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Trumpalhada venezuelana

Paulo Rego*

Nicolás Maduro não tem legitimidade – nem defesa. Atirou o povo venezuelano para a miséria, tirou-lhe liberdade, esperança e dignidade. E, dizem observadores internacionais, assaltou o poder falseando resultados eleitorais. Ainda assim, o rapto de um chefe de Estado estrangeiro é um prepotente atentado ao direito internacional; cai de podre o pacifismo estratégico entre impérios modernos e seus quintais de influência. Donald Trump quer petróleo e poder; está-se literalmente nas tintas para o povo e a democracia. Verdade seja dita, não é hipócrita; disse-o, claramente, para quem queira ouvir.

É falso classificar o rapto de Maduro e da sua mulher como operação policial – e não militar. O Tribunal de Nova Iorque, que o acusa de narco-terrorismo, não tem jurisdição em Caracas; não apresentou provas, muito menos o condenou. Curiosamente, o mesmo Estado acusa Trump de crimes contra o próprio regime norte-americano; o que, pelo mesmo critério, justificaria quiçá um assalto à Casa Branca. O argumento terrorista, anexo ao tráfico de droga, é um pretexto para legitimar a urgência de um ataque extraterritorial sem mandato das Nações Unidas, nem sequer consulta ao Congresso norte-americano. E uma absurda contradição com o perdão presidencial ao hondurenho Juan Orlando Hernández; esse sim, condenado a 45 anos de prisão por tráfico de 400 toneladas de cocaína para os Estados Unidos.

Resta-nos todos os dias agradecer a Xi que escolha manter mínimos de decência na ordem internacional. A avaliar pela doutrina trumpista, só não ataca se não quiser

Não há aqui ponta de messianismo libertário. Pelo contrário. Trump confessa cumplicidade com a número dois de Maduro, Delcy Rodrígues, que assume a Presidência interina de mãos dadas com os sinistros ministros do Interior e da Defesa. Ou seja, negoceia uma tutela fantoche com o mesmo regime que alega ter derrubado; descarta Eduardo Gonzáles, líder da oposição no exílio; e Maria Corina, Nobel da Paz. Deduz-se… que não se vergam ao papel de marionetes. Trump quer o petróleo venezuelano e dá-se ao luxo de explicar que vai “ganhar muito dinheiro”. Fá-lo a coberto da assustadora doutrina Monroe, que descreve a América Latina como quintal dos Estados Unidos, que ali fazem o querem em nome dos seus interesses. Tese, essa, imagine-se, de 1823! A ameaça pende agora sobre Cuba, Colômbia, Gronelândia… Brasil e México pensam na bomba atómica, para se defenderem de Washington.

Nesta lógica, não há moral que condene Putin se amanhã raptar um qualquer líder do antigo bloco soviético; ou se Xi Jinping fizer o mesmo com um líder separatista em Taiwan. É nesta altura justo notar que, por mais ameaças que faça, o líder chinês é o único que ainda não cometeu despautérios como o da Rússia na Ucrânia; ou os sete ataques que Trump já perpetrou no curto ano do seu segundo mandato. Por este andar, resta-nos todos os dias agradecer a Xi que escolha manter mínimos de decência na ordem internacional. A avaliar pela doutrina trumpista, só não ataca se não quiser.

*Diretor Geral do PLATAFORMA

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