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Duas Sessões, duas estratégias: Consumo Interno e Globalização

Paulo Rego*

As Duas Sessões (Lianghui) da China, que reúnem a Assembleia Nacional Popular e a Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, são tradicionalmente decisivas na definição dos cenários políticos; quer a nível interno, quer externo. Este ano, terça e quarta-feira foram dias em que todos os olhos do mundo voltaram atenções para as estratégias de Pequim para combater a crise do consumo interno e tornear as pressões externas que tentam conter o crescimento chinês e retardar a sua afirmação como potência global – em oposição aos Estados Unidos.

Um dos focos centrais do Partido Comunista Chinês é reativar o consumo interno. Dados recentes indicam que representa cerca de um terço do PIB chinês; queda brutal em relação aos dois terços observados antes da pandemia – 2019. Essa retração é atribuída à desaceleração do mercado imobiliário e à compressão dos níveis de confiança do consumidor. Para reverter esse cenário, Pequim aposta em subsídios e incentivos, mas também em investimentos na saúde, educação, e no bem-estar social. Medidas que visam impulsionar a economia, mas também assegurar estabilidade social.

Outro tema central é a autossuficiência tecnológica. Desde o lançamento do projeto Made in China 2025, multiplicam-se investimentos intensivos em inteligência artificial, semicondutores e tecnologias verdes. Estratégia destinada a reduzir a dependência de fornecedores estrangeiros e consolidar a China como líder global em inovação. As Duas Sessões reforçam esse compromisso, face às restrições comerciais impostas por Washington.

A China vive um momento crucial; dividida entre a ambição de consolidar o seu papel como potência global, e os desafios económicos e geopolíticos complexos que enfrenta

Perante sobretaxas norte-americanas e restrições tecnológicas que impactam negativamente setores estratégicos da economia chinesa, Pequim tenta diversificar mercados e fortalecer parcerias comerciais, com destaque para a crescente reaproximação à União Europeia (UE). Recentemente, empresas chinesas aumentaram significativamente as exportações de veículos elétricos para a Europa, evidenciando a expansão para mercados alternativos.

Entretanto, mediante o endurecimento das políticas de Trump, a UE vira costas à tradicional postura de alinhamento automático com Washington, admitindo fortalecer laços comerciais com Pequim, especialmente em tecnologia verde e inovação. Essa reaproximação reflete a necessidade de alternativas comerciais globais; mas também a urgência de alianças para enfrentar desafios comuns, como as mudanças climáticas.

A segurança nacional e a estabilidade social voltam também a centrar discussões. Com o fim da política de Covid-zero, Pequim vinha suavizando a narrativa securitária. Contudo, a crise económica ameaça reverter essa tendência, levando o PCC a reforçar o controle social. É talvez o efeito mais lamentável da retração económica; porque é certo e sabido que um povo com bolsos vazios ameaça diretamente a estabilidade política de qualquer regime, tornando o combate ao crime organizado e a manutenção da ordem prioridades absolutas.

A China vive um momento crucial; dividida entre a ambição de consolidar o seu papel como potência global, e os desafios económicos e geopolíticos complexos que enfrenta. Mas as decisões tomadas em Pequim terão também consequências profundas na dinâmica económica e política mundial. Para Macau, ponte histórica entre a China e o Ocidente, é essencial tirar consequências dessas deliberações e concentrar-se no entendimento e cooperação internacional – especialmente com os Países de Língua Portuguesa. Para além do medo que sempre tem de arriscar seja o que for nas relações externas; e independentemente de diferenças ideológicas ou políticas.

*Diretor-Geral do PLATAFORMA

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