“A vida é curta — temos é de tentar!” Foi esta frase de Jorge Chang que impulsionou o casal e os três filhos a embarcarem numa viagem de Lisboa até Macau, numa autocaravana.
Nascidos e criados em Macau, Jorge e Gabriela concretizaram o seu sonho no último verão: uma aventura familiar que atravessou o continente euroasiático, mais de 16 mil quilómetros e dez países.
Atualmente advogado em Portugal, Jorge Chang estudou no país, tal como Gabriela, que hoje gere um negócio de retalho. Embora integrados na vida portuguesa, nunca perderam a ligação a Macau. Desde os tempos da universidade, Jorge sonhava conduzir de Portugal até à sua cidade natal, conhecendo diferentes culturas ao longo do percurso. Mas o casamento, os filhos e o trabalho foram sucessivamente adiando o plano.

No início do ano passado, Gabriela sofreu um AVC súbito e esteve mais de uma semana nos cuidados intensivos. Deitada na cama do hospital, recordou o sonho adiado do marido e pensou: “Se pensares demasiado, nunca o vais fazer.” A crise de saúde fê-la perceber a imprevisibilidade da vida. Após recuperar, decidiu que era altura de partir com a família.
Munidos de passaportes e cartas de condução de Macau e Portugal, conseguiram ultrapassar as complexas fronteiras. A viagem começou em Lisboa, passou por Espanha, França, Alemanha, Polónia, Rússia e Cazaquistão, antes de entrar na China por Xinjiang. Seguiram depois por Gansu, Xi’an, Wuhan, Shunde e terminaram em Hengqin.
A autocaravana, equipada com cozinha, camas e utensílios básicos, foi casa sobre rodas. Sem depender de hotéis, bastava encontrar um parque de campismo. Essa flexibilidade permitiu gerir imprevistos durante os dois meses e meio de viagem.
Moscovo surpreende
O que mais impressionou o casal foi a Rússia. Esperavam caos devido à guerra, mas encontraram ordem. “Não era tão perigoso como imaginávamos”, explicam ao PLATAFORMA. Descobriram ainda que, com passaporte de Macau, as passagens fronteiriças eram até mais fáceis do que para veículos europeus. Moscovo surpreendeu: “Não é diferente de Londres!” recordam, destacando a arquitetura e a vida urbana. Os filhos adoraram os parques temáticos e locais históricos. Gabriela contou que os russos se espantavam com a sanita na autocaravana, e até a polícia foi amistosa ao ver que eram uma família em férias.
A adaptabilidade foi essencial. Na fronteira do Cazaquistão, tiveram problemas com os passaportes de Macau, mas resolveram com os portugueses. Na Rússia, os documentos das crianças atrasaram a entrada, superada com paciência.
Houve também peripécias culturais: no Cazaquistão, compraram ossos de cavalo sem saber e fizeram uma sopa de sabor intenso; em Turpan, Xinjiang, suportaram noites com 40 °C apesar do ar condicionado; em Xi’an, a autocaravana avariou, mas mecânicos locais usaram o Douyin (TikTok chinês) para arranjar o veículo e uma equipa técnica em Singapura auxiliou remotamente na desativação de um sistema do veículo, permitindo assim que pudessem prosseguir a viagem.
Em Wuhan, cidade natal de Jorge, encontraram uma metrópole tecnológica, com táxis autónomos e veículos elétricos, surpreendendo os filhos. Em Shunde, terra natal de Gabriela, saborearam pratos tradicionais e reencontraram o dialeto local, sentindo-se em casa.
No final, tiveram de deixar a autocaravana em Hengqin devido à burocracia de Macau. O envio do veículo para Portugal custou mais de 100 mil dólares de Hong Kong, e ainda chegou danificado. Resolveram pacientemente com a seguradora.
Gabriela resumiu: “Se há um problema, resolve-se — não penses demasiado.” Excluindo o transporte, a viagem custou menos de 20 mil euros (cerca de 172 mil patacas), poupando em alojamento e combustível, mais barato na Rússia e no Cazaquistão.
Mais do que atravessar 16 mil quilómetros, a família criou memórias únicas, reforçou laços e mudou a forma de encarar a vida. “Não penses demasiado — dá o primeiro passo”, conclui Jorge. Já pensam na próxima aventura: uma viagem de carro das pampas argentinas ao Alasca.