Donald Trump nunca teve uma relação simples com a guerra. O Presidente dos Estados Unidos da América evitou o serviço militar obrigatório — recebendo cinco dispensas durante a Guerra do Vietname — mas pronunciou-se sempre com total confiança sobre como cada conflito americano deveria ter sido travado e vencido.
A visão de Trump sobre a guerra assenta em alguns pilares: desprezo por conflitos longos e sem resolução; crença na força esmagadora como o caminho mais rápido para a paz; e, talvez mais importante e característico, uma convicção profunda de que o poder militar dos EUA foi posto em causa.
Ao longo de dois mandatos presidenciais e décadas de declarações públicas, eis as posições que Trump tem tomado sobre os conflitos mais marcantes da história dos EUA.
Vietname: “Teríamos ganho facilmente”
Trump nunca esteve no Vietname — evitou o recrutamento cinco vezes, a última com uma isenção médica em 1968. Publicamente, afirmou nunca ter sido “fã” da guerra, descrevendo-a como um conflito “num país do qual ninguém ouviu falar”. Por outro lado, para o 45.º e 47.º Presidente dos EUA teria sido uma “honra” ser chamado a servir o seu país na guerra contra os Viet Cong, acrescentando: “Não me importaria nada”, numa entrevista a Piers Morgan em 2019.
Antes disso, em 1984 – no auge da corrida ao armamento da Guerra Fria – Trump queria ser o responsável por liderar as negociações nucleares entre os EUA e a União Soviética. “Acho que já sei muita coisa, mas precisaria apenas de hora e meia para saber tudo sobre mísseis”, afirmou.
O seu revisionismo sobre o desfecho da Guerra do Vietname tem sido ainda mais incisivo. Em 2025, Donald Trump argumentou que o problema no Vietname foi a contenção política, não o fracasso militar. “Se eu fosse Presidente nessa altura, teríamos vencido o Vietname muito depressa”, disse.
A sua leitura retrospetiva sobre as razões da derrota foi direta. A bordo do USS Harry S. Truman, em 2025, explicou a sua posição sem rodeios:
“O problema com o Vietname foi termos parado de lutar para ganhar. Teríamos ganho facilmente. Teríamos derrubado o Afeganistão facilmente e teríamos vencido todas as outras guerras facilmente. Mas tornámo-nos politicamente corretos”, enalteceu.
O Trump chegou a publicar na rede social Truth Social, gráficos comparando a duração de guerras — Primeira Guerra Mundial: quatro anos. Segunda Guerra Mundial: seis anos. Guerra da Coreia: três anos. Vietname: dezanove anos — apresentando-os não como prova da complexidade de um conflito, mas de uma falta de vontade.

Trump compara a duração de grandes conflitos militares dos EUA com a guerra no Irão. Foto: @realDonaldTrump/Truth Social
Golfo: a guerra que Trump apoiou
A relação de Trump com a Guerra do Golfo — a operação liderada pelos EUA para expulsar o Iraque do Kuwait — tem sido mais complexa do que a sua retórica sugere. Em 1991, quando uma ampla coligação internacional sob o comando do Presidente norte-americano, George H.W. Bush, expulsou Saddam Hussein do Kuwait, Trump foi amplamente favorável.
No entanto, na sua opinião, os EUA pararam cedo demais. “Gostaria que a primeira vez (“Tempestade do Deserto” – “Operation Desert Storm”) tivesse sido feita corretamente” — foi assim que Trump descreveu a Guerra do Golfo numa entrevista em 2002 a Howard Stern, criticando-a, porém, por não ter resultado na remoção definitiva de Saddam Hussein.
Anos mais tarde, pressionado sobre o significado de “corretamente”, Trump explicou que George H.W. Bush “deu-lhes uma lição”, mas permitiu que Saddam Hussein sobrevivesse e reivindicasse uma vitória moral — gabando-se de ter contido “os americanos feios”. Para Trump, o facto de Bush não ter acabado com o regime de Hussein logo em 1991 tornou inevitáveis os acontecimentos posteriores — as sanções, o 11 de setembro e a consequente invasão americana do Iraque em 2003.
