Catarina Domingues - O IMPÉRIO DOS ANÕES - Plataforma Media

Catarina Domingues – O IMPÉRIO DOS ANÕES

 

Olhar para o trabalho a cores da fotógrafa belga Sanne De Wilde é quase voltar ao universo dormente, a preto e branco, da norte-americana Diane Arbus. Arbus mostrou um lado humano que se escondia, e que era marginalizado há meio século. Um ensaio obrigatório de se conhecer, e que obriga a refletir com tempo, com mais atenção, e para além daquelas imagens em formato médio. Na rua, no circo, em morgues ou na intimidade de uma casa, a norte-americana fotografou travestis, nudistas, prostitutas, artistas de circo ou pessoas com deformações. Eram aristocratas, dizia.

Agora, o ensaio fotográfico “O Império dos Anões”, da jovem belga de 27 anos Sanne De Wilde é uma reminiscência da sensibilidade de Arbus. Depois de quatro anos entre as montanhas de Kunming – e castelos em forma de cogumelos – De Wilde vai publicar em livro o retrato de uma comunidade de cerca de cem anões que vive e trabalha num parque de diversões na província de Yunnan, no sul da China, o Jardim Ecológico das Borboletas e o Império dos Anões.

O parque abriu ao público em 2009 e, duas vezes por dia, transforma a cordilheira de Yunnan num mundo fantástico de pequenos imperadores com óculos escuros, de guerreiros ou bailarinas de tutu.

“Nada me preparou para a irrealidade deste lugar. Nos panfletos, parece colorido e fantástico, como um parque temático moderno, mas a realidade é bem mais cinzenta e um pouco triste (..) Para os ocidentais, pode parecer `voyeurismo´ e imoral, mas isto é a China e, para as pessoas que vêm aqui com os filhos ou para muitos dos atores, isto não é um problema”, explicou recentemente a fotógrafa em entrevista ao jornal britânico The Guardian.

Quando abriu as portas, o responsável e empresário Chen Ming Jing disse que estava determinado a fazer “alguma coisa boa” por estas pessoas, que permaneciam à margem de tudo e de todos, e que aqui encontrariam uma forma de se integrarem. Mas a opção também causou desconforto, por ser um negócio, um recuar aos tempos e aos espetáculos de aberrações (freak shows) da época vitoriana.

Sanne De Wilde entrou em casa destas pessoas, tornou-se também ela numa atração turística deste pequeno universo (des)encantado de Yunnan. Não há nada como ver com os próprios olhos e tirar as próprias conclusões.

 

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