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Enraizado em Macau, voltado para a China

O dramaturgo Lawrence Lei foi o primeiro local a vencer o Prémio Cao Yu de Dramaturgia da China, com a peça‘Hide and Seek’. Confiante de que esta distinção trará maior visibilidade à cena teatral de Macau, o autor sublinha que, para o teatro local se desenvolver, é essencial olhar para além das fronteiras da RAEM e conquistar mercados mais amplos

Carol Law

– Pode partilhar connosco a inspiração por detrás de ‘Hide and Seek’?

Lawrence Lei: A peça foi inspirada num caso de homicídio no Canadá que chocou a opinião pública: a filha de uma família imigrante vietnamita-chinesa contratou alguém para matar os próprios pais. O crime aconteceu perto de onde vive a minha filha. Todos se perguntavam como uma rapariga aparentemente exemplar pôde cometer tal acto. Este caso foi posteriormente adaptado ao documentário da Netflix ‘What Jennifer Did’.

Depois de ler vários artigos, comecei a refletir sobre questões sociais e familiares mais profundas que podiam estar por detrás do caso — temas não abordados pelos media. Isso levou-me a escrever ‘Hide and Seek’, que explora os conflitos familiares resultantes das diferenças entre valores orientais e ocidentais. A peça baseia-se parcialmente no caso real, mas inclui também histórias de amigos imigrantes e elementos ficcionais.

O meu foco na escrita não é apenas contar um acontecimento, mas relacionar o conteúdo com a realidade social, a natureza humana e temas contemporâneos.

– Hide and Seek é a primeira peça de Macau a vencer o Prémio Cao Yu. O que sentiu ao receber este reconhecimento?

Fiquei muito feliz — e, sinceramente, surpreso. É o maior prémio de dramaturgia da China e, geralmente, atribuído a escritores consagrados de grandes cidades como Pequim ou Xangai. Nunca pensei que pudesse vencer. Este prémio significa muito para Macau: é um enorme incentivo e prova que até uma cidade pequena pode ser reconhecida. Tem importância não só para Macau, mas também para a Grande Baía, para Hong Kong, Macau e Taiwan, pois é a primeira vez que uma peça destas regiões vence este prémio.

Se queremos que o teatro de Macau se desenvolva verdadeiramente, temos de estar enraizados localmente, mas com os olhos postos em todo o mundo de língua chinesa. Esse é o caminho. Só sendo vistos é que seremos reconhecidos — e com reconhecimento vem um mercado maior

Lawrence Lei, dramaturgo de Macau

– A peça foi produzida pela Associação de Teatro Hiu Kok no ano passado, com apoio do Fundo Nacional de Arte da China para digressão na China continental…

Esse apoio foi crucial. Sinto-me com muita sorte — vencer exigiu três coisas: o momento certo, o lugar certo e as pessoas certas. O timing foi essencial: o prémio é bienal e só obras estreadas em 2023 ou 2024 podiam ser consideradas para a edição de 2025. Se ‘Hide and Seek’ tivesse estreado em 2022, já não teria sido elegível.

A localização foi outro fator — pudemos apresentar a peça na China continental, onde especialistas, académicos e o público puderam assisti-la, o que gerou atenção suficiente para ser notada. Representar na China não é fácil. E as “pessoas certas” referem-se a todos os que nos apoiaram: desde o Gabinete de Ligação do Governo Central em Macau até à Federação das Associações dos Sectores Culturais de Macau. Sem esses três fatores, não teria sido possível.

– Acredita que este prémio pode impulsionar o desenvolvimento do teatro de Macau na China continental?

Sem dúvida. No passado, a China continental mal conhecia Macau, muito menos o teatro de Macau. Tínhamos pouquíssimas apresentações lá. Mas na última digressão, conseguimos estabelecer contacto com o público de várias cidades. A resposta foi imediata.

