O Líbano e Israel vão realizar novas negociações de paz em Washington a partir desta quinta-feira, enquanto o mais recente cessar-fogo, considerado ainda em vigor apesar das centenas de mortos causados por ataques israelitas, se aproxima do fim.
As Forças Armadas israelitas anunciaram esta quinta-feira que estavam a atingir alvos do Hezbollah no sul do Líbano, depois de terem alertado os residentes de várias localidades no sul e leste do país para evacuarem. O exército afirmou ainda que um drone do Hezbollah caiu em território israelita, ferindo vários civis.
A agência noticiosa estatal libanesa NNA informou sobre ataques aéreos israelitas no sul e no leste do país, incluindo em zonas não abrangidas pelos avisos de evacuação, um dia depois do Ministério da Saúde ter indicado que intensos bombardeamentos fizeram 22 mortos, entre os quais oito crianças.
Representantes libaneses e israelitas reuniram-se pela última vez a 23 de abril, na Casa Branca, onde o Presidente norte-americano, Donald Trump, anunciou uma extensão de três semanas do cessar-fogo e manifestou optimismo quanto a um acordo histórico entre os dois países, tecnicamente em guerra há décadas.
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Na altura, Trump chegou a prever que, durante o período de prolongamento da trégua, receberia em Washington o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, e o Presidente libanês, Joseph Aoun, para uma histórica primeira cimeira entre os dois países. A cimeira não chegou a acontecer, tendo Aoun afirmado que seria necessário um acordo de segurança e o fim dos ataques israelitas antes de um encontro desse nível.
O deputado do Hezbollah Ali Ammar reiterou esta quinta-feira a rejeição do grupo às conversações diretas, considerando que representam “concessões gratuitas” a Israel.
O cessar-fogo, iniciado a 17 de Abril, termina no domingo. Apesar disso, os ataques israelitas já provocaram mais de 400 mortos durante a trégua, segundo uma contagem da AFP baseada em dados do Ministério da Saúde libanês. Israel prometeu continuar os ataques contra o Hezbollah, grupo armado e movimento político xiita apoiado pelas autoridades iranianas.
O Hezbollah envolveu o Líbano na guerra no Médio Oriente a 2 de Março, ao lançar rockets contra Israel em retaliação pela morte do líder supremo iraniano, aiatola Ali Khamenei, em ataques conduzidos pelos Estados Unidos e por Israel dias antes.

Esta imagem divulgada pela Força Provisória das Nações Unidas no Líbano (UNIFIL) na sua conta do Flickr, em 13 de maio de 2026, mostra fumo a subir nas imediações da sede da UNIFIL, na sequência da explosão de um drone em Naqoura, em 11 de maio de 2026. (Fotografia: Kandice ARDIEL / UNIFIL / AFP)
“Qualquer pessoa que ameace o Estado de Israel morrerá devido às suas ações”, declarou Netanyahu na semana passada, após um ataque israelita aos subúrbios do sul de Beirute ter matado um alto comandante do Hezbollah.
Um responsável libanês disse à AFP que o país procurará “consolidar o cessar-fogo” durante as negociações em Washington. “A primeira prioridade é pôr fim à morte e à destruição”, afirmou a mesma fonte, sob anonimato. O Irão exigiu um cessar-fogo duradouro no Líbano antes de qualquer acordo para terminar a guerra mais ampla na região, frustrando os esforços de Trump para alcançar um entendimento nos seus próprios termos.
A guerra no Médio Oriente tem abalado a economia mundial e afetado centenas de milhões de pessoas em todo o mundo. Desde 2 de Março, os ataques israelitas mataram mais de 2.800 pessoas no Líbano, incluindo pelo menos 200 crianças, segundo as autoridades libanesas. O Hezbollah afirma que o balanço inclui combatentes do grupo.
Israel tem bombardeado bastiões do Hezbollah no sul do país e nos subúrbios do sul de Beirute, além de ter invadido a região fronteiriça, parcialmente ocupada por Israel durante cerca de duas décadas até à retirada em 2000.
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O Líbano tem apelado repetidamente à retirada das tropas israelitas do sul do país e insiste na extensão da soberania estatal a todo o território, como parte do compromisso assumido no ano passado de desarmar o Hezbollah. Washington apoiou esse compromisso de Beirute, ao mesmo tempo que pressiona o país a avançar com medidas mais concretas.
Os Estados Unidos consideram que “uma paz abrangente depende da plena restauração da autoridade do Estado libanês e do desarmamento completo do Hezbollah”, segundo um comunicado do Departamento de Estado.
“As negociações pretendem romper de forma decisiva com a abordagem fracassada das últimas duas décadas, que permitiu a grupos terroristas consolidarem-se, enriquecerem, enfraquecerem a autoridade do Estado libanês e colocarem em perigo a fronteira norte de Israel”, acrescenta o texto.
A reunião desta quinta-feira será a terceira ronda de negociações entre os dois países, que não mantêm relações diplomáticas. Ao contrário das duas rondas anteriores, nem o secretário de Estado Marco Rubio nem Trump participarão nas conversações, uma vez que ambos se encontram numa visita oficial à China.
Os mediadores norte-americanos para o encontro de dois dias no Departamento de Estado incluem os embaixadores dos EUA em Israel e no Líbano – respetivamente Mike Huckabee, pastor evangélico e firme apoiante das ambições regionais de Israel, e Michel Issa, empresário nascido no Líbano e parceiro de golfe de Trump – além de Mike Needham, próximo colaborador de Rubio.
O Líbano será representado pelo enviado especial Simon Karam, veterano advogado e diplomata conhecido pela defesa firme da soberania libanesa, bem como pelo embaixador libanês em Washington.
A delegação israelita incluirá o embaixador em Washington, Yechiel Leiter, aliado de Netanyahu e próximo do movimento de colonos israelitas na Cisjordânia ocupada.