MACAU NA APEC SÓ ATRAVÉS DA CHINA - Plataforma Media

MACAU NA APEC SÓ ATRAVÉS DA CHINA

 

Macau quer ser membro da APEC (Cooperação Económica da Ásia-Pacífico), mas o diretor executivo da organização diz que o território já integra a mesma através da RPC. “Hong Kong é um membro singular da APEC por razões históricas, mas Macau deverá ter todos os benefícios da adesão da APEC através da associação da China ao grupo”, nota Alan Bollard. Em entrevista ao Plataforma Macau, o responsável diz ainda que, através das novas tecnologias, as 21 economias que integram este bloco podem trabalhar em conjunto no combate contra o terrorismo e para que “passageiros frequentes e de confiança transponham fronteiras de forma rápida, eficaz e segura”.

 

PLATAFORMA MACAU – Foi a primeira vez que Macau e a China organizaram em conjunto um evento da APEC. Começava por lhe perguntar por que razão Macau não faz parte deste bloco?

ALAN BOLLARD – Macau é efetivamente um membro da APEC porque a China é membro. Na realidade, Hong Kong é um membro singular da APEC por razões históricas, mas Macau deverá ter todos os benefícios da adesão da APEC através da associação da China ao grupo.

 

P.M. – Mas Macau nunca fez um pedido para aderir à APEC?

A.B. – Certamente não o fizeram recentemente e não que tenha conhecimento. Mas não tenho a certeza que o tenham feito no passado.

 

P.M. – Mas já foi expresso em entrevista ao nosso jornal na semana passada a intenção de fazer parte deste grupo de 21 países.

A.B. – Tem havido uma série de economias que têm expressado desejo em aderir à APEC. Há alguns anos, os membros deste grupo decidiram adotar uma moratória a novos membros e essa moratória já não tem validade, mas não tem havido novas ações desde aí. Portanto, já há alguns anos que a APEC não tem contado com a entrada de novas economias. Isso está a ser considerado por outras economias, mas nada que esteja a acontecer no momento.

 

P.M. – Que outros países fizeram esse pedido?

A.B. – Não poderia dizer-lhe, mas são muitos países. Ao longo de vários anos, recebemos muitos pedidos, mas não tenho a certeza quais desses estão de pé no momento.

 

P.M. – Em relação às reuniões da APEC organizadas em Macau, que balanço faz destes eventos que reuniram representantes das pastas do turismo dos 21 países e regiões membros?

 A.B. – Nos últimos dias houve uma série de encontros que juntaram técnicos e elementos das autoridades. Essa é a via clássica adotada pela APEC na organização dos seus eventos, que abarcam uma série de setores e onde são trabalhados detalhes técnicos. Houve encontros do Grupo de Trabalho de Turismo e é aí que os membros das autoridades se juntam. E a sério, a APEC é uma organização que trabalha top down (de baixo para cima) e bottom up (de cima para baixo), ou seja, recebe instruções de ministros e de líderes, mas o trabalho tem de partir de baixo para cima, através da organização técnica. Isso mesmo se passa com o Grupo de Trabalho de Turismo e também nos outros encontros que se realizaram nos últimos dias e onde se abordaram temas como a aceleração do crescimento do movimento dos turistas na região, o desenvolvimento e turismo sustentável, infraestruturas para o turismo, todas essas questões técnicas que fazem parte do desenvolvimento turístico através da APEC.

 

P.M. – De que forma é que estes países podem cooperar para alcançar um turismo mais inteligente e integrado?

A.B. – Por exemplo, tentando tirar vantagens das tecnologias inteligentes, novos espaços eletrónicos de comércio móvel ou tecnologias que permitam juntar informações sobre quem viaja. Estamos a falar de um aumento gigante do setor do turismo na região da APEC e que se tem tornado numa parte considerável das economias. Além disso, também estamos sempre preocupados com as questões do terrorismo em termos dos movimentos [de passageiros]. Portanto, encontrar formas de utilizar as tecnologias inteligentes para fazer com que passageiros frequentes e de confiança transponham fronteiras de forma rápida, eficaz e segura; encontrar maneiras apropriadas de obter informações sobre os passageiros para acelerar os movimentos turísticos; agilizar a circulação em aeroportos congestionados e com grande crescimento do fluxo de passageiros, principalmente oriundos de economias como a China; também olhando para as perspetivas que estas tecnologias oferecem para melhorar a gestão ambiental do turismo, seja através de tecnologias e hotéis inteligentes e de uma melhor utilização da energia, e assim por diante. Portanto, há uma vasta gama de coisas a fazer. Além disso, a APEC está a tentar fazê-lo de uma forma orientada para sistemas harmonizados e transversais em várias economias, para que assim não tenhamos um sistema chinês, um sistema americano ou um sistema japonês. Mas para que essas economias tenham sistemas que comuniquem uns com os outros.

