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A Idade da Lata

João Melo

“Mude a sua vida aprendendo a dizer que se f*da” – Sarah Knight, “A arte subtil de dizer que se f*da”, e “Está tudo f*dido – Mark Manson, autor best seller do New York Times, “Não te f*das”, e “Pára com essa m*rda” – Gary John Bishop, best seller do New York Times, “Como deixar de se sentir uma m*rda – Andrea Owen, e “Como sobreviver a um filho da p*ta – Robert I Sutton “ – “um clássico contemporâneo” para Daniel H. Pink, são capas de livros em destaque nas livrarias recentemente reabertas. Valeu bem a pena voltar a abrir… Esta linguagem é possível porque a grosseria disseminou-se, foi aceite como prova de genuinidade, mas depois filtrada pelo “politicamente correcto”, o asterisco. Não tem sentido nenhum, nem o palavrão nem a censura: ou se escreve com todas as letras, ou não se escreve. Pôr um asterisco é um truque para nos ocultar algo, se a obra fosse séria não precisava de máscara; ao pretender esconder a verdadeira intenção, que é apenas uma, vender, a máscara cai por si. 

Não sou contra o uso do tabuísmo, sou contra o abuso do tabuísmo. Imaginem favas guisadas: de vez em quando sabe bem, contudo se as comermos diariamente a todas as refeições vira um inferno, adoecemos. É igual para o pensamento e a ferramenta que o expressa, a língua. Estes livros apresentam sintomas de uma fraca educação que se tornou epidémica, e parecem todos escritos pela mesma pessoa; no fundo o seu autor é uma entidade colectiva, a caixa de ressonância da maioria. 

Eis-nos chegados a uma nova Era, a Idade da Lata, em que ser mal educado, sem papas na língua, e produzir slogans até 280 caracteres é um modo fácil de garantir um quinhão de atenção; não é preciso educação, acrescentar mais valia, tal como os discursos políticos populistas não implicam esforço mental no receptor, sendo embrulhados num apelo emocional semelhante a qualquer produto de consumo. Se o pensamento crítico desapareceu, sobram os guias de coaching, biografias de modelos de sucesso material, gastronomia… É para isto que serve uma livraria? No supermercado temos o mesmo, com a vantagem de nos corredores seguintes venderem fiambre e esparguete. Talvez seja para rir, a mim entristece-me porque 87 anos depois de os nazis terem queimado pilhas de livros chegámos a um ponto em que isso já não tem importância nenhuma, não há nada para queimar. Se ardesse uma livraria com estes “clássicos contemporâneos” seria mais de lamentar o edifício que o seu recheio.

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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