Iraque: a guerra que Trump afirma ter sido sempre contra
Nenhum conflito foi mais central para a identidade política de Trump do que a invasão do Iraque em 2003 — e nenhuma das suas afirmações foi mais amplamente contestada. Trump insistiu, repetida e categoricamente, que se opôs à invasão desde o início. “Discordei fortemente”, disse em 2019.
“Não havia armas de destruição maciça. Acabou por provar-se que eu tinha razão.” A Guerra do Iraque tornou-se um tema central da sua campanha de 2016, como forma de se distinguir dos outros candidatos republicanos e de atacar Hillary Clinton.
O problema é que o histórico de Trump não sustenta esta versão. Quando questionado no programa de Howard Stern, a 11 de setembro de 2002, se apoiava a invasão do Iraque, o Presidente norte-americano respondeu: “Sim, suponho que sim”.
Inconsistências à parte, a crítica pós-invasão tornou-se contundente. O Presidente dos EUA apelidou o conflito no Iraque de “desastre”, culpou a invasão americana pela desestabilização de todo o Médio Oriente e argumentou que a retirada de tropas do país muçulmano em 2011 — decisão tomada durante a presidência de Barack Obama — criou o vazio que deu origem ao Estado Islâmico.
“Deveríamos ter ficado com o petróleo quando saímos. Se tivéssemos ficado com o petróleo, não haveria ISIS (Estado Islâmico), porque eles financiam-se com o petróleo”, disse em 2017.
Afeganistão: de “erro terrível” ao Acordo de Doha
As posições de Trump acerca da invasão americana ao Afeganistão mudaram mais do que qualquer outra questão de política externa. Em 2011, foi categórico: “Quando vamos parar de desperdiçar dinheiro a reconstruir o Afeganistão? Temos de reconstruir primeiro o nosso país”.
Em 2012, apelidou o conflito de “desastre total” e questionou por que é que os EUA continuavam “a treinar estes afegãos que depois matam os nossos soldados quando estes viram as costas”. Em 2013 revela: “Temos de sair do Afeganistão. Gastámos biliões e os nossos soldados estão a ser mortos pelos afegãos que treinámos. É absurdo!”.
Em 2015, como candidato presidencial, disse à CNN: “Foi um erro terrível envolvermo-nos lá desde o início”. Poucas semanas depois, voltou atrás: “Nunca disse isso. O Afeganistão é diferente — faz fronteira com o Paquistão, que tem armas nucleares”.
Após tomar posse, os instintos de Donald Trump voltaram a inclinar-se para a retirada. Contudo, em 2017, no seu primeiro discurso sobre a estratégia para o Afeganistão, reconheceu a pressão dos seus generais no sentido contrário. “O meu instinto original era sair, e ao longo da vida costumo seguir os meus instintos”, salientou.
“Mas durante toda a minha vida ouvi dizer que as decisões são muito diferentes quando se está sentado atrás da secretária da Sala Oval”. Donald J. Trump anunciou assim uma estratégia baseada em alguns parâmetros, alargando a autoridade militar sem especificar números de tropas ou calendários.
No último ano do seu primeiro mandato, Trump comprometeu-se com o fim da guerra. O Acordo de Doha de 2020 com os talibãs — negociado sem o governo afegão à mesa — comprometia a retirada total de tropas dos EUA em 14 meses, em troca de garantias vagas dos talibãs relativamente à Al-Qaeda.
Em janeiro de 2021, restavam apenas 2.500 efetivos militares americanos no Afeganistão, o número mais baixo desde 2001. Quando os talibãs reconquistaram Cabul em agosto de 2021, já durante a presidência de Joe Biden, Trump culpou o seu sucessor. A retirada foi “o momento mais vergonhoso da história do nosso país”, revelou o antigo anfitrião do programa “The Apprentice”, afirmando ser capaz de gerir a saída das tropas de forma diferente.
