhões de pessoas. Estes dados foram ontem divulgados pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) e espelham a dimensão social dos tempos que atravessamos.

Detalhando o relatório, é-nos revelado que a grande maioria, cerca de 37 milhões, são mulheres e predominantemente migrantes, que dependem dos salários para sustentar as famílias nos países ou regiões de origem.

A região da Ásia-Pacífico é a mais afetada com 76% dos trabalhadores domésticos a estarem sob risco, seguida das Américas com 74%, África com 72% e a Europa com 45%.

Neste terrível ano de 2020 – já assim o podemos classificar – estamos todos a empobrecer.

Sete em cada dez destes trabalhadores estão no chamado registo “informal”. Não têm proteção social, nem direitos de qualquer espécie. Encontram-se à mercê de um patrão mais ou menos conscencioso.

Estes trabalhadores domésticos – peças colocadas na base desta pirâmide – vivem a sua condição no lastro da palavra invisibilidade. Não damos por eles, mas eles estão lá a fazer a diferença na vida de outros. A limparem-lhe as casas, a cuidar das crianças, a ter refeições a tempo e horas, a ter roupa lavada na hora de sair de casa…

O mercado de trabalho dos “domésticos” depende da condição financeira de outros. Neste terrível ano de 2020 – já assim o podemos classificar – estamos todos a empobrecer. Num quase jogo de pirâmide, a falha de uma peça diz-nos para começarmos tudo de novo. Para aqueles começar de novo não é novidade, nem será tampouco um obstáculo para parar.

Que as contas do recomeço nos dirijam para um caminho de transparência e igualdade. Que no próximo ano o relatório da OIT nos diga que os patrões que tiveram fôlego para recuperar, tiveram também a coragem e o discernimento de olhar e ver os “invisíveis”.

* Editora da versão portuguesa do Plataforma

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