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A criatividade entrou em todos os setores económicos

Professor de política económica, consultor de empresas e de governos, Augusto Mateus apaixona-se pelos modelos económicos que melhor incorporam a cultura e as indústrias criativas. É um mito, explica, pensar-se que se trata de “casulos, habitados por pessoas especiais” e subsidio-dependentes. A cultura tomou conta das sociedades modernas e a criatividade comanda todos os setores da economia, do primário ao terciário. Em Macau, alerta, o debate está mal enquadrado: “Não é por haver uma crise no modelo económico que as indústrias criativas vão germinar espontaneamente”.

[Augusto Mateus ]- Estamos sempre a falar de três realidades separadas: primeiro, há os portadores de direitos, nomeadamente no acesso à cultura, que é um exercício da cidadania e, por isso, tem a ver com as políticas públicas. As artes, as performances ou o património não têm efeito neutro: quanto mais avançada é uma sociedade mais atenção dá à função pública de garantir uma certa equidade no acesso aos bens culturais.

No caso de Macau, esse investimento deve proteger as várias culturas que formatam a cidade?

[A.M] . – Exatamente! A cidadania é cada vez mais global.

Qual é a segunda das três realidades que mencionou?

[A.M] – O segundo aspeto, mais vibrante, é que nas sociedades modernas a economia e a cultura decidiram namorar e chegar a união de facto: a cultura interessa-se pelos modelos de financiamento e a economia percebe que a cultura produz bens e serviços de grande valor. A digitalização multiplicou isto de forma exponencial e, neste contexto, surgiram as indústrias culturais. Não há comparação entre a forma como se produz e difunde a literatura hoje ou nas décadas de 1960/70. O broadcasting alargado e as plataformas multimédia promovem indústrias culturais pujantes, motor económico que revoluciona também o acesso ao património.

De que forma?

[A.M] – O museu já não é apenas um museu, no sentido clássico. Os mais dinâmicos têm uma lógica de negócio muito próxima dos modelos da internet: pay as you go. Há coisas pagas, outras gratuitas; visitas presenciais, ou virtuais… As indústrias culturais ganharam um peso enorme e os modelos de consumo descem drasticamente nos bens materiais e aumentam nos bens e serviços.

– Sobretudo culturais?

[A.M] – Um macroeconomista e professor de política económica como eu não será muito popular nos meios culturais; mas comecei a interessar-me pelas indústrias criativas numa das minhas especialidades: análise da competitividade. Como é que as empresas e as economias podem crescer a sério? E não interessa tanto o ícone do PIB, mas a qualidade de vida e a capacidade de gerar riqueza. Tornou-se popular a ideia de que o futuro das economias é baseado na inovação e no conhecimento, mas também na cultura e na criatividade.

– O conhecimento e a cultura moldam toda a economia?

[A.M] – Muita gente pensa que a tecnologia imputa tudo. Mas a ideia de que há um automatismo entre tecnologia e crescimento, ou que inovação é só tecnologia, é profundamente errada. Precisamos de inovação global e onde temos de inovar mais é neste surto das indústrias culturais. E temos de entender a complementaridade entre cidadania, consumidor e criador. Outra ideia mal percebida é a de um conjunto específico de pessoas domina diferentes línguas e linguagens, entrando em interatividade nos meios criativos.

– Não é assim?

[A.M] – Nas empresas fala-se em competitividade, na medida em que se ganham clientes e se vende mais; mas numa cidade ou território temos de falar de atratividade. O que interessa é atrair talentos, pessoas capazes e dinâmicas. Os meios criativos têm sido tratados como se fossem ilhas, casulos de gente especial. Mas não é assim. Por que é que temos universidades e não faculdades?

– Para promover a interdisciplinaridade?

[A.M] – Para que quem estuda economia comunique quem estuda história, artes ou engenharia. A isto chama-se serendipidade. Ou seja, se eu passar o dia a interagir com pessoas diferentes de mim, tenho mais ideias, sou mais criativo e melhor no que faço. Temos de criar plataformas onde caibam cidadãos, consumidores e criadores; porque se falta um dos três ficamos coxos. Quando quero reinventar ou diversificar uma economia – como hoje precisa qualquer território – ganho muito em criar este quadro. Depois a plataforma tem a ver com ideais; e as comunidades podem ser pontes de acesso – duas línguas que se interceptam – ou podem ser mais vastas.

– Como integra Macau nessa visão?

[A.M] – Não penso numa coisa estrita entre Portugal e a China, mas sim numa mais vasta, onde entram a língua de comunicação global – inglês – e as línguas com as quais aqui se interage e se pensa: português e as várias manifestações do chinês. O peso da criatividade e das novas tecnologias de comunicação é enorme; as linguagens específicas da arte e da criação cruzam-se com as outras e criam uma plataforma vibrante, que não precisa de milhares de pessoas.

