“Os recursos existem; falta organizá-los” - Plataforma Media

“Os recursos existem; falta organizá-los”

Virgínia Trigo, fundadora do Instituto de Formação Turística de Macau, organiza hoje em Chengdu e Cantão mestrados e doutoramentos em gestão. Veio ao Colóquio de Política Ambiental para os Países de Língua Portuguesa, organizado pela Universidade Cidade de Macau, falar da cultura de negócios na China. Em entrevista ao nosso jornal, explica o que Macau tem de mais raro, pois nem Hong Kong nem Cantão podem replicar: 500 anos de “experiências e partilhas com sociedades lusófonas, em cinco continentes, com uma língua comum e uma visão do mundo que pode ser capitalizada. Um recurso fantástico e único”.

– Qual é a avaliação que faz do tecido universitário de Macau e do papel que pode ter na reconversão da cidade dos casinos num centro internacional de serviços?

Virgínia Trigo – Quando fundámos o Instituto de Formação Turística (IFT), apostamos numa ideia de qualidade. As pessoas que formamos vão para o mercado de trabalho e o impacto do ensino é muito importante. O IFT, que prepara quadros qualificados para a a principal indústria da terra, tem melhorado muito e vai melhorar ainda mais. Mas também o Instituto Politécnico, por exemplo, agarrou bem a área do português e a ligação às universidades portuguesas. São dois exemplos fundamentais na avaliação que faço de Macau, que pode fazer qualquer coisa, desde que o faça com os recursos que tem. Não pode ir buscar recursos que não tem.

– Quais são os principais recursos existentes?

V.T. – Antes de mais, 500 anos de História que mais ninguém pode ter. Hong Kong não pode, Cantão também não; porque são séculos únicos de experiências e partilhas com socie-dades lusófonas, em cinco continentes, com uma língua comum e uma visão do mundo que pode ser capitalizada. É um recurso fantástico e único.

– O projeto lusófono diz-nos muito sobre a cultura e a sofisticação política das elites chinesas…

V.T. – Este desenho implica muito know-how e conhecimento da História, que é muito importante e esse recurso que Macau tem. Ainda há pouco tempo alguém me explicava que Macau tem de diversificar e quer ser uma cidade criativa. Mas isso não faz sentido! Não se pode fazer nada quando não se tem recursos e Macau não tem indústrias criativas. Os recursos têm de ser valiosos, raros, e bem organizados. É isso que nos diz a teoria dos recursos. Uma cidade pequena como Macau tem na sua ligação aos países lusófonos recursos que são únicos, inimitáveis e raros. Terá de fazer tudo para os organizar da melhor forma possível.

– O que falta é só organizar esses recursos?

V.T. -Os recursos existem; o que falta é organizá-los.

– Que recursos são esses? Bilinguismo? Diplomacia? Cultura laboral?

V.T. – Tudo isso… Mas é preciso que haja um champion, um líder com uma ideia temporal… Alguém como Deng Xiaoping, com uma ideia de abertura e alargamento, presistente e na persecussão de um objectivo.

-Um, como na fábula do Gaiteiro de Hamelin, seguido por toda a gente?

V.T. – Tem de ser um líder carismático, que os outros sigam porque reconhecem uma linguagem com sentido e um caminho; um objetivo alcançável.

– A estratégia que inclui Macau na rota lusófona é em si mesmo um recurso?

V.T. – Sim; no fundo, todas as condições estão reunidas para que Macau se organize.

– A ponte para a Lusofonia é comparável à estratégia de Hong Kong, que explorou relações financeiras e comerciais entre a China e o ocidente?

V.T. – A posição de Macau acaba por ser melhor, porque ao nível dos mercados financeiros Hong Kong não é inimitável nem insubstituível. Aliás, enfrenta a competição de Xangai. Mas é necessário viver 500 anos para que as coisas aconteçam como em Macau. Isso pode não estar a ser explorado, mas existe. Não só aqui, mas também na China, as pessoas indentificam Macau com o mundo lusófono e missão de fazer essa ponte. Aliás, a ideia da plataforma é uma muito antiga. Nunca se concretizou por ser um recurso pouco valorizado e não organizado. Mas é valioso e inimitável.

