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A mais dura parada militar

Paulo Rego*

Se há na China um terremoto político, o seu epicentro está na Comissão Militar Central. Dos sete membros deste poderoso pilar do regime, que tomaram posse em outubro de 2022, restam apenas dois: o próprio XI Jinping, que os nomeou a todos, e um dos vice-presidentes: Zhang Shengmin. Na semana passada caíram Liu Zhenli e o outro vice-presidente, o todo poderoso Zhang Youxia. Ambos suspeitos de corrupção, como os três anteriormente demitidos; mas, agora, com uma nuance: também traíram, e “seriamente”, diz a imprensa estatal, obrigações funcionais do cargo. Na semiótica política chinesa, desobedeceram ao comando político.

É difícil definir os reais contornos deste movimento tectónico no topo da hierarquia militar. Fácil é perceber que Xi Jinping leva muito a sério a confiança que exige das suas chefias; como é óbvia a dificuldade em estabilizar o braço armado do regime. A consequência, essa, é simples e natural; quer se pense no curto prazo, no exercício do poder; quer se olhe para mais longe, para as garantias do dia seguinte. Também há essa lei da vida: mais cedo, ou mais tarde, esse dia há de chegar. Ou seja; ou estão agora a cem por cento com o Presidente; ou, simplesmente, não podem estar – nem hoje, nem amanhã. Teoricamente, poderiam até ter essa arte, representar redes de interesse com força para se imporem na sombra. Contudo, pelo que se vê, isso é impossível – o que também não admira. Contas feitas pelo Sing Tao Daily, nos últimos três anos, 28 generais já foram à vida.

Ou estão a cem por cento com o Presidente; ou, simplesmente, não podem estar – nem hoje nem amanhã. Teoricamente, poderiam até ter essa arte, representar redes de interesse com força para se imporem na sombra. Contudo, pelo que se vê, isso é impossível – o que também não admira

Rumores não faltam; especulações há mais que muitas… todas juntas, não fazem uma evidência. Analistas ocidentais – regra geral seduzidos por visões que não colam à realidade chinesa – alvitram divergências ideológicas; práticas diferentes; ou, até, conflito estratégico, nomeadamente em relação a Taiwan. Há mesmo quem diga que Zhang Youxia protegia debaixo da sua influência figuras de um futuro qualquer – por definir. Contexto, esse, minado por uma dúvida metódica: sempre que no ocidente se alvitra o futuro da China, vem à baila a tese de mais liberalismo e abertura; já na China, Xi Jinping é muitas vezes visto como moderador-mor; o único capaz de manter o foco na segurança nacional e no combate à corrupção; e, simultaneamente, promover a abertura e a globalização pacífica. Ou seja, contendo os falcões militares que preferem uma China bélica, que se imponha pelo poder militar. Neste contexto, vem-me sempre à memória, quando Yevgeny Prigozhin marchou em direção a Moscovo, os líricos que descreviam essa figura sinistra do belicismo russo como uma espécie de messias da democracia soviética. Se não fosse grave… dava para rir.

Seja qual for o contexto, já há largos meses o China Brief dava Zhang à bica de cair. A tese mais bombástica lança-a agora o Wall Street Journal, onde uma jornalista chinesa revela a transferência para os Estados Unidos de segredos do programa nuclear sínico. Em qualquer país que fosse, um ato de alta traição que, a ter caminho, prenuncia consequências bem mais graves que a corrupção. Por mais voltas que se dê, dois factos são mesmo o que parecem: a Comissão Militar Central correu muito mal; mas Xi Jinping mostra a força que tem de ter quem redesenha centros de poder deste calibre.

*Diretor Geral do PLATAFORMA

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