– O impulso para as indústrias culturais deve partir do Estado?

[A.M] – Falamos muitas vezes de empreendedorismo, mas que ele não fique à porta do Estado! Se não houver na Administração gente empreendedora como a posso melhorar? A melhor forma de empreender é dentro de uma empresa, onde um funcionário pode ser muito mais que um assalariado. Tal como um aeroporto hoje não é apenas um aeroporto; porque se não for muitas outras coisas não gera receitas e não faz aterrar e levantar aviões. Esta dinâmica é importante e, no futuro, ou as empresas são criativas ou não.

– Em todos os sectores?

[A.M] – O ácido sulfúrico, o gasóleo, a gasolina… As chamas commodities, não têm de ser criativas. Mas os óculos não são só um instrumento para corrigir a vista; uns são redondos, outros quadrados, têm cores e materiais diferentes… Se vendo um casaco ou uma camisa, sem mais, o seu valor é muito baixo. Sobretudo nos bens de consumo, ou tenho produtos criativos ou não tenho valor. Por isso não faz sentido dizer que estou numa indústria criativa e aquele está numa indústria não criativa. Tal como a digitalização, a criatividade entrou em todas as atividades económicas.

– Mesmo no sector primário?

[A.M] – Onde a economia do conhecimento está a entrar mais depressa é no sector agroalimentar, onde há reocupações de segurança cada vez maiores e a produtividade se baseia no processamento dos alimentos. O Mateus Rose, expoente da exportação dos vinhos portugueses, já desenhou um vinho de outra cor, com sabor e cheiro para além de Portugal. Há um conjunto de produtos ditos primários absolutamente criativos.

– No sector turístico a criatividade está na reinvenção do património?

[A.M] – É importante, sem estragar, dar sentido económico ao património, usando a parte melhor da História para promover a produção presente. A Itália foi nisso pioneira, tendo utilizado intensivamente o renascimento para promover a produção industrial. Mas também a própria ideia de que um produto criativo é civilizacional; ou seja, faz estilo de vida, não se fecha em si próprio. A partir daqui, a cultura deixa de ser um patinho feio, com necessidades de financiamento, e passa a ser uma fonte de criação de riqueza.

– Na relação entre Administração e entidades culturais há o risco dos tais casulos se transformarem em clientelas políticas. Como se evita isso?

[A.M] – As políticas públicas devem ser orientadas com grande firmeza, assumindo uma posição preponderante na equidade ao acesso cultural. Tem de se gastar dinheiro a levar a cultura a toda a gente, formando com isso públicos alargados. Mas os financiamentos têm de ser transparentes e por concurso. Não faz sentido que a política decida qual é a arte boa e a má. Por isso tem de haver regras claras, prioridades definidas, apresentação pública e discussão aberta das decisões. Outra maneira de se evitar esse perigo é tentar que as indústrias culturais sejam mais independentes dos fundos públicos.

– Há bons exemplos de financiamentos não dirigidos?

[A.M] – Portugal exagerou nas obras públicas, mas fez uma coisa interessante ao afetar um por cento das grandes obras à preservação do património. Houve um período em que o património estava gasto e degradado, mas as pessoas preferiam o desenvolvimento acelerado. Felizmente a situação inverteu-se, mas só depois de ser gasto muito dinheiro na conservação.

– Esse dinheiro tem sido bem investido?

[A.M] – Esse é outro aspeto importante. Não há razão para que as indústrias culturais sejam amadores. Por que razão a cultura tem de ser amadora e fazer botões é profissional? Nos estudos que fiz em Portugal, os sectores culturais representam mais de 3% do PIB; são mais importantes que os têxteis e geram mais emprego que o agroalimentar. É na velha concessão da cultura, dependente do poder político, que surgem os maiores perigos de clientelismo.

– Não se exige ao sector público que seja mais qualificado e capaz de reflexão autónoma?

[A.M] – Sim. Mas este percurso também requer menos casulo e mais arquipélago. A solução é abandonar a ilha em que o músico só fala com músicos e o escritor só fala com escritores, para fazermos um grande arquipélago de indústrias culturais, com força para debater com o Estado, exigir regras, meios, e estabilidade a médio prazo. Não interessa uma política generosa num ano e depois estragar tudo no ano seguinte.

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“A discussão em Macau está virada ao contrário”

Macau quer apostar nas indústrias culturais como base da diversificação económica. Mas o mercado é reduzido e tem pouco historial de inovação e criatividade: neste contexto, quais são os primeiros passos a dar?

A.M – Não sei o suficiente sobre o Macau para emitir uma opinião doutoral. Acompanho e tenho um conhecimento relativamente profundo, pelo que leio e porque trabalho muitos países, mas a verdade é que não vivo cá. Dito isto, pareceme que a discussão está a laborar num erro: não é por haver uma crise no modelo económico que as indústrias criativas vão germinar espontaneamente. Macau fez grandes investimentos num modelo estreito, baseado no hotel/casino, criando uma situação excepcional ao nível das receitas. É preciso ter a percepção de que este modelo tem um ciclo de vida curto, pelo que seria correto, enquanto as coisas ainda correm suficientemente bem, pensar onde é que se pode alargar a banda de oferta.