– Quais são as ideias centrais por organizar?

V.T. – É muito importante reorganizar os currículos; ensinar a História de Macau e um conjunto de disciplinas especificas para que as pessoas entendam a importância dos recursos existentes. É preciso polarizar tudo em redor dos recursos inimitáveis, raros e valiosos: desde a educação, passando pela atração das pessoas, até à projeção da imagem internacional. Quando pensamos em conferências, por exemplo, Macau tem de estar presente e representado em tudo o que tenha a ver com essa plataforma.

– Como é que a plataforma é vista em Cantão?

V.T. – Há sete anos comecei a desenvolver o programa de doutoramento em Chengdu em parceria com a Universidade de Ciências e Tecnologia, para alunos que se vão formar no ISCTE, em Lisboa. Em outubro abrimos a quinta edição, a caminho dos 100 doutoramentos. É uma grande plataforma, porque quem se vai doutorar fica ligado a Portugal para sempre .

No ano passado iniciei outro doutoramento em Cantão, para a gestão da Saúde, e aí temos mais de 200 altos quadros que estão a ganhar uma relação com Portugal. Além disso temos programas de mestrado através dos quais 50 alunos por ano, depois de um início em Cantão, completam a fromação no ISCTE. É um programa imenso, que faz de mim também uma plataforma.

– Nesse universo há consciência do potencial da plataforma lusófona, como ela é discutida em Macau?

V.T. – Não! A China é um país muito grande e as pessoas estão muito viradas para resolver os problemas do país. É fabuloso, porque tenho a oportunidade de perceber as várias teses sobre cada problema, o que me dá um conhecimento muito abrangente.

– A China, mesmo essa aqui tão perto, conhece mal Macau?

V.T. – Sabem que estive em Macau e conhecem a minha história. Mas Hong Kong e Macau não os preocupem. Acho que cabe às Regiões Administrativas Especiais mostrarem-se mais e provarem que podem ser úteis.

– É muito forte a concorrência entre províncias?

V.T. – Na corrência entre eles, nunca incluem Macau nem Hong Kong. O seu grande enfoque é a grande China; ou então a Alemanha, os Estados Unidos ou a França.

– Há mais leitores de francês em Cantão do que de português em toda a Ásia…

V.T. – Quando digo que o português é uma língua mais importante que o francês ficam admirados. Têm uma grande atração por França e os franceses têm sabido fazer por isso.

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Macau, Hong Kong, Cantão: um triângulo crescimento

– Há muitos anos estudou os triângulos de crescimento em Singapura. Vale a pena recuperar esses conceitos e aplicálos à mudança de paradigma económico em Macau?

V.T. – Sim. A parte teórica de um triângulo de crescimento é encontrar complementariedades entre regiões geograficamente próximas e com afinidades. Muitas vezes falam a mesma língua e têm uma continuidade de recursos. Em Singapura, o seu primneiro triângulo de crescimento foi entre a Malásia e as Ilhas de Real, na Indonésia. Singapura era o centro financeiro e de conhecimento; tinha tembém o porto, mas não tinha território suficiente para montar as fábricas, que foram montadas no sul da Malásia. As Ilhas de Real serviram para o descanso e laser das pessoas que trabalhavam em Singapura e na Malásia. E isso resultou muito bem.

Houve um triângulo de crescimento Hong Kong, Shenzen e Taiwan; hoje um pouco desagregado, porque as situações se alteraram. É famosa a estória da boneca que era concebida em Taiwan, montada na China e exportada através de Hong Kong, sempre com a ideia da complementariedade.

– No caso da Lusofonia, não há proximidade geográfica. A distância pode ser compensada por outros fatores?

V.T. – A complementaridade pode ser pensada entre Cantão, Hong Kong e Macau; que têm continuidade geográfica e interesses diferentes. Cada um pode aparecer com os seus próprios recursos.

– Cantão não está de costas voltadas para a questão lusófona?

