É fundamental repensar a forma como a cidade lida com o risco de tempestades e marés de tempestade, descrita muitas vezes pelas autoridades pelo termo inglês ‘storm surge’. “A elevação da água (…) tem componentes diversas que são astronómicas, atmosféricas, mas também geográficas, que por sua vez se desmultiplicam em diversas variáveis, nem todas identificadas, conhecidas ou quantificáveis. (…) A maior imprevisibilidade destas variáveis reside sempre na componente atmosférica que se admite, por natureza e definição, poder ser ‘caótica’”, explica o arquiteto Mário Duque ao PLATAFORMA.
Para Olavo Rasquinho, meteorologista e antigo diretor dos Serviços Meteorológicos e Geofísicos (SMG), a quantidade de precipitação que ocorreu em Macau, Taipa e Coloane, no dia 14 deste mês, foi “de facto extraordinária” e “excecional”.
Na cidade de Macau, devido a ser altamente asfaltada, a água não se infiltra e corre para as zonas mais baixas, o que ocasionou inundações”
Olavo Rasquinho, meteorologista
“Os mais de 100 mm que caíram em apenas uma hora, registados em várias estações da cidade, correspondem a mais de 20 garrafões de 5 litros nesse intervalo de tempo na área de um metro quadrado”, diz.
Segundo o especialista, só em Coloane, até às 17h50 desse dia, “tinham caído 271,4 mm, o que corresponde a uma quantidade de precipitação superior à média do mês de setembro, que se pode considerar um mês chuvoso”. Para Rasquinho, os atuais sinais de alerta podem não ser suficientes para situações extremas.
As infraestruturas hidráulicas são dimensionadas com base em fenómenos com uma certa recorrência estatística, critério esse que em Macau pode já estar desajustado. “Se a magnitude dos fenómenos aumenta na mesma recorrência no tempo, ou a tolerância em conviver com essas situações reduz, as normas de dimensionamento dessas infraestruturas devem ser revistas,” aponta Duque. “Deve haver dispositivos complementares de mitigação e de resiliência, isto é, da capacidade de evitar ou minimizar danos e da população se manter funcional na perturbação”.
Para o arquiteto, é necessário apostar em medidas complementares de mitigação e resiliência, não só através e soluções de proteção civil e engenharia, mas também urbanísticas.
Obras em série

A impermeabilização da cidade agrava os impactos destas situações extremas. “[Como a cidade] é altamente asfaltada, a água não se infiltra e corre para as zonas mais baixas, o que ocasionou inundações. A ocorrência da maré alta (…) dificultou o escoamento para o mar do excesso de água que precipitou”, explica Olavo Rasquinho.
O arquiteto Mário Duque aponta a necessidade de adaptar o plano diretor com a elevação de “grandes vias de circunvalação, que bloqueiam o acesso direto e generalizado à orla costeira” de forma a que o espaço inferior pudesse ser de continuação e de acesso à orla costeira, rodoviário e pedonal, ao mesmo tempo tornando os trajetos de circunvalação elevada mais panorâmicos.
Deve haver dispositivos complementares de mitigação e de resiliência, i.e., da capacidade de evitar ou minimizar danos e da população se manter funcional na perturbação
Mário Duque, arquiteto
Desse modo, em situação de tempestade, os “atravessamentos inferiores seriam isolados por comportas que se fechassem, ou barreiras que se elevassem, definindo áreas inundáveis para onde a pluviosidade urbana pudesse ser descarregada”.
A maior parte obras principais encetadas nos últimos anos para controlo de inundações incluem obras nas costeiras no Fai Chi Kei e Ilha Verde para melhorar a capacidade de drenagem e o melhoramento do Dique do Porto Exterior. No entanto poucas obras centraram-se na zona das Ilhas.
Em julho deste ano, as autoridades lançaram uma série de obras para reforçar a capacidade de resistência de Coloane aos impactos de inundações causadas por marés de tempestade e chuvas intensas. Estas incluem a construção de equipamentos de prevenção contra cheias e reordenados os sistemas de drenagem de água nos diques e no canal de Shizimen.
As obras estendem-se desde a extremidade norte da Estrada de Lai Chi Vun de Coloane até à zona a jusante do Templo Tam Kong, abrangendo as imediações da Avenida de Cinco de Outubro, Rua dos Navegantes, Cais de Coloane e dos Estaleiros Navais de Lai Chi Vun. O PLATAFORMA questionou a Direcção dos Serviços de Obras Públicas (DSOP) sobre que mais obras estão planeadas para prevenir inundações na cidade, mas não obteve resposta até ao fecho desta edição.