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“A população de Macau precisa de ter ânimo”

A nova peça de teatro dos Dóci Papiáçam “Agora Como?” sobe ao palco este fim de semana, nos dias 23 e 24, e volta a olhar para Macau a partir do quotidiano. Entre o humor, as dificuldades económicas e a recente discussão em torno da bifana, a criação deste ano procura captar um sentimento cada vez mais presente na cidade: a incerteza. Para o encenador Miguel de Senna Fernandes, Macau atravessa uma fase de ansiedade colectiva e o teatro pode devolver algum ânimo ao público

Carol Law

A história acompanha duas irmãs que regressam a Macau para assumir o café deixado pelo pai. O negócio atravessa dificuldades, os clientes escasseiam e a pergunta instala-se naturalmente: ficar ou partir?

Miguel de Senna Fernandes explica que a ideia central da peça nasce precisamente dessa sensação de impasse. Apesar da recuperação económica e do aumento do número de turistas, sente que muitos residentes continuam sem conseguir vislumbrar estabilidade. O encerramento dos casinos-satélite, a tendência do “consumo no Norte” e o crescimento das compras online continuam a pressionar as pequenas e médias empresas.

“Quando é preciso sobreviver, qual é a melhor estratégia?”, questiona. Reconhece que Macau precisa de se integrar mais profundamente na Grande Baía e diversificar a economia, mas sublinha que essa transformação não acontece de um dia para o outro. “Será que para sobreviver é obrigatório partir? Com a redução das oportunidades de emprego local, é natural que se vá para outros lugares, especialmente a nova geração”, diz ao PLATAFORMA.

Durante o processo de pesquisa para a peça, houve uma frase que ficou particularmente marcada na memória do encenador: “não há forma de competir”. Miguel de Senna Fernandes admite que a ideia o tocou profundamente, precisamente por traduzir um sentimento cada vez mais presente na sociedade. Ainda assim, recusa aceitar esse conformismo.

“A IA pode expressar-se [em patuá], a pronúncia pode ser muito padrão, mas será que tem alma? Terá o nosso contexto cultural? Esse é o grande desafio” – Miguel de Senna Fernandes

“De facto, Macau é inferior em muitos aspetos, mas não devemos adotar essa atitude. A população de Macau precisa de ter ânimo, o ânimo é muito importante. Sem ânimo, não serve de nada ir para lado nenhum. Esperamos poder transmitir esta mensagem”.

O encenador acredita que muitos residentes vivem hoje uma espécie de contradição permanente. Por um lado, continuam ligados emocionalmente à cidade e “sentem-se certamente orgulhosas quando Macau prospera”; por outro, o ambiente geral parece mais pessimista e inseguro. “O que fazer? Será que é mesmo preciso deixar Macau para conseguir progredir? Se sim, como será o futuro de Macau?”

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É precisamente essa inquietação que “Agora Como?” procura transformar em humor e reflexão. A ideia passa por provocar gargalhadas, mas também deixar perguntas no ar.

IA “demasiado perfeita”

A Inteligência Artificial também entrou no processo criativo da peça. Miguel de Senna Fernandes revela que utilizou ferramentas de IA sobretudo na recolha de informação e monitorização de opiniões públicas. “Nos media e na internet, qual é a reação a um determinado assunto? Ou a perspetiva de quem está de fora sobre Macau, partindo do ponto de vista de um observador”.

Apesar disso, mostra-se céptico quanto à possibilidade de a IA desempenhar um papel relevante na preservação do teatro em patuá. “A IA também é uma máquina, é preciso alimentá-la com muitos dados. Depois de alimentada o suficiente, será que funciona? Mais ou menos, afinal a linguagem pertence aos humanos. Não acredito que as máquinas possam substituir os humanos neste aspeto”, afirma ao PLATAFORMA.

Para o encenador, a questão central não é apenas técnica. “A IA pode expressar-se [em patuá], a pronúncia pode ser muito padrão, mas será que tem alma? Terá o nosso contexto cultural? Esse é o grande desafio”, diz.

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Novos rostos em palco

A edição deste ano continua a combinar atores experientes com novos participantes. O recrutamento raramente passa por audições públicas e baseia-se sobretudo no contacto pessoal. “Primeiro converso com a pessoa, imagino-a no palco, que papel lhe assentaria bem? Se a aparência, a linguagem corporal e a voz forem adequadas, e se tiver coragem para subir ao palco, então faço o convite oficial. O facto de não saber falar patuá não é problema nenhum”.

A obra deste ano volta a misturar diferentes línguas e culturas. Macau sempre foi um lugar de diversidade cultural, e esses elementos refletem-se na peça

Segundo o encenador, encontrar atores adultos tornou-se mais difícil nos últimos anos. Ainda assim, o grupo continua a integrar participantes de diferentes origens, incluindo uma atriz portuguesa que atua em patuá. “Ainda tem sotaque, mas não há problema, ela consegue levar a história para a frente. Na verdade, hoje em dia, o que é o padrão e o não-padrão? Estamos a proteger esta língua. Já é uma sorte haver quem queira continuar a falá-la”.

Miguel de Senna Fernandes acredita que o futuro do teatro em patuá não depende de repetir exatamente o modelo atual, mas há um elemento essencial: “Não se esqueçam que o teatro em patuá é comédia, focado na atualidade social. Seja qual for a forma de apresentação, a crítica social é muito importante.”

Em 2025, o Ministério da Cultura e Turismo da China reconheceu oficialmente Miguel de Senna Fernandes como herdeiro representativo do teatro em patuá. Ainda assim, garante que a distinção pouco mudou: “Ainda sou o mesmo Miguel de Senna Fernandes de sempre”.

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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