Paulo Rego - O MILAGRE DA ENERGIA EMOCIONAL - Plataforma Media

Paulo Rego – O MILAGRE DA ENERGIA EMOCIONAL

A frustação de Cristiano Ronaldo, que reagiu ao desaire lusitano confessando as “limitações “ da seleção portuguesa, não explica tudo o que se está a passar no Mundial do Brasil. Exceção feita à Holanda e à França – quiçá as menos favoritas entre os grandes gigantes europeus – nenhuma outra equipa do Velho Continente conseguiu até agora apresentar níveis de jogo consistentes, credíveis e sedutores. O aparente e enganador brilhantismo da Alemanha, na goleada que impôs a Portugal, deve-se mais ao desastre dos pupilos de Paulo Bento do que a outra coisa qualquer, como depois se verificou no embate entre germânicos e ganeses. Nem mesmo a Bélgica – apesar de tudo, muitos furos acima da Espanha ou da Inglaterra – tem conseguido exibições compatíveis com a quantidade de estrelas milionárias que militam nas suas fileiras.

Há uma falta de energia física e psicológica generalizada que expõe os antigos portentados às potências emergentes. O futebol ganha com isso, sobretudo em emoção e competitividade. Mas também porque há uma natural simpatia pelo mito do pequeno David que derruba o gigante Golias.

É verdade que grandes e pequenos estão mais próximos no que toca a métodos de treino e outros fatores de competitividade, antes de acesso exlusivo aos mais fortes. Isso acontece também ao nível dos campeonatos nacionais, razão pela qual o Altético de Madrid venceu o campeonato espanhol, frente a colossos como o Real Madrid e o Barcelona, que ostentam orçamentos incomparáveis aos de qualquer outro clube. Mas há mais coisas em jogo: a queda prematura de alguns dos principais favotitos pode ser analisada a partir de duas hipóteses de trabalho: ou é circunstancial, e resulta do cansaço de jogadores em fim de época, em especial aqueles de quem mais se exige ao serviço dos seus clubes; ou é estrutural, e estamos a assistir a uma mudança e paradigma no futebol mundial.

Em África e nas Américas surgem seleções muito mais agressivas e ambiciosas, sem qualquer receio do currículo adversário, colocando em campo tudo aquilo em que parecem acreditar e sentir quando cantam o hino nacional. A garra com que disputam cada lance, a velocidade a que se deslocam, os quilómetros que percorrem entre a defesa e o ataque, a disponibilidade para o confronto físico e a concentração total no jogo aliam-se a sistemas táticos que, sendo assumidamente mais defensivos, são capazes de manetar adversários com maior capacidade técnica mas mais lentos, físicamente desgastados e sem qualquer energia emocional. É curioso que, tendo uma base inicial defensiva, nem por isso o seu jogo é menos espectacular, conseguindo no contra-golpe momentos que fazem levantar o estádio e entusiasmam os comentadores televisivos.

Os critérios clássicos de avaliação dos comportamentos desportivos, ou de atribuição do favoritismo, caiem definitivamente por terra quando até a derrota do Irão é comememorada nas ruas por homens e mulheres que sentem orgulho na performance dos seus novos heróis. Apesar de derrotados, homens sem nome no areópago do futebol não foram inferiores às estrelas da Argentina, uma equipa que, sendo latino-americana, apresenta um estilo de jogo conservador e descaracterizado, que mais parece o de uma velha e cansada seleção europeia.

O desempenho da Costa Rica é o mais extraordinário exemplo do que pode valer um pequeno país, praticamente ignorado nos bastidores da FIFA, perante os grandes gigantes do futebol mundial. Sem quaisquer pruridos, o treinador Jorge Luís Pinto urdiu uma teia com base em três linhas defensivas – “5+4+1” – que em posse de bola se desmultiplicam em contra-ataques venenosos e efizazes. Aliás, muito ao estilo do que Carlos Queirós concebeu para o Irão, ou daquilo que faz José Mourinho quando, na Liga dos Campeões, enfrenta portentados do futebol mundial tendo nas mãos equipas de menor dimensão. Foi assim que se sagrou campeão europeu com o Inter de Milão; da mesma forma que chegou à final com um Chelsea ainda frágil e em renovação.

Muitos entendem que esse estilo representa o fim do futebol espectáculo ou, num lamento mais radical, da própria verdade desportiva. Mas este Mundial está a demonstrar que esse rigor tático pode bem ser é o fim da longa hegemonia dos ex-favoritos europeus, tradicionalmente apenas postos em causa por países como o Brasil e a Argentina, dada a sua capacidade aparentemente infindável de produzirem jogadores fora de série. Apresentada pela generalidade dos comentadores como o “bobo da corte” no “grupo da morte”, a Costa Rica deitou por terra o Uruguai e a Itália, apurando-se para os oitavos-de-final logo à segunda jornada da fase de grupos, precisamente a mesma em que Wayne Rooney pediru desculpas aos adeptos ingleses pelo regresso prematuro a casa. Esses resultados não colocam nada em causa, porque são conseguidos com mérito reconhecido por toda a gente. Derrubam, isso sim, preconceitos e convicções que assim deixam de fazer sentido.

O maior segredo parece mesmo estar na energia da convicção. Quem está convencido de que chega a algum lado mostrando o nome que tem, passeando a experiência ou o charme da camisola, sem deixar em campo a carne e a alma, está a ser surpreendido por quem, não tendo nada a perder, dá o que tem e o que não tem para crescer e ser feliz. Quem está convencido de que pode lá chegar se correr mais que os outros, se defender mais e melhor, atacando com maior eficácia, está a derrubar os gigantes que lhe aparecem pela frente.

Por mais fraca que possa parecer, já nenhuma equipa entra em campo com o objetivo de perder por poucos.

Já quem se esquece dos princípios básicos do jogo arrisca-se mesmo a perder por muitos, seja qual for o favoritismo com que sai dos balneários. Talvez por isso a Holanda e a França estão a conseguir deslumbrar. Porque carregam nos pés e nas pernas a mais valia técnica que alimenta os favoritos, juntando-lhe a energia física, a concentração e a mentalidade de quem faz questão de surpreender tudo e todos quando e se, de facto, ganharem o torneio. Naturalmente, quem junta um e outro fator tem mais hipóteses de lá chegar. Quanto a quem antes nada tinha, está a mostrar que hoje tem mais do que aqueles que pensam que aquilo que antes tinham ainda chega para hoje ter qualquer coisa. Mas já não chega.

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