Início » A debacle da ilusão europeia

A debacle da ilusão europeia

Paulo Rego*

A sétima maior economia do mundo – segunda na União Europeia – afinal, está tecnicamente falida. Mas há pior: dizer hoje a verdade é um suicídio político; porque a mentira e a ilusão tornaram-se há décadas pilares de uma prática eleitoralista e populista. Ou seja, as democracias liberais são hoje, em parte, aquilo de que acusam os nacionalistas de extrema direita. O primeiro-ministro, François Bayrou, cai por confessar o engodo: décadas de orçamentos deficitários, falência do Estado Social – e da arrogância francesa. O “politburo” de Bruxelas andava há muito a tapar o sol com a peneira; e o Fundo Monetário Internacional confessa não ter sequer massa financeira para intervir em dramas com a dimensão do que se passa em França – ou Itália, outra bomba relógio. Na Alemanha, o chanceler Friedrich Merz avisa os jovens que mais vale investirem na bolsa do que esperar por reformas que não vão ter. Pergunte-se hoje a um cidadão chinês ou indiano se invejam este sonho europeu…

Não é perdoável a arrogância com que estes ilusionistas da produtividade e da responsabilidade trataram a crise portuguesa, ou a grega; escondendo o seu próprio jogo de sombras. Sobretudo é hoje evidente a cegueira com que venderam aos seus cidadãos a ilusão de que o paraíso do pós-guerra era eterno; farol de valores universais, liderança tecnológica, ‘know-how’ universitário… e do Estado Social. Já os regimes alternativos na Ásia, com a China à cabeça, cresceram mesmo; com base na produção real de riqueza – e não na mania de grandeza.

A maioria da população asiática não tem as mesmas liberdades políticas, e direitos sociais, bandeira que vale a pena a Europa erguer. Contudo, os direitos económicos, e até sociais, crescem de forma tão exponencial em potências como a China que a ilusão de superioridade europeia cabe hoje no pátio de uma escola infantil ou no canto de um museu de História

Talvez a Europa consiga agora olhar de frente para a realidade; e um dia possa dar a volta. Dizem os economistas mais liberais que vai ter ainda de ser muito pior, antes de voltar a ser melhor. É a famosa curva “J”, que implica deixar cair tudo o que está podre; e a partir desse estrume plantar as sementes do futuro. O problema é que se esquecem sempre dos mortos e feridos que essa cura radical enterra.

Há duas consequências de curto prazo mais do que evidentes, sejam quais forem as opções que a Europa tome daqui para a frente: primeiro, a extrema direita, o nacionalismo e o protecionismo ganham terreno porque as pessoas rejeitam a vida como ela é; sentem a crise na carteira, a angústia na pele… e querem outra coisa qualquer, seja qual ela for; depois, a geração do ‘baby boom’, que após a Segunda Guerra procriou e proliferou, como se não houvesse amanhã, percebe agora que os seus filhos e netos vão ser saco de pancada num combate ideológico, tecnológico e militar que opõe a China – e seus aliados – aos Estados Unidos, cada vez mais isolados. As democracias liberais europeias são hoje a rede de ténis que só vê a bola passar; mesmo que tenham juízo e apertem o cinto, têm sobretudo de perceber que não podem enganar os eleitores, de quatro em quatro anos, sob pena de serem rejeitadas pelos seus próprios cidadãos, cansados dessa ilusão.

É verdade que a maioria da população asiática não tem as mesmas liberdades políticas, e direitos sociais, bandeira que vale a pena e a Europa merece erguer. Contudo, os direitos económicos, e até sociais, crescem de forma tão exponencial em potências como a China que a ilusão da superioridade europeia cabe hoje no pátio de uma escola infantil ou no canto de um museu de História. Como em tudo na vida, é preciso equilíbrio e bom senso. A Europa é o maior mercado do mundo, tem massa crítica, ‘know-how’ e uma longa presença em todos os mundos e épocas muito diferentes. Esse contributo importa, e as conquistas dos direitos e liberdades têm muito valor. Contudo, para os defender é preciso ter juízo, ser de facto transparente, e ter responsabilidade política. O que se vê é que Bayrou abriu a boca – e foi corrido. Não foi o primeiro – nem será o último.

*Diretor Geral do Plataforma

Tags:

Contate-nos

Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

Plataforma Studio

Newsletter

Subscreva a Newsletter Plataforma para se manter a par de tudo!

Uh-oh! It looks like you're using an ad blocker.

Our website relies on ads to provide free content and sustain our operations. By turning off your ad blocker, you help support us and ensure we can continue offering valuable content without any cost to you.

We truly appreciate your understanding and support. Thank you for considering disabling your ad blocker for this website