Ucrânia: pacificador, crítico e aliado relutante
A posição de Trump sobre a invasão da Rússia à Ucrânia em 2022 evoluiu, por vezes no espaço de semanas. O Presidente dos EUA criticou, e tem criticado, sistematicamente os aliados da NATO por não investirem suficientemente na área da defesa. Questionou os compromissos financeiros dos EUA perante a Ucrânia e acredita na culpabilização da Europa pelo conflito entre as nações vizinhas.
Durante o segundo mandato, a administração Trump produziu um quadro de paz com 28 pontos, no qual constam a suspensão do alargamento da NATO — uma exigência da Rússia — e a inclusão de garantias de segurança para a Ucrânia. O Presidente americano reivindicou o mérito pessoal de ter impedido uma vitória russa:
“Sem o meu envolvimento, a Rússia teria agora toda a Ucrânia”, afirmou no início deste ano. Numa mudança que surpreendeu, Trump revelou que a Ucrânia (com o apoio da NATO) poderia recuperar todo o seu território.
Anos antes e enquanto candidato em 2024, prometeu acabar com a guerra antes mesmo de tomar posse: “Vou resolver essa guerra antes de me tornar Presidente”.
De volta à Casa Branca, o 47.º Presidente norte-americano tornou-se duramente crítico do seu homólogo ucraniano, Volodymyr Zelensky, questionando a legitimidade da sua governação em tempo de guerra e distribuiu as culpas do conflito de forma abrangente.
“Há milhões de mortos por causa de três pessoas — Vladimir Putin em primeiro lugar, Biden em segundo, e Zelensky”, afirmou.
Irão: de máxima pressão a guerra
A guerra no Irão é o conflito mais capaz de testar a aversão que Donald Trump tem a guerras prolongadas no estrangeiro. No seu primeiro mandato, retirou os EUA do acordo nuclear de 2015 — o Plano de Ação Conjunto Global — e impôs sanções abrangentes ao país muçulmano sob o lema da “máxima pressão”.
Trump defendeu a decisão como uma correção do “pior acordo de sempre”.
No seu segundo mandato, a pressão escalou para uma guerra aberta. A 28 de fevereiro de 2026, os EUA lançaram operações militares contra o Irão, com Trump a enquadrá-las na sua doutrina: “Fazemos isto pelo futuro”.
Os objetivos declarados multiplicaram-se rapidamente: destruir o programa de mísseis do Irão, neutralizar a marinha, degradar as forças iranianas, impedir a criação de uma arma nuclear e encorajar a mudança de regime. Além destas exigências, Trump ameaçou enviar o Irão “de volta para a Idade da Pedra” se os ataques continuassem, expressão ecoada pelo seu Secretário de Defesa, Pete Hegseth.
Até agora, o conflito fechou o Estreito de Ormuz, resultou na morte de treze militares americanos e desencadeou uma crise no abastecimento dos mercados energéticos globais, meses antes de um cessar-fogo no mês passado.
Trump tem se regozijado da duração desta “incursão” ao Irão em comparação com as outras intervenções militares dos EUA — enquadrando a ação militar breve como prova de uma liderança decisiva.
Um desfecho comum
Do Vietname à Guerra do Golfo, do Iraque ao Afeganistão, da Ucrânia ao Irão, uma visão coerente percorre todas as declarações de Trump ao longo dos anos: as guerras da América têm sido longas, indecisas e geridas por pessoas que não são Donald J. Trump.
A receita do atual Presidente dos Estados Unidos da América, no que toca a conflitos bélicos além-fronteiras, passa pelo uso da força sem um pedido de desculpas. Se esta doutrina produz os resultados mais curtos e “limpos” que Trump promete, ou se gera complicações novas e diferentes, continua a ser a questão central do seu legado de política externa.