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Metro atrasado

Na semana em que foi apresentado o Estudo Estratégico para o Desenvolvimento do Metro Ligeiro de Macau, o urbanista Kaleb Lam lembra que a aposta estratégica deste modelo de transporte tem mais de uma década e “falhou ao nível da comunicação com a população e da articulação com as políticas públicas”. Já o engenheiro Addy Chan considera que o plano é “uma oportunidade”, desde que exista “um plano claro” em vez de “soluções improvisadas”.

Inês Lei

“A questão estratégica do metro ligeiro foi colocada logo em 2009/2010, quando se fez o planeamento dos transportes terrestres, definindo o metro ligeiro como o modo principal. No entanto, até hoje, não se formou uma rota de mobilidade diária para os cidadãos irem trabalhar ou estudar”, afirma Kaleb Lam ao PLATAFORMA. Para o urbanista, “a proposta falhou ao nível da comunicação com a população e da articulação com as políticas públicas”, razão pela qual “a apresentação deste Estudo Estratégico para o Desenvolvimento do Metro Ligeiro de Macau surge um pouco tarde”.

O estudo, apresentado pela Direcção das Obras públicas (DSOP) e em consulta pública até ao final de fevereiro, propõe a criação de seis novas linhas, totalizando 21,1 quilómetros, com cobertura praticamente integral da cidade. A maioria dos novos troços será subterrânea, procurando reduzir o impacto na paisagem urbana, estando também a ser ponderada a adoção de sistemas ferroviários mais modernos.

O plano estabelece intervenções faseadas no tempo. A curto prazo, o Governo aponta para a extensão da Linha Leste até ao Posto Fronteiriço de Qingmao, num trajeto totalmente subterrâneo, e para a expansão da Linha de Seac Pai Van, com três novas estações destinadas a servir zonas residenciais e pontos turísticos. A médio prazo surgem a Linha Oeste, ao longo do Porto Interior, e a Linha Sul, ligando a Barra ao posto fronteiriço da Ponte Hong Kong–Zhuhai–Macau. As duas novas linhas previstas para a Taipa são classificadas como projetos de longo prazo.

No passado, muitas obras e construções em Macau falavam apenas dos benefícios, sem referir as dificuldades que poderiam surgir, criando um desfasamento entre expectativas e realidade

Kaleb Lam, urbanista

Apesar das reservas quanto ao tempo perdido, Kaleb Lam reconhece utilidade ao documento enquanto instrumento de planeamento. “Qualquer planeamento visa dar à sociedade uma ‘previsibilidade’. No passado, o Governo tinha um grande problema no planeamento: as decisões surgiam de forma muito súbita. Agora, no processo de consulta e recolha de opiniões, os cidadãos sabem onde o projeto vai ser construído e como será implementado no futuro”, diz.

Ainda assim, o urbanista alerta para a necessidade de uma gestão realista das expectativas durante a execução das obras: “No passado, muitas obras e construções em Macau falavam apenas dos benefícios, sem referir as dificuldades que poderiam surgir, criando um desfasamento entre expectativas e realidade”, defendendo maior transparência quanto aos constrangimentos técnicos e temporais dos projetos.

Também o engenheiro Addy Chan vê no plano uma oportunidade, desde que se evite a repetição de soluções improvisadas do passado. “Este projeto de metro ligeiro é uma oportunidade. Se puder existir um plano claro, em vez de ‘remendos’ ou soluções improvisadas, este modelo é uma boa direção”, afirma ao PLATAFORMA. Embora tardia, a iniciativa permite finalmente estruturar uma “visão de longo prazo para a mobilidade urbana”.

Impacto ambiental e execução

Uma das principais preocupações levantadas prende-se com o impacto ambiental, sobretudo na zona do Alto de Coloane. Kaleb Lam considera que o traçado maioritariamente subterrâneo reduz os efeitos visuais, mas alerta que a Linha de Seac Pai Van ficará muito próxima da área protegida. “Como a Rua de Entre-Campos [no centro da vila de Coloane] é muito estreita, esta parte da construção poderá ser mais difícil”, explica.

Addy Chan questiona as opções técnicas previstas para essa seção: “A Linha de Seac Pai Van vai estender-se até à estação da Povoação de Lai Chi Vun e ao Pavilhão dos Pandas. Como é que a via e a estrutura da estação urbana vão ser desenhadas?”, questiona, acrescentando que “se o modelo de via única bidirecional puder ser feito mais estreito, a interferência na encosta será ainda menor”.

Relativamente à Linha Sul, Addy Chan deposita expectativas elevadas, sobretudo na ligação da estação do NAPE à Zona A dos Novos Aterros Urbanos. “O ponto-chave está na ligação na estação do NAPE. Se a estação do NAPE conseguir ligar-se às estações da Zona A e abrir mais cedo, acredito que poderá aliviar significativamente a pressão do tráfego”, afirmou. O engenheiro defende mesmo a possibilidade de uma abertura faseada, sem esperar pela conclusão integral da linha.

Para o gestor da página de Facebook “Macau Buses and Public Transport Enthusiastic”, dedicada ao acompanhamento dos transportes públicos, a Linha Sul é “particularmente relevante por permitir a ligação da zona central da cidade ao metro ligeiro” e facilitar transbordos para as Portas do Cerco, a Ponte Hong Kong–Zhuhai–Macau e o Cotai. Apesar de apoiar o conjunto das linhas propostas, “espera que, no futuro, a Linha Central da Taipa possa ligar-se à quinta ligação para a Península de Macau, reforçando a ligação ao centro urbano”.

O estudo oferece uma “visão integrada para a reorganização de áreas como o Porto Interior”, mas Addy Chan alerta que a “escolha das estações e a articulação com a revitalização económica dessas zonas serão determinantes, exigindo uma gestão rigorosa das expectativas criadas junto da população”.

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