V.T. – Mas isso é porque não viram ainda a oportunidade que Macau pode oferecer.

– O universo lusófono tem escala para Cantão?

V.T. – Sim; absolutamente! Mas temos de dizer que o português não abre só portas só para a Lusofonia, também as abre para o espanhol. Quando aprendemos português ficamos a entender o espanhol, mas o contrário não é verdade.

– Veio a Macau para um colóquio na Universidade Cidade de Macau, especificamente para falar sobre a cultura de negócios na China. Quais são os segredos dessa negociação?

V.T. – Quando se quer ter um relacionamento na China, a ideia fundamental é o tempo. É preciso ter paciência e construir uma rede de relações. As coisas correrem mal no início não é problemático. Se conseguirmos ultrapassar essa ocorrência negativa ficamos com laços muito mais fortes; significa que tivemos a inteligência de ultrapassar esse problema. Existe a noção de processo.

Muita gente me pergunta como consegui o meu percurso na China, mas querem resultados imediatos. Explico sempre que são 26 anos e foi preciso dar muito antes de conseguir isto. Eu estou interessada e, portanto dou. Com o tempo, as pessoas entendem a minha sinceridade e começam a retribuir. Neste momento estou a colher o que semei estes anos todos. Evidentemente, não posso estar descansada; tenho de estar sempre alerta e sempre a dar.

– É um permanente investimento?

V.T. – É fundamental ter tempo para investirmos em nós próprios, mostrarmos sinceridade e criarmos redes de relações .

– Chegando a Macau, como é que um angolano ou um brasileiro conquista uma rede de relações na china ?

V.T. – Pode fazê-lo a partir de Macau, porque é mais fácil. Mas não pode ficar só aqui. Muita gente vem para Macau mas não tem uma relação com a China. Eu cheguei em 1981 e tive a oportunidade de ir dar aulas a uma pequena universidade no Continente. Ninguém queria, mas eu levantei o braço e fui dar aulas de contabilidade. Passei frio e não havia condições nenhumas, nem casas de banho. Era outra China… Mas a experiência foi muito útil porque comecei a criar a tal rede de relações com pessoas mais tarde se tornaram importantes. Dava por exemplo aulas a um chefe de finanças que ficou muito meu amigo e ainda hoje a neta dele me escreve de vez em quando. Ele fazia tudo para me abrir portas e esse foi só o primeiro passo. Depois fiz amigos na Universidade de Sun Yat Sen e um doutoramento sobre a emergência da iniciativa privada na China (1994-94). Durante esse tempo entrevistei dezenas de pessoas; interrompi durante sete anos e depois voltei a tentar entender o que tinha acontecido àquelas pessoas. No fundo, tive a oportunidade de entender o que tinha acontecido à iniciativa privada e à evolução económica da China e, através disso, também acumulei muitos relacionamentos.

Depois fui a primeira pessoa a levar um chinês a doutorar-se em gestão no ISCTE. Na altura os meus colegas não estavam muito de acordo e foi até difícil arranjar um júri para ele. Em 2005, as pessoas achavem que os chineses nos iam tirar o emprego, quando já na altua se ganhava mais na China do que em Portugal. Curiosamente, a profecia cumpriu-se, porque ele hoje dá aulas em Portugal, mas a pedido ISCTE. Agora toda a gente quer a China.

– Para os lusófonos, faz sentido pensar em Macau como base de partida?

V.T. – Não tenho qualquer dúvida.

– É preciso aprender a língua chinesa?

V.T. – Não sei a língua e não acho que seja essencial. É muito mais importante conhecer a cultura e apreciá-la. Eu entendi que para ter uma conversa com um chinês em mandarim, que realmente tivesse significado, precisaria de um grande investimento. Mesmo pessoas que conheço e que falam mandanrim não conseguem ter essas conversas, que acabam por ser feitas em inglês ou com a ajuda de tradutores. Optei por investir o tempo a trabalhar e não a aprender o chinês; não teria sido possível trabalhar o que trabalhei se estivesse a aprender o chinês.

3 de outubro 2015

Este artigo está disponível em: 繁體中文

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