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O mito da reação

Paulo Rego*

De repente, os bambus são alvo de buscas; os fiscais saem à rua e a azáfama nas Obras Públicas faz prova de que o fogo em Hong Kong foi visto deste lado do Delta. Valha-nos isso; a consciência – e o bom senso – são os melhores dos instrumentos políticos. Contudo; lá, como cá, o problema de fundo é a fraca cultura de exigência – desleixo – no tempo da normalidade; antes do drama que já não tem concerto. Sejamos claros: o problema não é o bambu – neste caso até são as redes. Numa análise mais vasta, o drama nasce na regulação sem consciência técnica, na fiscalização displicente – ou corrupta – e numa cultura de gestão ridícula, irresponsável e criminosa, que despreza a vida humana e poupa tostões para depois indemnizar a perda de vidas, arruinar empresas e ficar sem liberdade. A reação oficial merece elogio; tem mesmo de ter lugar, e ninguém se pode furtar à evidência. Mas é também preciso exigir um mundo melhor a agir do que a reagir.

Passamos todos os dias por obras em Macau. Capacetes? Luvas? Coletes? Tá bem, tá… arquitetos e engenheiros vão às obras e adivinham mortos e feridos dos quais nunca ouvimos falar; passamos ao largo de prédios antigos, mais ou menos em ruínas; e olhamos para placas rachadas, varandas penduradas, a imaginar que um dia nos caiem em cima da cabeça. Que tal deixar de fazer passadeiras logo a seguir à curva, para que o condutor a veja antes de atropelar alguém? A lista é tão extensa; tão anormal, que nos habituámos a sorrir por ser tão normal. Vamos deixando, abanando os ombros – todos. Governo, construtores, senhorios, inquilinos, fiscais… o cidadão comum, que é muito exigente com o barulho do vizinho e nem olha para o próprio telhado a cair.

Aceitamos de ânimo leve a presença excessiva do Estado em demasiados momentos da vida – é a vida como ela é hoje – mas raramente exigimos que esteja presente onde não está. Até que a morte nos doa

A polícia, sempre tão afoita nas multas ao condutor, a fechar festas às 22H00, e disparar fotos a torto e a direito, não é sequer instruída para estes casos, não tem noção de que o risco de vida não depende só de denúncia; não percebe que a falta de segurança não está só nos acidentes ou no crime violento. E a população também não sabe, não quer, ou não pode apontar o dedo ao que verdadeiramente tem de ser corrigido. O nacional porreirismo não nos livra disto; é mesmo a consciência da segurança; e uma forte cultura de exigência, de todos para com todos.

A segurança é um conceito muito complexo; temos de ser educados para isso. Na escola, nas famílias, nos média, em todos os fóruns capazes de instruir e prevenir. Aceitamos de ânimo leve a presença excessiva do Estado em demasiados momentos da vida – é a vida como ela é hoje – mas raramente exigimos que esteja presente onde não está. Até que a morte nos doa; por vezes na escala do drama de Hong Kong. Haverá sempre erros, acidentes e incidentes? Claro. Haverá é muito menos se todos e cada um de nós souber agir – e exigir – quando os sinais de alerta nos entram pelos olhos.

*Diretor Geral do PLATAFORMA

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