– Há uma aposta assumida no mercado MICE; aliás, altamente subsidiado…

A.M – Mas é preciso trabalhar esse mercado intensamente. Lisboa é a 9ª cidade do mundo, Barcelona a 7ª e Madrid a 4ª. Ao pé de Macau, Lisboa é um gigante nas indústrias MICE.

– Fará sentido uma ponte para Lisboa, criando parcerias nessa área?

A.M – Sem dúvida. Por outro lado, estas áreas abrem novos mercados: se faz espetáculos tem de produzir técnicos e pode desenvolver a sua própria capacidade de produção global. Se faz bons espetáculos pode filmá-los, exportá-los; pode até montar escolas de formação. O que é preciso é uma estratégia que não se centre nas receitas, mas na criação de valor. Na lógica de não apostar tudo no jogo, há a diversificação dentro do turismo, que passa pela necessidade de diversificar o próprio shopping. Macau tem um modelo de sucesso nas lojas de marca, mas não foi capaz de garantir a sobrevivência do comércio tradicional. E as cidades mais vibrantes têm comércio de rua.

– E a outra diversificação, fora do turismo?

A.M – Este aparelho com que está a gravar a entrevista é fabricado na China e vendido no ocidente a 589 dólares. Mas sai a 135 da China, que importa 115 em componentes vindos do Japão, da Coreia ou de Taiwan. A economia das toneladas não interessa a ninguém; o que conta é a criação de valor. Pelo que leio nos jornais, e pelas conversas que tenho tido, penso que em Macau a discussão está virada ao contrário: os pés para cima e a cabeça para baixo.

-Em que sentido?

A.M – Parece que as indústrias criativas brotam da crise do jogo. Contudo, têm de ser vistas como solução para recuperar a competitividade do modelo turístico, atraindo novos públicos e combinando de maneira diferente o jogo, as artes e os espetáculos; o shopping e o comércio tradicional…

– Como é que a plataforma lusófona pode ajudar nessa reconversão?

A.M – Ninguém no mundo se pode virar para dentro; mas também não queremos o modelo extrovertido, em que alguém de fora nos vem organizar. Temos de nos projetar com base nos recursos endógenos e distintivos: cultura, património, capacidades profissionais… Em Portugal, uma marca distintiva é a combinação entre as culturas do Mediterrânio e do Atlântico. A força não está numa delas, mas na sua combinação. Já dizia Carlos V: fosse Lisboa a minha capital e eu seria dono do mundo. Foi há uns séculos, mas é a expressão do valor de uma posição geoestratégica única.

Macau também tem uma posição especial…

A.M – Macau está no ponto de encontro de uma China que tem um sistema complexo, que se articula com as regiões especiais e com Taiwan. Está numa zona de grande expansão e muito bem posicionada; no sítio mais atrativo do ponto de vista das redes de relações mundiais. É perfeitamente possível um projeto vencedor, trazendo a articulação entre a língua portuguesa e a capacidade de se abrir ao inglês, às várias expressões do chinês e ao domínio das novas tecnologias. Tudo isto tem de ser traduzido em modos de vida atrativos e inovadores.

– Pode ser importante para outros países, como Portugal?

A.M – Para Portugal isto é importantíssimo, tal como para o Brasil ou mesmo para os países lusófonos menos influentes. Mas Macau tem de se dar a conhecer e tem de prestar serviços de qualidade. Por outro lado, há uma visão errada em Portugal, segundo a qual a plataforma da língua portuguesa é uma espécie de aconchego, uma alternativa à globalização. Pelo contrário, tem de ser um instrumento ativo para se ter sucesso na globalização.

– O mecenato poderia dar um impulso às indústrias culturais em Macau?

A.M – O mecenato é sempre possível e vemos nos casinos obras de artistas, que é outra forma de apoio. Temos que desenvolver o que há de mercado. Quanto ao mecenato, pode ser positivo se houver regras claras e ganhos para o sector privado ao canalizar recursos para a cultura, porque ajuda o Estado a prosseguir os seus objetivos. O que é preciso é induzir o alargamento de oportunidades e o desenvolvimento de mercado. Bem sei que o modelo aqui é mais centralizado e dependente do governo, mas é muito importante que não haja discricionariedade e que o volume de investimento seja suficiente e previsível, obrigando as pessoas a mexerem-se e a fazerem projetos em conjunto. Esse caminho dá muito mais resultados do que o mecenato, que surge sempre como aquilo que resolvia tudo e depois não resolve nada.

José I. Duarte e Paulo Rego

23 de outubro 2015

 

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