Para atingir emissões zero em 2050 é preciso muito mais

As autoridades locais divulgaram um plano para alcançar a meta de carbono quase zero em 2050. Cientistas e ativistas ambientais dizem ao PLATAFORMA que o objetivo é possível; contudo, duvidam do compromisso das autoridades. Várias questões cruciais continuam sem solução à vista, nomeadamente a da substituição dos combustíveis fósseis por energias renováveis

por Gonçalo Lopes
Guilherme Rego

Em linha com a “Dupla Meta de Carbono” da China, o Governo de Macau concluiu a “Estratégia de Descarbonização a Longo Prazo de Macau”. O grande objetivo é atingir o pico de emissões de carbono, “antes de 2030”, e alcançar “uma descarbonização profunda”, “emissões quase zero”, antes de 2050.

Joe Chan, da Green Students Union, diz que “o objetivo é bom, e a estratégia perfeita”, mas não vê “compromisso” por parte das autoridades em calendarizar a implementação do plano.
“Somos uma cidade desenvolvida e devíamos estar na vanguarda do movimento”, afirma, lamentando o que considera “um processo legislativo lento” na área da sustentabilidade.

A produção de eletricidade representa 70% das emissões totais em Macau e, nos últimos anos, cerca de 90% da energia elétrica foi importada. O volume da produção local, com base no combustível das centrais térmicas, foi reduzida de 100 por cento, em 2012, para 6,6% em 2022, tendo o Governo assumido o compromisso de migrar totalmente para o gás natural. As autoridades dizem que vão continuar a instalar painéis fotovoltaicos e a explorar a tecnologia de captura e armazenamento de carbono.

Relativamente à aquisição de eletricidade no exterior, o contrato atual com a China Southern Power Grid já exige que a proporção do uso de energias não fósseis para produção de eletricidade exceda 40%. Segundo as estatísticas, o consumo de eletricidade em Macau tem vindo a aumentar nos últimos dez anos, mas as emissões de gases com efeito de estufa relacionadas têm vindo a diminuir.

As energias renováveis são mais caras, mas isso também deve funcionar como incentivo para a população poupar energia
Joe Chan, membro da Green Students Union

Fóssil ainda manda

A meta é atingir 100% de produção de electricidade a energia não fóssil até 2050 – ou mesmo antes. Thomas Lei, cientista ambiental e especialista na monitorização e qualidade do ar, critica o comportamento das autoridades porque, até agora, tem contrastado com essa ambição: “Parece que Macau é muito passivo, porque mais de 80% da eletricidade utilizada em Macau vem do exterior, e 60% das emissões de CO2 libertadas em 2019 veio da eletricidade importada. Seria necessário um sistema de auditoria rigoroso para garantir que a eletricidade não é produzida a partir de energias fósseis”, começa por explicar. O académico da Universidade de São José refere que o uso de painéis solares é muito baixo no setor privado “devido à falta de promoção” e de subsídios. Na sua opinião, esta deveria ser a grande prioridade do novo ciclo: “Os nossos vizinhos da Área da Grande Baía (GBA), como Hong Kong e Zhuhai, já têm uma boa taxa de adoção de painéis solares no mercado privado”.

Lei lamenta ainda que não se olhe para as energias renováveis que “podem ser utilizadas para complementar a produção tradicional de eletricidade”. Já Joe Chan admite que “as energias renováveis são mais caras”, mas considera que “isso também deve funcionar como incentivo para a população poupar energia”.

Gilberto Camacho, ativista ambiental e membro do grupo Macau ECOnscious, diz que “é pouco provável que os objetivos delineados sejam atingidos”. Na sua opinião, as metas foram traçadas com base nos dados “que temos hoje”, mas “amanhã teremos outros dados que não entraram na equação”. Significa isso que “o mais provável é saírem furadas” as previsões para 2030 e 2050.
O ativista aponta ainda fatores externos que podem atrasar as metas delineadas: “Veja-se o exemplo da Alemanha que, fruto da guerra entre a Rússia e a Ucrânia, foi obrigada a voltar a utilizar o altamente poluente carvão nas suas centrais elétricas de modo a manter as suas casas quentes durante o rigoroso inverno. As previsões que as autoridades de Macau fizeram são para um cenário otimista e, mesmo assim, tenho dúvidas que as metas sejam cumpridas.”

