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Obrigado Mr. Chan

Paulo Rego*

Conheci David Chan em 1994, recém-chegado à Rádio Macau, onde uma estante alta, a meio da redação, fazia de muro entre os jornalistas chineses e portugueses. Pedro Sousa Pereira, grande figura desse tempo inesquecível; liderou então uma discussão que acabou por convencer as chefias portuguesas a derrubar aquele trambolho. Do outro lado da barricada contou com apoio – decisivo – dessa figura discreta, altamente respeitada, que chefiava sem nunca levantar a voz nem fazer qualquer gesto brusco. David Chan explicou ao lado chinês a razão que nos assistia e a importância da proximidade que queríamos; e assim caiu uma das tristes barreiras que esta cidade ergue – mais ou menos visíveis.

Muitos anos depois – já lá vai mais de uma década – mudaram radicalmente as circunstâncias e o PLATAFORMA enfrentou a primeira grande reestruturação, com redução dramática de custos e alteração do próprio perfil do projeto. Procurámos então no meio jornalístico chinês alguém que garantisse uma série de predicados difíceis de encontrar: domínio sénior da língua, credibilidade geracional, disponibilidade didática, capacidade relacional para fazer pontes entre duas formas muito diferentes de encarar o jornalismo… E maturidade para desenvolver fórmulas que resolvessem depressa a circunstância, simultaneamente estruturando processos para o futuro. David Chan, sugerido por amiga comum – Mendy Kuok – não falava sequer inglês; reformado, já não tinha o tempo e a energia de outros tempos; mas adorou a ideia e logo se entregou ao projeto. Percebendo a oportunidade que ele representava, lembrei-me também daquele sorriso discreto com que nos brindava quando o muro da Rádio Macau já lá não estava… e assim acabou por ser um dos primeiros pilares da qualificação do nosso bilinguismo. E trouxe também equilíbrio à importância que sempre demos aos artigos de opinião; porque sempre quisemos publicar o que bem entendemos; mas também aquilo que para nos é diferente, e nem sempre entendemos.

David Chan acabou por ser um dos primeiros pilares da qualificação do nosso bilinguismo. E trouxe também equilíbrio à importância que sempre demos aos artigos de opinião

Nunca me esquecerei da reação que teve quando lhe propusemos uma coluna de opinião. Com grande humildade, quis saber o que se pretendia; o que era suposto abordar; que lógica devia seguir…. e pôs sempre em causa que os seus artigos pudessem ser relevantes. Mas foram, porque significavam equilíbrio, coisas das quais se calhar discordamos; e, certamente, não nos ocorreriam. Como sempre, neste jornal, a resposta foi a da liberdade total para encontrar o seu próprio registo; nos assuntos que entendesse, sem indicações ou expectativas prévias. Mostrou-se espantado; afinal, dizia, não era essa a lógica a que estava habituado.

Mais do que um simples colaborador, David Chan foi central na qualificação da nossa escrita chinesa; hoje coordenada por Carol Law, que sempre nutriu por ele visível carinho. Faz parte do respeito mútuo por culturas editoriais e atitudes diferentes, com espaços de consenso; num projeto que embora tendo por base a cultura jornalística portuguesa tem sempre lugar para abordagens mais próximas da comunidade chinesa. Nem sempre todos percebem isso; por vezes foi até difícil explicar isso a alguns colaboradores portugueses; mas David Chan, como as novas gerações que o acompanharam, nunca hesitaram em dar o seu melhor para trazer qualidade; mesmo sendo tudo tão diferente ao que estavam habituados na imprensa chinesa.

A idade foi-lhe retirando disponibilidade; o COVID trouxe-nos dificuldades inesperadas e necessidades de adaptação; e David Chan foi-se afastando; primeiro da rotina de qualificação do chinês, depois da sua coluna de opinião. Nunca deixou de estar atento; preocupou-se sempre com o nosso caminho, e deu-nos sempre aquele sorriso, às vezes tão discreto que nem se via nos lábios, mas sim no brilho dos olhos. Nunca deixou de mostrar – e exercer – nomeadamente no Fundo de Beneficência dos Jornalistas – o respeito mútuo que era seu timbre e nos ajudou a cimentar. Partiu, deixando a saudade que dói, sobretudo à família e amigos mais próximos. Os nossos mais sinceros pêsames. O que vos posso nesta altura dizer é que, a todos nós, deixa o exemplo, a memória, e um legado. Obrigado Mr. Chan.

*Diretor Geral do Plataforma

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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