A política externa do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, desviou-se consideravelmente da linha seguida pelos seus antecessores. Afastou-se da ótica de cooperação Sul-Sul que pautou as presidências de Lula da Silva e Dilma Rousseff, e tornou-se mais imprevisível em linha com o “amigo americano do norte” Donald Trump. Os críticos sublinham, com razão, que esta estratégia não vai ao encontro dos interesses do Brasil como polo do bloco BRICS – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Pelo contrário: diminui a iniciativa do Brasil nas organizações multilaterais.
Um exemplo dessa inconsistência é a abordagem à China. O caminho trilhado nos anos de Lula da Silva e Dilma Rousseff foi de incremento significativo das relações económicas com a China – tornando o principal parceiro comercial do Brasil – e de um entendimento geopolítico. Os sinais dados por Bolsonaro na campanha eleitoral e as declarações iniciais do seu ministro das relações exteriores indicavam alguma hostilidade face a Pequim. Todavia, ao longo deste ano, e sobretudo nos últimos meses, a realidade e o bom senso impuseram-se. O Vice-Presidente Hamilton Mourão já tinha dado o mote com a visita a Pequim em maio. As arestas foram sendo limadas, abrindo caminho para um ambiente mais propício para a ida de Bolsonaro a Pequim, na próxima semana. A visita reveste-se de grande importância para os dois lados.
O Brasil terá a ganhar com o retorno à linha de política externa mais independente face aos EUA. Bolsonaro irá à procura de investimentos chineses. Sendo claro o que Pequim quer deste relacionamento, falta perceber a estratégia desta administração brasileira. Faz sentido que se procure um modelo mais equilibrado nas relações comerciais e que o Brasil aproveite da melhor forma as oportunidades criadas pela Iniciativa Faixa e Rota. É, contudo, preciso também que neste relacionamento as questões ambientais e de sustentabilidade ocupem uma verdadeira centralidade, a par da economia azul, turismo, respeito pelos direitos dos povos e das relações culturais, linguísticas e educacionais, sem esquecer as potencialidades dos laços entre cidades e regiões. É aqui que Macau entra em cena. Para se afirmar indiscutivelmente como plataforma sino-lusófona, Macau precisar de ter o Brasil efetivamente empenhado. Nos últimos dois anos foram dados alguns passos nesse sentido, mas é importante dar o salto. O Brasil tem muito a ganhar com a utilização de Macau como plataforma de “soft power”. A presença brasileira esta semana no Fórum de Economia de Turismo Global foi uma amostra.
José Carlos Matias 18.10.2019