Ao longo desta série de artigos, tenho procurado refletir sobre os desafios e oportunidades que a fusão entre Cultura e Desporto coloca ao futuro da RAEM. Neste texto, quero concentrar-me num ponto essencial, mas que ao longo de décadas foi sendo sucessivamente ignorado: a articulação – ou ausência dela – entre o desporto escolar e o desporto associativo.
Em Macau, este tema atravessa várias décadas, acumula avanços e recuos, tensões institucionais e divergências estruturais. E representa, talvez, a maior lacuna sistémica de todo o nosso desenvolvimento desportivo.
Nos anos 1980, quando o sistema desportivo moderno começava a consolidar-se, a então Repartição da Juventude e Desportos, integrada na Direção dos Serviços de Educação e Cultura, desempenhava duas funções: organizar e promover o desporto escolar; apoiar o movimento associativo e as filiações internacionais das modalidades.
Mas antes desta fase, a realidade era ainda mais fragmentada: Macau tinha três sistemas escolares separados, sem qualquer articulação entre si. Ainda assim, dentro do Governo existia a noção de que a escola deveria ser a base, e os clubes a extensão natural do percurso desportivo. Mas essa ideia nunca chegou verdadeiramente a consolidar-se.
Um ponto de viragem decisivo ocorreu quando, por decisão exclusivamente administrativa, a educação física escolar foi totalmente transferida para o setor do ensino.
Desde então, ficaram separados: o desporto escolar, sob tutela educativa, o desporto associativo e competitivo, sob tutela desportiva. Esta fronteira nunca foi ultrapassada – e continua a condicionar todo o sistema.
Em 1987 nasceu o então Instituto dos Desportos, com competências claras: desenvolvimento do desporto federado e competitivo, gestão de instalações, representação internacional e apoio ao Comité Olímpico de Macau. O desporto escolar, entretanto, ficou exclusivamente sob a responsabilidade dos serviços educativos. Assim se criaram dois sistemas paralelos, que nunca chegaram a convergir. Com o tempo, estas diferenças foram diminuindo, sobretudo a partir dos anos 1990.
Mas um conjunto de problemas estruturais permaneceu: escassez de treinadores e quadros técnicos, falta de ciência do desporto e metodologias modernas, ausência de planos de médio e longo prazo, e ligação débil entre escolas e associações.

DSEJ (DR)
Hoje existe um vazio evidente: A DSEDJ promove desporto escolar com fins educativos e recreativos. As associações formam jovens com fins competitivos. Mas não existe uma ponte estável que ligue os dois percursos.
O panorama atual é claro: A DSEDJ gere o desporto escolar e as atividades juvenis. O Instituto do Desporto promove o desporto comunitário e a saúde pública. Ambos funcionam dentro das suas funções. Mas funcionam separadamente. Apenas se encontram, com sucesso, em iniciativas como as Atividades de Férias.
Nos últimos anos, muitos jovens formados no estrangeiro, no Interior da China ou na Universidade Politécnica de Macau voltaram com competências em gestão desportiva, ciência do desporto, treino e preparação física, entre outras.
Mas não encontram espaço para crescer: o setor público domina as funções-chave, o mercado é demasiado pequeno e não existe abertura para novos atores.
Macau está a perder estes talentos valiosos – e isso tem impacto real no futuro.
Com duas entidades a trabalhar bem – mas separadas – é urgente refletir: Deve esta separação continuar? Deve-se repensar a relação entre escola, clubes e competição?
Num território pequeno, qualquer fragmentação custa caro. E esta é possivelmente a mais onerosa para o futuro desportivo da RAEM.
O desporto escolar e o desporto associativo são os dois pilares de qualquer sistema moderno.
Em Macau, porém, caminham lado a lado – sem jamais se encontrarem.
Com a futura Zona Internacional de Turismo e Cultura e uma maior integração na Grande Baía, a reflexão torna-se ainda mais urgente. O verdadeiro desafio será este: Temos a visão e a coragem para, finalmente, ligar a escola aos clubes?