Por exemplo, depois de ‘February 29’ e ‘Hide and Seek’ terem sido apresentadas pela Hiu Kok na China, a receção foi excelente. Este ano, no Festival de Cultura Teatral da Grande Baía em Macau, houve publicações no Xiaohongshu (Little Red Book) a dizer: “A Hiu Kok vai atuar. Vamos a Macau ver Bridge Theory.” Este intercâmbio tem impacto não só nas futuras digressões, mas também nas apresentações locais, pois agora é mais fácil atrair público da China para assistir a espetáculos em Macau.

Claro que os custos com deslocações e alojamento continuam elevados — por isso, insisto que é preciso que tudo conspire a nosso favor. Só atuando na China é que o nosso trabalho pode ser visto.

– É, portanto, um mercado que os grupos artísticos de Macau precisam de explorar.

Sem dúvida. Macau é uma cidade muito pequena, com pouco mais de 600 mil habitantes, enquanto outras cidades têm dezenas de milhões. Atualmente, até apresentar três sessões é um desafio, tal é a limitação do mercado. Se queremos que o teatro de Macau se desenvolva verdadeiramente, temos de estar enraizados localmente, mas com os olhos postos em todo o mundo de língua chinesa. Esse é o caminho. Só sendo vistos é que seremos reconhecidos — e com reconhecimento vem um mercado maior.

– É por isso que a sua peça ‘February 29’ vai ser apresentada na Malásia em julho?

Sim, faz parte do nosso esforço para conquistar o mercado sino-falante mais alargado. Queremos consolidar a reputação do teatro de Macau, não só na China continental, mas também noutras cidades de língua chinesa. O teatro de Macau tem feito progressos significativos nos últimos anos e o objetivo é continuar a crescer, tanto a nível nacional como internacional.

– Como dramaturgo experiente, como vê a evolução da nova geração de autores?

Hoje há muito mais autores do que antes — o que é excelente. Uma cidade que só apresenta peças traduzidas dificilmente constrói uma identidade cultural — é como ser apenas uma fábrica contratada, a transmitir os valores de outros. Acredito que o teatro local só se desenvolve verdadeiramente com obras originais. Com mais autores locais e mais peças escritas em Macau, vejo muito potencial para o futuro.

Mas é preciso ter em conta que, além do esforço pessoal, há sempre fatores externos — o que chamamos de “sorte”. Muitos trabalhos passam despercebidos. Por isso, o mais importante é criar boas obras e esperar pela oportunidade certa.

O início é sempre difícil para quem está a começar. Depende da resiliência do autor — se desiste antes de ser reconhecido, não chegará lá. Às vezes, leva anos até que uma peça seja notada. Mas se persistirmos, as boas obras acabam por ser vistas.

Se o guião for bom, os grupos teatrais acabam por pegá-lo. Hoje fala-se muito da “falta de guiões”, por isso, não há que ter medo da falta de procura. Mas os jovens escritores têm de saber lidar com críticas — alguns desistem, outros continuam a escrever, mas evitam o ‘feedback’. No fim, tudo depende de cada um.

– Que sugestões tem para desenvolver ainda mais o teatro em Macau?

Os grupos artísticos têm de trabalhar muito. O maior desafio agora é o declínio do público. Os grupos locais devem refletir sobre como criar uma ligação mais forte com a população, para que esta se sinta motivada a ir ao teatro. Isto é essencial. Além do esforço individual, são precisas condições externas — o apoio do governo é fundamental para criar um ecossistema que permita ao teatro florescer em Macau.

– A que se deve essa quebra no público?

Isso daria um ensaio inteiro. São muitos os fatores. Antigamente, Macau era mais fechado, não havia tanta internet ou plataformas digitais, e as opções de entretenimento eram poucas — o teatro era uma delas. Hoje, até os cinemas têm dificuldades. Basta pegar no telemóvel e há conteúdo infinito — TikTok, vídeos, tudo o que quiserem.

Com tantas opções, o teatro passa facilmente para o fim da lista. E hoje as pessoas estão muito ocupadas — as crianças têm muitos trabalhos de casa, os pais têm de acompanhar, e sobra pouco tempo livre.

É um círculo vicioso: menos público leva a menos apresentações, o que reduz oportunidades para as produções amadurecerem, e isso afasta ainda mais o público.

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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