Outras cidades da GBA só permitem a entrada de veículos com emissões zero no centro da cidade (…) Além disso, estão a ser criadas zonas de emissões zero em cidades europeias, incluindo Lisboa
Thomas Lei, cientista ambiental

Transportes verdes

O Governo anunciou a intensão de proceder à substituição gradual da frota automóvel para veículos movidos a eletricidade, através de uma série de incentivos fiscais. Ao mesmo tempo, promete aumentar a capacidade de carregamento destes veículos em novos parques e nas habitações públicas. Segundo dados oficiais, em finais de 2022 haviam sido instalados 2.500 postos de carregamento públicos em Macau. Por outro lado, a estratégia de descarbonização pretende otimizar o sistema de circulação pedestre e melhorar os transportes públicos, para reduzir as emissões por via do excesso de veículos particulares.

Camacho reconhece nas ruas de Macau “uma maior presença de veículos elétricos, ano após ano”. Contudo, considera que “ainda há muito por fazer”. Para além disso, a eletrificação do parque automóvel levanta novas questões: “Para onde vão as baterias dos carros quando terminam o seu tempo de vida? Porque é que ainda se permite a circulação de veículos que libertam gases que ultrapassam os padrões minimamente aceitáveis para a saúde pública? Devido ao tamanho da cidade, as ciclovias deveriam ser um ‘must’ em Macau. Sou da opinião de que em algumas ruas no centro da cidade só deveriam andar peões, bicicletas e alguns veículos do Governo (polícia, bombeiros e ambulâncias).”

Para Thomas Lei, é preciso desincentivar de forma mais célere e firme o uso de veículos movidos a combustíveis fósseis: “Muitos consumidores recusam-se a adotar veículos elétricos porque o custo de carregamento não é muito diferente. Os nossos vizinhos na Grande Baía, como Hong Kong, estabeleceram um preço de mercado alto para o reabastecimento de combustível, o que fez com que os condutores mudassem para veículos elétricos (VE). Outras cidades da GBA só permitem a entrada de veículos com emissões zero no centro da cidade, o que também promove a sua utilização. Além disso, estão a ser criadas zonas de emissões zero em cidades europeias, incluindo Lisboa, o que, mais uma vez, aumenta a utilização de veículos menos poluentes”.

Camacho destaca um projeto pioneiro “interessantíssimo” para resolver o problema do carregamento dos carros elétricos. Uma placa é embutida sob a estrada e os veículos elétricos equipados com uma bobina recetora são recarregados à medida que passam por ela. Essa tecnologia já foi testada na Alemanha e nos Estados Unidos. A Suécia prevê ter 3.000 quilómetros de autoestrada com essa tecnologia já em 2025. Um estudo na Europa simulou a movimentação de 412 carros e descobriu que combinar o carregamento doméstico com este carregamento dinâmico pode reduzir o tamanho das baterias até 70%, diminuindo assim os custos de produção, bem como o problema que se põe quando termina o ciclo de vida das baterias.

Devido ao tamanho da cidade, as ciclovias deveriam ser um ‘must’ em Macau. Sou da opinião de que em algumas ruas no centro só deveriam andar peões, bicicletas e alguns veículos do Governo
Gilberto Camacho, membro do grupo Macau ECOnscious

Conversão de resíduos orgânicos

O Governo prevê finalizar em 2027 a primeira fase do Centro de Recuperação de Resíduos Orgânicos, que terá capacidade de processamento diário de 150 toneladas de resíduos alimentares, e uma recuperação de energia equivalente a 136.000 quilowatts-hora de eletricidade. Em 2016, Macau produziu cerca de 550 toneladas de resíduos alimentares por dia. Neste ponto, Camacho é assertivo: “Este centro não é suficiente para a quantidade de resíduos alimentares que produzimos hoje, mas é sempre melhor que nada. Espera-se que a sociedade consiga dar mais passos em frente relativamente à redução do desperdício alimentar”.

Joe Chan vai mais longe: “60% dos resíduos não são alimentares. Como é que vão lidar com esses materiais? Continuam a queimá-los; não promovem a reciclagem. Em Hong Kong, as pessoas já pagam de acordo com o lixo diário que produzem. Isto acontece também em Singapura, Japão, Taiwan… mas em Macau ainda não sabemos quando é que isso vai acontecer”. O ativista reitera a necessidade de se avançar com um calendário, pedindo que não haja “velocidades diferentes” nos setores público e privado.

Thomas Lei salienta, por fim, pontos nos quais o plano nem sequer se foca, sendo contudo igualmente importantes para uma vida mais sustentável. Além da educação nas escolas, salienta, “devem ser criados mais postos de trabalho neste setor.” E “as autoridades devem ser mais determinadas e agressivas na implementação de medidas sustentáveis para o ambiente. Macau é uma cidade pequena e tem todas as condições para ser pioneira neste ramo. Será um orgulho para Macau e, consequentemente, um orgulho para a China”, conclui Camacho.

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