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Diversificação digital

Entrevistas de rua, cultura e registos quotidianos em vídeo estão a redefinir a criação de conteúdos em Macau, à medida que uma nova geração de influencers assume a aposta em narrativas centradas em “gentes de Macau a contar histórias de Macau”.

Viviana Chan

A cidade assiste a uma transformação discreta, mas profunda, do seu ecossistema de conteúdos. As antigas partilhas monotemáticas, centradas em visitas a restaurantes e publicações estáticas de texto e imagem, estão gradualmente a dar lugar a formatos mais variados, como entrevistas de rua, conteúdos culturais e registos quotidianos em vídeo. Uma nova geração de criadores recorre a estratégias de conteúdo mais profissionais e a uma perspetiva genuinamente local, apresentando ao exterior um retrato mais completo e diversificado de Macau.

José Chan Rodrigues, presidente da Associação de Transmissão ao Vivo de Macau, explica ao PLATAFORMA que a tendência de “diversificação do ecossistema de conteúdos em Macau não se reflete apenas nos formatos, mas sobretudo no alargamento das temáticas abordadas”.

Excluindo conteúdos como a simples apresentação de casinos, há um espaço real para o desenvolvimento de projetos que explorem a cultura e a vida quotidiana de Macau

José Chan Rodrigues, presidente da Associação de Transmissão ao Vivo de Macau

Durante muito tempo, os criadores locais estiveram fortemente concentrados em áreas únicas, como os conteúdos gastronómicos: “Este tipo de conteúdo constitui frequentemente a via mais direta para um retorno comercial”, admite José Chan Rodrigues, mas tende a conduzir à homogeneização do ecossistema criativo, com o “crescimento de seguidores a atingir rapidamente um limite”.

No entanto, com o crescimento explosivo da criação de conteúdos a nível global, o contexto competitivo alterou-se de forma significativa. “A maioria das contas que se tornam virais têm conteúdos especiais”, sublinha, defendendo que os criadores locais precisam passar de “bloggers de gastronomia” para verdadeiros “criadores de conteúdos”, assumindo de forma ativa a posição de “gentes de Macau a contar histórias de Macau”. Este olhar e esta narrativa de origem local oferecem ao público um “grau de autenticidade e atratividade que não pode ser substituído”.

Para ilustrar o potencial do mercado, José Chan Rodrigues cita uma análise de ‘big data’ realizada em colaboração com a gigante chinesa Alibaba, segundo a qual, em 2024, o volume de conteúdos relacionados com Macau, em toda a internet, terá atingido cerca de 60 milhões de publicações. “O nível de atenção do público do Interior da China em relação a Macau aumentou de forma clara”, diz, acrescentando que estes dados revelam uma procura significativa por temas ligados à cidade.

“Excluindo conteúdos como a simples apresentação de casinos, há um espaço real para o desenvolvimento de projetos que explorem a cultura e a vida quotidiana de Macau”, diz José Chan Rodrigues.

Narrativas locais ganham espaço

A rápida ascensão da conta “MacauSiuSan” confirma o êxito da combinação entre uma estratégia profissional de conteúdos e uma perspetiva local assente na autenticidade. O canal, que se distingue por entrevistas de rua – em particular a estudantes -, acumulou mais de 220 mil seguidores em plataformas como Douyin e Xiaohongshu.

O responsável pela operação da conta, Choi Chio Ngai, explica ao PLATAFORMA que a estratégia de conteúdos assenta na sua experiência no Interior da China em agências MCN – empresas especializadas na gestão e comercialização de criadores digitais: “Eu próprio fui responsável por uma conta Douyin no Interior da China com 3,6 milhões de seguidores, dedicada a entrevistas de rua. Tendo essa experiência, ao regressar [a Macau], optei por fazer aquilo em que sou mais competente”.
O ponto de viragem do crescimento da conta surgiu quando o foco passou a estar nas entrevistas a estudantes. “O público tende a preferir reações mais genuínas… as respostas dadas pelos estudantes são mais autênticas e, por vezes, inesperadas”, afirma.

(…) Fui responsável por uma conta Douyin no Interior da China com 3,6 milhões de seguidores, dedicada a entrevistas de rua. Tendo essa experiência, ao regressar [a Macau], optei por fazer aquilo em que sou mais competente

Choi Chio Ngai, responsável pela operação da conta “MacauSiuSan”

Esta sensação de espontaneidade, pouco trabalhada ou encenada, corresponde precisamente à curiosidade externa em relação a Macau e às lacunas de informação existentes. Apesar dos conteúdos serem maioritariamente em cantonense e do público principal se concentrar na Grande Baía, alguns vídeos com maior alcance continuam a circular amplamente, mesmo entre audiências do Interior da China que não compreendem o idioma, graças ao seu caráter genuíno e apelativo.

Novo fôlego para os novos media

A trajetória da criadora de conteúdos Liana Lau, responsável pela conta “Macau Master Six”, ilustra as transformações verificadas no contexto do setor dos novos media em Macau. O projeto, centrado na partilha de conteúdos sobre gastronomia, lazer e experiências locais, soma cerca de 216 mil seguidores em várias plataformas digitais.

Numa fase inicial, os criadores de Macau enfrentavam dificuldades práticas: “No passado, os residentes de Macau, ao tentarem registar contas em determinadas plataformas, nem sempre conseguiam concluir o processo, o que representava uma limitação significativa”, explica Liana Lau ao PLATAFORMA.

A situação começou a mudar à medida que as plataformas foram abrindo gradualmente as suas permissões. Esse processo incluiu, em diferentes etapas, a autorização para registo com documentos de identidade de Macau, a possibilidade de comerciantes locais venderem vales de compras coletivas nas plataformas e, posteriormente, a permissão para que utilizadores sem seguidores pudessem iniciar transmissões em direto. Na sua análise, “estas mudanças resultaram não só do impulso dado por associações locais e pelo Governo, mas também de uma maior atenção das próprias plataformas ao mercado de Macau”.

Estas mudanças resultaram não só do impulso dado por associações locais e pelo Governo, mas também de uma maior atenção das próprias plataformas ao mercado de Macau

Liana Lau, responsável pela conta “Macau Master Six”

Com a melhoria do ambiente do setor, os modelos de negócio tornaram-se igualmente mais diversificados. Liana Lau e os seus parceiros optaram por constituir a sua própria empresa para gerir a conta, sem recorrer a contratos com agências MCN, e a perceção dos comerciantes locais em relação aos novos media alterou-se nos últimos anos, em especial durante o período da pandemia: “Quando começámos, há alguns anos, muitos empresários da restauração não compreendiam bem este setor”, diz.

Em termos de conteúdos, a equipa mantém o foco em “comer, beber e divertir-se”, consideradas as áreas mais atrativas para o público. A escolha dos temas tem em conta vários critérios, como a utilidade prática da informação, a razoabilidade dos preços ou a existência de experiências novas e diferenciadoras. Entre os projetos desenvolvidos, contam-se séries dedicadas à descoberta de estabelecimentos menos conhecidos nos bairros da cidade.

Para alcançar um público mais alargado, embora os vídeos sejam maioritariamente em cantonense, são acrescentadas legendas em chinês simplificado, facilitando a compreensão por parte de espectadores que não dominam o idioma. Atualmente, os conteúdos estão distribuídos por seis plataformas, incluindo Douyin, Xiaohongshu, WeChat Video Accounts,
TikTok, Instagram e Facebook. De um modo geral, os mecanismos de recomendação das plataformas tendem a promover inicialmente os conteúdos junto de utilizadores de Macau, Guangdong e Hong Kong, antes de os expandirem para outras regiões.

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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