– Lisboa é uma inevitabilidade para um advogado português em Macau; ou parte do puzzle lusófono?
José Lupi – No nosso caso é parte de um puzzle; acho uma inevitabilidade estar associado a escritórios fora de Macau, pela dimensão do mercado e pelas suas características de plataforma. No nosso caso, Lisboa inclui uma relação com a Europa e com África lusófona, tendo Angola e Moçambique como eixos fundamentais; e, no caso da Morais Leitão, também com Timor-Leste. Acreditamos que na China, com o projeto “Uma Faixa, Uma Rota”, e com o projeto da Grande Baía, vamos assistir a uma nova vaga de investimentos para estas jurisdições. Angola e Moçambique, pelas suas características e dimensão, mas também pelo seu momento de desenvolvimento, são obviamente mercados-chaves. Timor-Leste apresenta oportunidades interessantes, dado o seu potencial mineiro, petróleo, gás; e posição geográfica no sudoeste asiático. Mais perto de casa, por assim dizer.
– Rede lusófona…
J.L. – A Morais Leitão tem sede em Lisboa, mas já não é um escritório português; é uma operação internacional. Para nós é o parceiro natural e óbvio.
– Foi fácil explicar onde Macau encaixa nesse puzzle?
J.L. – No caso da Moraes Leitão sim, pela sua experiência internacional e na Ásia Pacífico. Têm escritório de Singapura, presença em Timor-Leste, experiência com as transações chinesas em Portugal; e, até, histórico nos mercados de Macau e de Hong Kong.
– A parceria implica áreas específicas?
J.L. – Há setores identificados que acreditamos serem absolutamente fundamentais para a parceria; no contexto das principais áreas de investimento chinês, o dito outbound. Estamos a falar de petróleo e gás, novas energias, mineração, tecnologia, big health; e, em certa medida, também imigração. No que a nós diz respeito, não só no mercado de Macau, mas também pelas ligações que temos com os escritórios chineses, permite-nos prestar valor acrescentado em todas as operações que vão da China para estes países, estando a nossa equipa local a trabalhar muito perto com a equipa de Singapura. No fundo; juntando o meu percurso pessoal em escritórios internacionais na China e em Pequim; a equipa que está em Singapura, e o percurso da Morais Leitão com outro tipo de escritórios internacionais, permite-nos combinar o expertise local e regional de China com o expertise internacional da Morais Leitão, quer em Portugal quer nos Países da Língua Portuguesa.

– As empresas chinesas reconhecem em Macau esse know-how?
J.L. – Acredito que sim. O grande desafio, especialmente quando falamos em transações no mercado da advocacia, é perceber como se acrescenta valor sem que o custo para o cliente se torne proibitivo. Uma proposta conjunta entre um escritório de Pequim ou Xangai, que trata de um investimento para Angola; de repente com uma terceira parte como Macau, ou Portugal, tem de dar valor acrescentado sem tirar competitividade à proposta. O mercado da China é altamente desenvolvido; os advogados falam todos inglês e a maior parte deles tem experiência a trabalhar nos Estados Unidos ou na Europa. Portanto, a necessidade absoluta de ter este elemento mediador provavelmente não existe.
É também um investimento da Morais Leitão em Macau, num momento que acreditamos ser importante para os objetivos que há no desenvolvimento da plataforma, também na Grande Baía. Quanto mais houver melhor
– Porque vão então recorrer a Macau?
J.L. – Não há essa necessidade absoluta. Obviamente acrescenta valor a nós, a Macau e à Morais da Leitão. A questão é saber como acrescentamos valor ao cliente sem afetar a competitividade da nossa proposta.
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– Tem sempre um custo acrescido…
J.L. – Claro; por isso temos de acrescentar valor; e acredito que é possível, temos a experiência de que assim é. Obviamente, o mercado na China é muito mais competitivo que o de Macau; há muito mais advogados, muito mais escritórios e todos muito capazes. É um desafio, mas acreditamos que vai resultar.
– Um escritório de advogados na China facilmente tem 1000 advogados...
J.L. – Ou 1500! E, por maioria de razão, os que fazem negócios internacionais. Para Macau, estarmos com um escritório com a história e a qualidade da Morais Leitão é ótimo a todos os níveis, inclusive para formação de quadros.
– Nos mercados lusófonos o foco é sempre atrair capital chinês. É possível Macau ser também ponte para capital estrangeiro na Grande Baía?
J.L. – Sem dúvida; já há casos práticos que podemos observar, mas o potencial é muito maior do que aquilo que está a ser feito até agora. Acreditamos que esta parceria surge no momento certo, dada a conjuntura geopolítica internacional, a conjuntura política do país, e também a local. Acredito nisso, embora seja importante notar que o fluxo de investimento expectável é mais da China para os países lusófonos, até pelas características dos países em causa.

– Em que setores se nota mais interesse nesse inbound?
J.L. – Tecnologia, Saúde; serviços financeiros… há muito know-how nas empresas líderes nesses setores que podem de facto vir investir na Grande Baía; e há também um historial de relação com essas empresas na Morais Leitão.
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– Qual é a vantagem competitiva de Macau?
J.L. – A posição geográfica é fundamental; estamos a três horas e meia de avião de Pequim, a duas horas de Xangai, a uma hora de Hong Kong, duas horas de Cantão… Por outro lado, as características do sistema jurídico de Macau são óbvias, muito parecidas com a dos mercados em causa; e a atratividade fiscal de Macau também é importante. São características naturais que conferem a Macau vantagem nesse papel. Quando falamos de Macau; e isto já de uma perspetiva pessoal, pensamos sempre em China. E, de facto, Macau é uma base privilegiada para fazer essa ponte.
– Não é preciso mais gente qualificada?
J.L. – Acho que sim; e formação, como já fiz referência. É importante haver investimento em Macau; e esta parceria, de uma forma ou de outra, é também um investimento da Morais Leitão em Macau, num momento que acreditamos ser importante para os objetivos que há no desenvolvimento da plataforma, também na Grande Baía. Quanto mais houver melhor.