O embaixador de Cuba em Lisboa considerou hoje a acusação dos Estados Unidos contra Raúl Castro como uma “escalada” da tensão entre Washington e Havana, admitindo “qualquer ação” contra a ilha, que está preparada para “todos os cenários”.
Raúl Castro — dirigente histórico da Revolução Cubana, irmão de Fidel Castro e Presidente de Cuba entre 2008 e 1018 – foi formalmente acusado nos Estados Unidos por alegado envolvimento no abate de duas aeronaves civis cubanas, em fevereiro de 1996, um episódio que provocou quatro mortos, incluindo três cidadãos norte-americanos.
A acusação inclui crimes como conspiração para matar cidadãos americanos, destruição de aeronaves e homicídio, num caso que Washington recupera quase três décadas depois.
Em entrevista telefónica à Lusa, o embaixador cubano em Lisboa, José Ramón Saborido Loidi, classificou a iniciativa norte-americana como um “ato desprezível e infame de provocação política”, alegando que os Estados Unidos “carecem de legitimidade e jurisdição” para avançar com este tipo de acusação, ligada ao abate de duas aeronaves de uma organização anticastrista em 1996.
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“É dessa forma que olhamos para a questão, e assim está na declaração do Governo do nosso país. Trata-se de uma escalada na pressão que tenta impor os Estados Unidos sobre Cuba e que vai permitir justificar qualquer ação”, explicou o diplomata.
Saborido Loidi defendeu que Washington procura “reativar propósitos” de hostilidade contra a Revolução Cubana e insistiu que a acusação surge como um “pretexto” para tentar controlar Cuba e mudar o sistema político da ilha.
Para o embaixador, trata-se de uma violação de direitos e de uma manipulação de factos históricos.
“Não há nenhuma procedência desta acusação”, sustentou o embaixador, acusando os Estados Unidos de instrumentalizarem a justiça e de recorrerem a uma narrativa mediática para legitimar uma eventual agressão contra Cuba.
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O diplomata associou o caso à política norte-americana de bloqueio e pressão sobre a ilha, lembrando o agravamento das restrições económicas, comerciais, financeiras e energéticas.
O embaixador lembrou que Cuba enfrenta há décadas “ações de intimidação e agressão” e que os Estados Unidos estão agora a insistir neste processo como parte de uma estratégia mais ampla. Apesar do tom duro, Saborido Loidi sublinhou que Havana continua disponível para o diálogo.
“Cuba não negocia sob pressão, mas mantém a sua disposição para negociar em igualdade de condições e sob o respeito de ambos os países”, afirmou o embaixador, insistindo que o seu país “não negocia a soberania e independência” e reafirmando que Cuba quer “um ambiente de paz” e não fecha a porta ao entendimento com Washington.
Sobre a reação da comunidade internacional, o diplomata disse esperar apoio das Nações Unidas e de outros países, incluindo Portugal.
“O povo português sempre foi solidário com o nosso país”, reconheceu Saborido Loidi, dizendo confiar que essa solidariedade se manterá em relação ao “projeto da revolução cubana”.