O Executivo quer agravar as penas; trata o consumo de drogas como crime de lesa-pátria; mostra mão firme onde mais valia ter consciência social. Quando, na maior parte do mundo, vingam as teses de prevenção e tratamento, sobretudo no caso das drogas duras; se a legalização das drogas leves ganha cada vez mais adeptos e geografia, reduzindo a criminalidade e dignificando os consumidores; porque razão anda Macau ao contrário? Porque há fases em que as correntes conservadoras elegem o tema como farol de uma moralidade exagerada com radicalismo ideológico. A tese securitária está longe de se esgotar nas drogas.
O filme não é novo. Na Justiça e na Segurança essa corrente vem de longe e olha para o mundo como um antro de pecados mortais. Rever os códigos e agravar todas as penas; espalhar câmaras de vigilância por todo o lado; prender primeiro, perguntar depois; fazer antes as buscas, pedir mandatos judiciais a seguir; entrar e sair de onde bem entendem; ver, rever e rebuscar sabe-se lá o quê; controlar tudo e todos em nome de um perigo abstrato que não existe nem faz sentido. Há um crença política na base desta atitude: é preciso prender toda a gente e por isto na ordem. De vez em quando essa tese levanta a cabeça, na convicção de que o caminho para a China implica firmeza e quem quer governar o futuro tem de provar ser duro.
Vejamos as coisas em perspetiva: há, de facto, um submundo e uma lógica mafiosa nos setores mais sensíveis da economia; é verdade que a China cavalga o combate à corrupção – com consequências políticas – e em Macau o consenso faz-se em torno de uma autonomia formatada pela Mãe Pátria. Mas não vale a pena exagerar. Macau não representa perigo real, nem para a China nem para si próprio; as teses securitárias vivem novo momento de esperança, mas não podem destruir o que importa preservar. O nacionalismo precoce e exacerbado vai contra a corrente, mina as teses de Deng Xiaoping e bloqueia o charme que é suposto manter no Segundo Sistema. É preciso ter calma. Integrar, sim; moralizar, claro; mudar e crescer, como é óbvio. Mas não destruir.
Paulo Rego