Portugal tem agora dois caminhos possíveis para Belém; e, pela própria natureza da democracia, são ambos legítimos, seja o que for que a maioria dite. André Ventura parte para a segunda volta das Presidenciais intitulando-se “líder da direita”; que só não ganha “se os eleitores do PSD e da Iniciativa Liberal forem egoístas” e não votarem nele. António José Seguro define-se como “progressista, democrático e humanista”; desfraldando a bandeira da união contra o “extremismo, o ódio, e quem semeia a divisão”. Ambos estão a ver bem: se a direita votar nele em peso, ganha o líder do Chega; se os portugueses seguirem a outra pista, é Seguro quem ganha. Para Macau; aliás, para a China; um perfil é a antítese do outro; porque o trumpismo, que arrasa os alicerces do direito internacional, está em Ventura; um terremoto em Lisboa para as relações internacionais.
Para além das consequências internas, uma eventual vitória de Ventura atira Portugal para o arcaísmo da doutrina Monroe
A maioria dos analistas está convicta da vitória de Seguro; de resto, como prenunciam todas as sondagens que colocam um frente ao outro. Há mesmo quem esteja convencido de que Ventura nem sequer quer ser Presidente, antes capitalizando esta campanha para mais tarde ser primeiro-ministro. Contudo, o voto de protesto é hoje tão desvairado, em vários cenários a ocidente, que nada pode ser dado como garantido. Os eleitores portugueses em Macau garantiram boa afluência às urnas; deram expressiva vitória a Marques Mendes, seguido de Seguro e, só depois; Ventura. Contudo, no círculo da imigração, globalmente considerado, o radicalismo vence por larga margem; e é cada vez mais estrutural. Hei-de um dia perceber porque votam os emigrantes em discursos xenófobos; porque tantas mulheres seguem líderes machistas… e aí por diante. Ainda lá não cheguei, mas acontece; e negar a realidade é o pior que nestes casos se pode fazer. Há mexicanos a votar em Trump; migrantes em Macau, de primeira e segunda geração, vindos de Fukien, ou Cantão, a defenderem na Assembleia Legislativa que não se pode atribuir residência aos seus compatriotas que queiram agora vir. Já cá estão… os outros que se amanhem. A democracia tem este problema: a maioria nem sempre é racional; aliás, raramente é; e a defesa de interesses, dogmas e convicções de cada um dá muitas vezes para o torto.
Qualquer voto é legítimo, livre e secreto – é essa a regra. A opinião, também ela livre e legítima; essa, é pública. Eis a minha: para além das consequências internas, uma eventual vitória de Ventura atira Portugal para o arcaísmo da doutrina Monroe; retira à comunidade portuguesa de Macau qualquer narrativa sobre a discriminação positiva que a plataforma lusófona lhe dá; retira-nos a todos qualquer espaço crítico se um dia Pequim se lembrar de usar a força e a discriminação negativa em nome do seu exclusivo interesse. Podem votar nisso? Claro! Mas quem o fizer é bom que perceba que é isso que quer; ou acha que quer. Em 35 anos de jornalismo é a primeira vez que tomo uma posição frontal deste tipo. E sei bem porque o faço.
*Diretor Geral do PLATAFORMA