Concerto na Taipa mostra que “não temos muitas opções”

Um concerto de K-Pop no Estádio da Taipa gerou uma chuva de críticas por parte dos residentes, que se queixaram do barulho, multidão e corte de transportes. Ao PLATAFORMA, Sunny Chio, empresário habituado a lidar com eventos de grande escala, diz que é preciso dar tempo. Há “pouca experiência” em Macau para lidar com estas iniciativas e, mais difícil de resolver, não existem “muitas opções” além do Estádio

por Gonçalo Lopes
Nelson Moura e Victoria Man

Dois concertos da banda K-Pop “Seventeen”, organizados no Estádio da Taipa a 20 e 21 de janeiro, geraram polémica.

Enquanto comerciantes da área elogiaram o incentivo dado aos seus negócios, vários residentes da Taipa queixaram-se do barulho causado pela montagem do palco e testes de som, nos dias anteriores ao espetáculo, e pelos próprios concertos, além da grande concentração de pessoas.

Algumas das queixas centraram-se também na decisão das autoridades de redirecionar temporariamente algumas faixas de tráfego na área e de encerrar a estação de metro mais próxima.

Para os concertos, foram implementadas uma série de medidas provisórias de tráfego, incluindo, controlo do tráfego na Rua do Regedor, entre as 21:00 e as 22:30, a suspensão de paragens de autocarros na Vila da Taipa, e a proibição de entrada de veículos em várias ruas nesta zona. A tomada e largada de passageiros na Estação do Estádio do Metro Ligeiro foi também suspensa entre as 20:00 e as 21:30 de sábado e domingo.

A Supernoize Group, empresa responsável pela organização dos espetáculos, desculpou-se publicamente pelo transtorno causado aos residentes. No entanto, não deixou de referir que os concertos atraíram mais de 40.000 fãs – “um recorde” -, impulsionando, ao mesmo tempo, gastos abrangentes em transportes, alimentação e bebidas, alojamento, passeios turísticos e outros negócios que “injetaram assim um novo impulso na economia comunitária local”.

“No futuro, otimizaremos e melhoraremos as nossas atividades e seremos mais rigorosos. Esperamos testemunhar o crescimento e o progresso dos nossos espetáculos e vamos trabalhar juntos para construir uma “Cidade do espetáculo” de Macau e injetar uma nova vitalidade no desenvolvimento da cultura e das artes.

Crescer com a prática

Sunny Chio, fundador da produtora Like Entertainments, diz ao PLATAFORMA que estes eventos são extremamente positivos para Macau, ao estimular o consumo e a economia, mas que é “necessário o apoio de toda a cidade”.

“Em Macau não temos muitas opções para concertos de grande escala, temos o Venetian e a nova arena do Galaxy. O do Venetian está a ser renovado, assim ter o Estádio da Taipa, que pode receber mais de 10.000 pessoas, é muito positivo para os organizadores dos eventos, que claro, preferem organizar eventos em espaços maiores e com maior potencial de receita”, descreve.

Avisa, no entanto, que uma maior receita permite também a realização de um espetáculo com maior qualidade. Em eventos realizados nos grandes hotéis, a maioria da receita e consumo fica com a concessionária, enquanto neste caso a grande parte dos gastos dos fãs foram feitos nos negócios locais.

“Mas claro, há ainda margem para melhorias em vários aspetos, como trânsito, segurança, limpeza, e gestão de multidões. Isto deve-se à pouca experiência local em organizar eventos desta dimensão em zonas residenciais”, destaca.

“Noutros países e regiões é muito comum haver espetáculos ao ar livre, até com mais de 60.000 pessoas, e as autoridades estão habituadas a gerir o tráfego causado pelos eventos. Vários polícias e agentes são destacados para geri-los.”

Desse modo, o empresário aponta ser necessário encontrar um equilíbrio entre o bem-estar e conforto dos residentes, e a boa organização de grandes eventos, necessários para a diversificação económica da cidade.

Reparos no rumo da “Cidade do espetáculo”

Em comentários depois do espetáculo, a secretária para os Assuntos Sociais e Cultura, Elsie Ao Ieong, admitiu a necessidade de rever a organização dos concertos em Macau para equilibrar os interesses dos residentes e dos comerciantes.

Ao reconheceu ser preciso melhorar o controlo do tráfego e do fluxo de pessoas, do volume do espetáculo, tempo da instalação do palco e da apresentação. Prometeu também a criação de um grupo interdepartamental responsável pelos trabalhos de análise e revisão sobre concertos na comunidade.

A responsável admitiu até a possibilidade de usar a Nave Desportiva dos Jogos da Ásia Oriental, ou o Macau Jockey Clube, prestes a fechar, como recintos alternativos para futuros concertos.

Entretanto, o antigo recinto do Canídromo na Zona Norte seria possivelmente contemplado para concertos de menor escala de modo a atrair turistas para esta zona.
A secretária lembrou que antes da pandemia o Estádio Olímpico da Taipa acolhia espetáculos todos os anos. Estes, no entanto, tinham residentes como público principal, o que não aconteceu desta vez.

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