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Um referendo “de facto”

A eleição para os Conselhos Distritais este ano foi realizada com sucesso com várias dúvidas e surpresas. Era para ser apenas uma eleição para conselheiros que possuem sobretudo funções relativas a assuntos municipais com um poder limitado em questões mais abrangentes sobre a região administrativa especial. A eleição, todavia, este ano chamou a atenção dos meios de comunicação social internacionais após a onda de protestos e confrontos entre manifestantes e autoridades ao longo dos últimos seis meses.  

Existiam três grandes dúvidas antes deste ato eleitoral. A primeira era se as eleições iriam mesmo ter lugar. Havia uma especulação generalizada que não iriam ser realizadas. Os confrontos diários nas ruas desde 1 de outubro relegaram para segundo plano as atividades dos candidatos. A segunda dúvida era se as eleições seriam subitamente suspensas ou canceladas se houvesse disrupção e violência junto às mesas de voto. A terceira dúvida era se a opinião pública mudaria de posição face aos protestos: de uma simpatia generalizada com o movimento e condenação da polícia e responsabilização do governo para um descontentamento com os manifestantes que paralisaram os transportes e tráfego e a vida dos cidadãos. 

Com os resultados eleitorais, emergem três surpresas.  A primeira diz respeito à afluência às urnas: 71 por cento  – 3 milhões dos 4 milhões de eleitores recenseados, batendo o recorde de participação na história eleitoral de Hong Kong.   A segunda surpresa é, claro, o resultado eleitoral. A vitória inequívoca do campo pró-democracia sobre os campo pró-Pequim, com uma maioria em 17 dos 18 distritos, obtendo cerca de 60  por cento dos votos. Isto quer dizer que passam a ter o direito de eleger o presidente e vice presidente de cada distrito. A eleição de cerca de 400 conselheiros “amarelos” (do campo pró-democracia)  deverá ter impacto no desenvolvimento da sociedade civil nos próximos quatro anos. A terceira surpresa é que a opinião pública rejeitou a maioria dos candidatos do campo pró-Pequim, mesmo alguns que trabalhavam como conselheiros distritais há muitos anos. É verdade que se registou uma subida de votos no campo pró-Pequim para 1.2 milhões de votos, mas do outro lado a oposição alcançou 1.7 milhões. Além disso muitas caras novas e jovens bateram conselheiros veteranos. A única explicação é que este ato eleitoral se converteu num referendo “de facto” ao apoio da população ao governo, à polícia e ao campo pró-Pequim como um todo após seis meses de contínuos confrontos. 

* Lawrence Ho é especialista em políticas públicas e professor auxiliar na Universidade de Educação de Hong Kong

Lawrence Ho 29.11.2019

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