 

P.M. – Antes de dirigir o secretariado geral da APEC ocupou uma série de cargos ligados à área da Ecomomia e Finanças. Perguntava-lhe que leitura faz da criação de um banco por parte dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), que conta, aliás, com dois membros da APEC. É um passo importante na afirmação deste bloco?

A.B. – Só lhe posso responder do ângulo da APEC. Se olharmos para alguns dos motores do crescimento nesta região e, mesmo mais globalmente, costumava ser o comércio. Na realidade, ainda é o comércio, embora tenhamos assistido a um desacelerar do comércio internacional desde a crise económica global. As economias têm procurado outras formas de crescimento e estão a olhar muito mais para as infraestruturas. Isso é muito claro em variadas economias. Não diria a China, mas em algumas economias em desenvolvimento, as infraestruturas estão a sustentar o desenvolvimento de forma substancial. A China este ano está a aproveitar a organização da APEC como uma forma de se focar nas infraestruturas e conetividade de forma geral e todas as estimativas para as infraestruturas apontam que precisamos de muito mais financiamento nessa área. Portanto, tem sido uma área onde os bancos de desenvolvimento se focaram no passado, mas estamos agora a ver sinais de economias em desenvolvimento à procura de financiamento e a organizar as suas próprias fontes de financiamento – e penso que aquilo a que chamamos o Banco BRICS é uma delas. Isso vai fazer com que haja fundos disponíveis. Agora, como vai funcionar, estamos aqui para ver, porque muito depende de quais são as regras e quais são as condições para o financiamento. Portanto, em geral há uma grande procura de fundos, que ainda não está disponível, e estamos à procura de novas fontes de financiamento. Desse ponto de vista deverá ser muito bom.

 

P.M. – Com a emergência dos países do BRICS, das economias asiáticas e um declínio de economias como a europeia ou americana, pode dizer-se que se está a caminhar para uma nova ordem global? 

A.B. – Vejo que, infelizmente, a Europa não é uma figura presente no crescimento económico do comércio e no investimento na região da Ásia Pacífico. Muitas pessoas tendem a dizer que só tem de se esperar para a Europa resolver os seus próprios problemas para voltar à economia mundial. Os Estados Unidos é uma história diferente. Na realidade, desde a crise financeira global, os Estados Unidos ganharam competitividade e eu diria que algumas outras economias desenvolvidas também foram ganhando competitividade. Não vemos necessariamente que o consumidor norte-americano continue a ser o motor tradicional do crescimento ao simplesmente comprar bens à Ásia Oriental. Os Estados Unidos, o Canadá e a Austrália também mudaram um pouco devido à cena energética, com a fracturação hidráulica e o gás de xisto, que está a levar a uma pequena revolução no setor da energia e, portanto, esses fornecedores de energia estão potencialmente numa posição mais competitiva, especialmente os EUA e o Canadá. Portanto, eles reforçaram a competitividade e, na realidade, têm revelado sinais de crescimento. Penso que há uma mudança da ordem mundial, mas é muito complexa. Do lado da Ásia Oriental, eu diria que há um maior foco na procura interna como motor de crescimento, que está a fazer crescer os salários médios, que está a permitir, por exemplo, um crescimento do turismo. Não se vê uma emergência do turismo a partir de países muito pobres, mas de países que tenham uma classe média em ascensão. Por isso, está a focar-se muito em países com uma classe média em emergência, com salários médios e o que eles precisem em termos de infraestruturas, em termos de serviços sociais, serviços de turismo, entre outros. Esse é provavelmente o maior motor de crescimento.

 

Catarina Domingues

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