Início » Duas pernas na narrativa: Uma gorda e a outra muito manca

Duas pernas na narrativa: Uma gorda e a outra muito manca

Paulo Rego*

Os 24,1 mil milhões de patacas arrecadados no Jogo, em Outubro, batem em mais de 15 por cento o período homólogo do ano passado: a melhor performance desde outubro de 2019. Quer isto dizer que as operadoras navegam em água doce: se é verdade que o turnover já foi maior; reduziram substancialmente os custos operacionais, incluindo nos recursos humanos; e gastam muito menos em comissões e luxos antes absorvidos pelo submundo VIP. Ou seja, o EBITDA é ainda melhor do que os resultados brutos indicam. Quer isto também dizer que o Executivo acabará o ano com uma margem orçamental bem acima das projeções oficiais; mas também significa que a receita gerada pelos resorts integrados – direta e indireta – está cada vez mais próxima dos 84.5 por cento do total arrecadado pelo Estado, como em 2019.

É cristalino hoje em Macau, Pequim, ou no mundo da lua, que a diversificação continua ao ritmo da morte lenta. Pese o dilema ideológico do Partido Comunista Chinês com esta indústria, as óbvias desvantagens da dependência de um único setor; e de uma sociedade de oligopólios; certo é que, no curto e médio prazo, a única solução continua a ser atrair jogadores. Sejam eles do mercado de massas; ou do VIP que, longe de ter acabado, representa pelo menos 14 por cento das fichas na mesa. Aliás, fecham cada vez mais lojas, bares e restaurantes nos resorts integrados, sendo cada vez maior a oferta de espaços privados de luxo – o que diz muito sobre o turista que mais conta.

Não é possível andar só com a perna da diversificação; pelo que a perna do Jogo, que volta a correr, tem de pôr a outra, que é manca, pelo menos a andar

Apesar de tudo, pior seria que o Jogo derrapasse, como está a acontecer no comércio tradicional e nas PME em geral. Havendo superavit, o chamado bom problema coloca-se ao nível da escolha, do foco, da capacidade de execução e do investimento na diversificação.

Os ecos que chegam de Pequim são os de uma semiótica política renovada: não é possível andar só com a perna da diversificação; pelo que a perna do Jogo, que volta a correr, tem de pôr a outra, que é manca, pelo menos a andar. É a missão mais difícil de Sam Hou Fai; aliás, há muito repetida por Pequim aos seus antecessores. Na realidade, a explosão do PIB nos mandatos de Edmund Ho deu tempo e espaço a Chui Sai On para dedicar mais tempo a distribuir do que a investir; depois, o Covid retirou margem a Ho Iat Seng, que pouco mais fez do que resistir. Mas os tempos mudaram, e o novo ciclo será muito mais exigente em matéria de diversificação.

O caminho é longo, e não há magias. Mas independentemente dos planos já traçados – próprios de uma economia centralizada – há dois ou três caminhos que urge percorrer: planos urbanísticos que recuperem o parque habitacional, aumentem a oferta, baixem o custo das rendas; e redesenhem a cidade para ser mais atraente, culta e divertida; depois, definir claramente os eixos de investimento em Hengqin, atraindo pessoas e capital – local, nacional e internacional. Macau ter plena jurisdição sobre a Ilha da Montanha, aumentando a sua massa crítica e um mercado, no mínimo, com um milhão de pessoas, é de longe a melhor ideia. Finalmente, e mais importante, urge uma cultura de exigência educativa capaz de projetar uma sociedade de serviços competitiva na Grande Baía, e mundialmente respeitada. Da pré-primária às universidades, os miúdos têm de ser capacitados para o que aí vem, daqui a 30 anos; mas é também crucial deitar a mão às gerações adultas, em plena vida ativa, com múltiplos programas de formação profissional contínua que reconvertam milhares e milhares de pessoas que, de outra forma, perderão definitivamente o comboio.

A tarefa é longa, complexa e exigente; não é coisa para um mandato. O que se espera já nas próximas Linhas de Ação Governativa são sinais claros e concretos de visão estratégica, coragem política e capacidade técnica para se darem passos firmes no caminho certo: enxertar as sobras da perna que é gorda na outra que tem de ser posta a andar.

*Diretor Geral do Plataforma

Tags:

Contate-nos

Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

Plataforma Studio

Newsletter

Subscreva a Newsletter Plataforma para se manter a par de tudo!

Uh-oh! It looks like you're using an ad blocker.

Our website relies on ads to provide free content and sustain our operations. By turning off your ad blocker, you help support us and ensure we can continue offering valuable content without any cost to you.

We truly appreciate your understanding and support. Thank you for considering disabling your ad blocker for this website