Início » El Niño pode intensificar calor e chuvas extremas em 2026. O que pode mudar no dia a dia

El Niño pode intensificar calor e chuvas extremas em 2026. O que pode mudar no dia a dia

O fenómeno climático El Niño poderá voltar a ganhar intensidade nos próximos meses, com impacto esperado nas temperaturas e nos padrões de chuva em várias regiões do mundo. Especialistas alertam para efeitos que podem ir além do clima e afetar diferentes setores da vida quotidiana.

Nos últimos dias, o cenário climático internacional voltou a ser dominado por um tema conhecido, mas potencialmente com impactos amplificados: a possível formação de um El Niño em 2026. A hipótese de um episódio intenso — por vezes apelidado informalmente de “super El Niño” — tem mobilizado centros meteorológicos em vários continentes, à medida que modelos climáticos apontam para um aquecimento relevante do Pacífico Equatorial.

A NOAA, agência climática dos Estados Unidos, estima atualmente uma probabilidade superior a 80% de desenvolvimento do fenómeno nos próximos meses, com projeções que indicam a sua possível persistência até ao início de 2027. Ainda assim, a intensidade do evento permanece incerta.

O que é o El Niño?

O El Niño é um fenómeno climático natural causado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Este aquecimento altera a circulação atmosférica global e influencia padrões de chuva, temperatura e vento em diversas regiões do planeta.

Apesar de ocorrer no Pacífico, os efeitos propagam-se globalmente, afetando continentes como a América do Sul, América do Norte, África, Ásia e Oceânia.

Em condições normais, os ventos alísios sopram de leste para oeste, empurrando águas quentes em direção à Indonésia e à Austrália, enquanto a costa da América do Sul mantém águas mais frias.

Leia mais:  Calor deixa quase todo o país sob aviso amarelo, mas há previsão de chuva e trovoada em quatro distritos

Durante um El Niño, estes ventos enfraquecem. As águas quentes deslocam-se para o centro e leste do Pacífico, desencadeando uma reorganização da circulação atmosférica global — o que resulta em alterações significativas no regime de precipitação e temperatura.

O que distingue um El Niño “forte” de um evento extremo?

A classificação da intensidade baseia-se sobretudo no grau de aquecimento da superfície do mar no Pacífico Equatorial. Quando a anomalia térmica ultrapassa cerca de 2°C acima da média histórica durante vários meses, o fenómeno pode ser classificado como forte ou muito forte.

Segundo a climatologista Maria Assunção Dias, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP), esta classificação resulta de medições diretas e indiretas:

“O termo que qualifica o El Niño como forte ou muito forte é feito com base nas temperaturas das águas na parte central do Oceano Pacífico ao longo do Equador”, explica.

Eventos como os de 1982-83, 1997-98 e 2015-16 são frequentemente usados como referência de intensidade elevada. O termo “super El Niño”, embora amplamente utilizado na comunicação mediática, não corresponde a uma categoria científica oficial.

Já existe um “super El Niño” confirmado?

Não. O que existe atualmente é uma forte probabilidade de formação do fenómeno, mas sem consenso sobre a sua intensidade final.

As projeções da NOAA indicam:

  • cerca de 82% de probabilidade de formação entre maio e julho de 2026
  • e até 96% de probabilidade de persistência no final de 2026 e início de 2027

Alguns modelos europeus sugerem cenários de aquecimento superior a 3°C em certas simulações — valores compatíveis com eventos extremamente intensos. No entanto, os cientistas sublinham que estas projeções ainda não são conclusivas.

Porque existe tanta incerteza?

A previsão de fenómenos ENSO (El Niño–Oscilação Sul) enfrenta uma limitação conhecida como “barreira de previsibilidade”, típica dos meses de transição entre estações.

Entre março e maio, o sistema oceano-atmosfera encontra-se em rápida mudança, o que reduz a precisão dos modelos climáticos.

Como explica Maria Assunção Dias: “É uma época em que tanto os oceanos como a atmosfera estão a evoluir rapidamente, introduzindo bastante incerteza nas previsões.”

Além disso, a intensidade de um El Niño depende não só do aquecimento do oceano, mas também da resposta da atmosfera — um acoplamento complexo que ainda está em avaliação.

O papel das alterações climáticas

O El Niño é um fenómeno natural e existe há milhares de anos. No entanto, o aquecimento global pode influenciar a sua expressão e amplificar os impactos.

Mesmo eventos de intensidade semelhante a ocorrências passadas tendem hoje a produzir efeitos mais severos, devido ao aumento da temperatura média dos oceanos e da atmosfera.

Leia mais: Primavera arranca com chuva forte e trovoada
Entre os efeitos potencialmente agravados estão:
  • ondas de calor mais intensas
  • secas prolongadas
  • incêndios mais frequentes
  • precipitação extrema mais destrutiva
Impactos esperados no mundo

Historicamente, o El Niño provoca alterações significativas nos padrões regionais de clima:

  • aumento de chuva em alguns países
  • redução de precipitação no Norte e Nordeste
  • irregularidade no Centro-Oeste e Sudeste
  • maior frequência de ondas de calor

No plano global, o fenómeno pode afetar culturas agrícolas essenciais como milho, arroz e trigo, com impacto direto nos mercados internacionais de alimentos.

Efeitos na economia: comida, energia e preços

Os impactos do El Niño podem estender-se a setores estratégicos.

Na agricultura, a alteração do regime de chuvas pode comprometer o calendário de plantio e reduzir a produtividade, especialmente em culturas como soja e milho.

No setor energético, a dependência de hidrelétricas torna o sistema vulnerável a períodos de menor precipitação. Em cenários adversos, pode ser necessário recorrer a termelétricas, mais caras, pressionando o custo da energia elétrica.

Este conjunto de fatores pode refletir-se em aumentos de preços de alimentos e energia — dois dos componentes mais sensíveis da inflação.

Saúde e riscos associados

Ondas de calor mais intensas aumentam o risco para populações vulneráveis, como idosos e crianças. A qualidade do ar também pode deteriorar-se em cenários de seca e queimadas.

Além disso, variações de temperatura e precipitação podem influenciar a dinâmica de doenças transmitidas por mosquitos, como dengue, zika e chikungunya.

É possível evitar ou reverter o El Niño?

Não.

O fenómeno é natural e não pode ser interrompido. As estratégias de mitigação concentram-se na adaptação:

  • sistemas de alerta precoce
  • gestão de recursos hídricos
  • planeamento agrícola
  • reforço da proteção civil
  • combate a incêndios
  • preparação para eventos extremos

Como sublinham os especialistas, o principal desafio não é impedir o fenómeno, mas reduzir os seus impactos.

Quando os efeitos podem ser sentidos?

Os primeiros sinais podem surgir já no segundo semestre de 2026. Contudo, os impactos mais intensos são geralmente esperados entre o final de 2026 e o início de 2027.

Nos próximos meses, atualizações da NOAA, do INPE e de outros centros meteorológicos serão determinantes para definir a evolução do cenário e confirmar se o fenómeno atingirá ou não níveis extremos.

Contate-nos

Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

Plataforma Studio

Newsletter

Subscreva a Newsletter Plataforma para se manter a par de tudo!

Uh-oh! It looks like you're using an ad blocker.

Our website relies on ads to provide free content and sustain our operations. By turning off your ad blocker, you help support us and ensure we can continue offering valuable content without any cost to you.

We truly appreciate your understanding and support. Thank you for considering disabling your ad blocker for this website