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Ética da felicidade

Paulo Rego*

Um ditado brasileiro, repetido em tempos de crise, diz que há uma boa notícia nos tempos agudos: pior não pode ficar. Mas pode; na verdade, se nada se faz para melhorar, o mais certo é mesmo piorar. A zona de conforto é a culpa ser sempre de alguém – do outro – grande passo para o caos. Os governos têm alto grau de responsabilidade; mas também a ciência, a Academia em geral, a quem cabe procurar soluções; as empresas têm de se adaptar, lembrando-se que o trabalho é feito por trabalhadores, gente com nome, ambições e limitações; e o cidadão pode sempre fazer mais qualquer coisa, por si e pela comunidade, nem que seja apenas uma cultura de exigência que enquadre melhor os decisores. Nessa consciência reside o primeiro passo para que o fim de cada ano seja um passo em frente – não dois para trás.

O mundo está perigoso, por motivos vários; mas, sobretudo, porque vivemos num tempo em que uns e outros caminham para o abismo de achar que a visão que têm – de si próprios, do outro, do mundo – é a única que faz sentido; que é preciso que os outros a sigam, que é legítimo impor valores relativos e visões subjetivas. Mas não é. Aliás, quanto mais o fazemos, quanto mais radical e dogmática é essa convicção, mais violenta é a reação que provoca.

O dogma da razão não faz sentido. Logo, se não há verdade absoluta, resta-nos a ética; ou seja, aprendermos a viver com o outro, percebendo que não há só uma verdade, mas várias

Na década de 1960 – veja-se há quanto tempo – a física quântica provou que acontecem coisas que ainda hoje negamos; o nível de conhecimento diz-nos que é impossível, embora saibamos que existem. Por exemplo, dois corpos ocuparem o mesmo espaço, ou mudarem de comportamento só por estarem a ser observados. Esta evidência criou um bloqueio filosófico: se o pressuposto não é verificável, a tese é relativa; o dogma da razão não faz sentido. Logo, se não há verdade absoluta, resta-nos a ética; ou seja, aprendermos a viver com o outro, percebendo que não há só uma verdade, mas várias. Que mudam no tempo, e no espaço, de acordo com a História, o contexto, a cultura e a circunstância de cada um. Recuámos muito em relação a esta perspetiva que, diga-se, talvez seja a pior de todas – excetuando todas as outras.

Cada país, cada político, cada instituição e empresa, cada cidadão, podem fazer muito por um ano melhor, lembrando-se que o seu direito a acreditar nisto e naquilo, no mínimo, é igual ao que outros têm de não lhes serem impostos mundos que não vêm. Tem de haver debate, discussão, negociação; há valores que devem ser universais, como a liberdade individual, o direito à vida; à não discriminação, e muitos, muitos outros. Pode-se – e deve-se – defender isso; mas não tudo o resto. E sempre no limite do bom senso, com a consciência de que a defesa dessas convicções não legitima curas que se revelam piores que as doenças.

Bom ano para todos; sejam felizes; deixem aos outros espaço para evitar o conflito.

*Diretor Geral do PLATAFORMA

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