A história nestas páginas toca-nos fundo. Jovens de Macau que buscam conhecimento, perseguem sonhos, ligam a Região a Portugal… sentem na pele o que não tem perdão. A saúde está em perigo, a economia de rastos… Urge ter cuidados individuais e coletivos, prevenir; por vezes, até, isolar cidades e regiões. Mas olhar para o “outro” como se o demónio tivesse raça; pensar que nos livramos uns dos outros, não é só ignorância – é o pior que nos pode acontecer.
O Covid-19 rebentou na China – onde muita coisa tem de mudar – mas arrasa o Irão, o norte de Itália… ameaça mais de 40 países, incluindo Portugal, onde os infetados não são chineses. A gripe A (H1N1) começou no México, o Zica no Brasil, o Ebola em África… outros virão, sabe-se lá de onde.
A deriva xenófoba, idiota, contamina a civilização: contra os chineses, os emigrantes, os negros, os mexicanos… as campanhas de desinformação cavalgam agora o Covid-19. O medo de contágio existe – e justifica-se. Mas está em todo o lado: no cão, no gato, no vizinho, no amor… O ódio faz parte do problema – não da solução. A crise de saúde pública – e suas consequências económicas – tem de ser enfrentada por todos; juntos, com rigor, bom senso, e memória. Derivas xenófobas, no passado, acabaram em guerras. Esta luta é de todos contra o vírus – não de uns contra os outros. Se assim for ganha o bicho, mesmo sendo erradicado. Porque todos perdemos, seja qual for a cor que ilude o que cada um de nós é.
Imagine-se que a China, quando injetar as reservas financeiras para sair da crise, está sentida com outros povos e lhes vira as costas; imagina-se que uma família portuguesa é infetada em Macau e a comunidade chinesa olha de lado… Estes miúdos que se queixam são nossos: chineses ou macaenses, são daqui, são da História de Portugal, são de todos nós. Como são todos os outros. A crise é grave, o perigo existe. Mas perder o juízo, a paz de espírito, o rigor científico… mata a melhor hipótese que temos: estarmos unidos contra a ameaça.
Paul Rego 06.03.2020