Os Estados Unidos instaram hoje (10) a China e a Rússia a “cessarem a subversão” das decisões do Conselho de Segurança em relação ao regime de sanções contra o Irão e a não obstruírem “a possibilidade de paz”.
A posição norte-americana foi transmitida numa reunião do Conselho de Segurança da ONU convocada pela Colômbia para abordar o trabalho do Comité de Sanções contra o Irão, mas que acabou marcada pela tentativa da China e da Rússia de bloquear a realização da mesma.
“Certos Estados, ao desrespeitarem as restrições impostas por este Conselho e, de forma mais ampla, ao protegerem o Irão da responsabilização, possibilitam diretamente as atividades desestabilizadoras do Irão, muitas das quais transgridem as resoluções deste Conselho”, afirmou a diplomata norte-americana Tammy Bruce.
Apesar de inicialmente não ter citado diretamente Pequim e Moscovo, procedeu a fazê-lo logo em seguida, acusando os dois países de possibilitarem “o desrespeito do Irão às resoluções do Conselho de Segurança”.
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“A Rússia e a China têm procurado neutralizar este Comité [1737, de Sanções ao Irão] e tornar o Irão um parceiro subserviente e desviar a atenção internacional da sua própria falta de conformidade com este regime [de sanções]”, afirmou.
A Rússia adquiriu repetidamente mísseis balísticos de curto alcance do Irão, e, em janeiro de 2026, Moscovo forneceu helicópteros de ataque a Teerão, em violação de resoluções do Conselho de Segurança, de acordo com Tammy Bruce.
“O Presidente Donald Trump está empenhado em garantir que o Irão jamais desenvolva ou adquira uma arma nuclear, mas a sua preferência de longa data é a diplomacia. Apelamos à China e à Rússia para que cessem a subversão das decisões do Conselho e, mais fundamentalmente, para que não obstruam a possibilidade de paz”, concluiu a representante de Washington.
Sanções restabelecidas após colapso do acordo nuclear
Vários diplomatas pediram hoje na ONU que os Estados-membros implementem integralmente as resoluções do Conselho de Segurança que restabeleceram as sanções a Teerão.
No ano passado, a ONU voltou a impor sanções ao Irão através do chamado mecanismo de ‘snapback’ previsto no acordo nuclear de 2015, provocando uma reação de indignação de Teerão, que suspendeu a aplicação do Plano de Ação Conjunto Global [JCPOA, acordo nuclear firmado em 2015].
O mecanismo de ‘snapback’, acionado pela França, a Alemanha e o Reino Unido, reativou seis resoluções do Conselho de Segurança da ONU sobre o programa nuclear e de mísseis balísticos do Irão, restabeleceu sanções económicas e reinstaurou a suspensão de todo o enriquecimento de urânio.
O JCPOA, firmado em julho de 2015 em Viena, é um acordo nuclear entre o Irão e o grupo P5+1 (EUA, Reino Unido, França, China, Rússia e Alemanha) juntamente com a União Europeia. O objetivo foi garantir a natureza exclusivamente pacífica do programa nuclear iraniano, limitando o enriquecimento de urânio em troca da suspensão de sanções económicas.
Em maio de 2018, Donald Trump, durante o seu primeiro mandato na Casa Branca, retirou os EUA do acordo e reimpôs sanções ao regime iraniano.
Pequim responsabiliza Washington pela crise
Na sessão de hoje no Conselho de Segurança, Pequim acusou Washington de minar seriamente os esforços diplomáticos com o Irão ao retirar-se unilateralmente do JCPOA e ao utilizar a força contra Teerão por duas vezes enquanto as negociações estavam em curso.
“Esta é a causa principal da situação difícil e complexa que vemos hoje”, afirmou o representante chinês. “As partes envolvidas devem aprender com o passado, abandonar a política de poder, envolver-se num diálogo de boa-fé e em pé de igualdade e comprometer-se a não voltar a recorrer à força”, apelou.
A China defendeu que seja dada prioridade às aspirações e necessidades do Irão de utilizações pacíficas da energia nuclear, frisando que Teerão declarou por diversas vezes o seu compromisso de não desenvolver armas nucleares e que “tem o direito legítimo à utilização pacífica da energia nuclear”.
“A China apoia os EUA e o Irão em negociações racionais e pragmáticas para resolver adequadamente as suas divergências, a fim de garantir que, sob as rigorosas salvaguardas da AIEA [Agência Internacional de Energia Atómica], o Irão possa conduzir atividades nucleares pacíficas de forma ordenada e eliminar eficazmente os riscos de proliferação nuclear”, insistiu Pequim.
França alerta para reservas de urânio enriquecido
No entanto, o embaixador francês junto da ONU, Jérôme Bonnafont, destacou que o último relatório trimestral da AIEA, publicado na semana passada, é alarmante a este respeito, reiterando que o Irão é o único Estado sem armas nucleares a enriquecer urânio até 60%.
“Não existe qualquer justificação civil credível para a retenção de mais de 400 quilogramas de urânio enriquecido a este nível”, afirmou Bonnafont, antes do início da reunião, acrescentando: “Já passou um ano desde que os inspetores pisaram pela última vez as instalações mais sensíveis à proliferação do Irão”.