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“Macau não é só jogo” e “pode introduzir Portugal na China”

A região administrativa especial chinesa reabre após três anos de restrições pandémicas. Tanto o setor público como o privado estão prontos para uma nova fase: aumentar a oferta turística extra-jogo e apostar nos mercados estrangeiros. A diretora da Direcção dos Serviços de Turismo de Macau, Maria Helena de Senna Fernandes, vê o apoio português como essencial para essa estratégia. Na Grande Baía, defende que Macau “tem de ajudar a criar uma marca junto dos mercados internacionais”

O turismo, base da economia, está de regresso. Inicialmente prevendo 40 mil visitantes por dia, os dados do primeiro trimestre permitem-lhe cumprir esse objetivo?

Maria Helena de Senna Fernandes – Quando fizemos essa projeção o cenário era completamente diferente. Nessa altura ainda estávamos a falar da reabertura das excursões de grupo a partes específicas do interior da China, estávamos muito limitados. Acho que ninguém pensava que íamos estar tanto tempo fechados, sem contacto com o exterior. E não falo apenas de mercados internacionais, pois nem sequer havia a possibilidade de abrir com Hong Kong ou Taiwan, devido à exigência de quarentena.
Hoje o cenário é muito melhor. Em janeiro tivemos uma média diária de 45 mil visitantes, em fevereiro mais de 57 mil e em março ultrapassámos os 60 mil. É bastante positivo. Estamos mais ou menos a 50 por cento dos números registados em 2019, pois antes da pandemia tínhamos cerca de 107 mil visitantes diários.
Mesmo assim, acredito que estamos num bom caminho, apesar de ainda limitados aos mercados da China continental e Hong Kong. Em Hong Kong já recuperámos cerca de 75 a 80 por cento dos visitantes; no interior da China cerca de metade. Relativamente a Taiwan e os mercados internacionais, ainda estamos a cerca de 20 por cento dos números pré-pandémicos. Ainda há muito trabalho a fazer, e claro que o foco agora vai ser a nível internacional.

Estando o foco político concentrado na diversificação económica… diminuindo-se a dependência das receitas do jogo, o que está a mudar no setor turístico e na diversificação da oferta?

M.H.S.F. – Os novos contratos de jogo dão margem ao Governo de Macau para atingir mais. Mas isso não quer dizer que não estávamos a trabalhar nos mercados internacionais em 2019. Nesse ano tivemos mais de três milhões de visitantes de fora, ou seja, já havia uma base bastante sólida, além de termos oferta para esses mercados.
O Governo também tem ideias muito claras dos setores a desenvolver para diversificar a economia. Estamos a falar das indústrias da saúde, desporto, convenções e exibições (MICE), tecnologia, e ainda fora da área do turismo, a indústria de finanças modernas. É da nossa responsabilidade trazer oportunidades para estes setores. Não só trazer turistas, mas trazer as pessoas certas para apoiar o desenvolvimento destas indústrias emergentes. A indústria MICE, por exemplo, já é uma área que desenvolvemos há largos anos. Apesar de agora estar na alçada do Instituto de Promoção do Comércio e do Investimento de Macau (IPIM), temos sempre colaborado.
Por outro lado, estamos a utilizar muitos elementos culturais e criativos para desenvolver produtos turísticos, porque o turismo é inseparável da cultura. É uma base muito forte para atrair turistas e também uma forma de manifestar a nossa História.

“A nossa iniciativa de promoção turística e cultural na Praça do Comércio, em Lisboa, é uma manifestação da importância que reconhecemos a Portugal.”

A renegociação dos contratos de jogo exige às concessionárias que apostem nas indústrias MICE. Espera que isso mude a imagem da cidade?

M.H.S.F. – Neste momento Macau não é só jogo. Estamos a ver muitos turistas diferentes daqueles que tínhamos em 2019. Há muitas ruas que estão cheias de turistas e não têm jogo. O jogo é importante para Macau, vai continuar a ser e vai trazer-nos muitas oportunidades. Mas estamos a trabalhar em produtos extra-jogo, pois esse será o futuro.
Também começámos a estudar a aposta em turismo estudantil. Vamos começar a trazer para Macau estudantes do interior da China, Hong Kong e, no futuro, acolher visitas de estudos internacionais. Porque Macau é uma janela para o nosso país ter contacto com o mundo de fora e, no sentido inverso, para os visitantes internacionais terem contacto com a China.
Como agora os nossos objetivos de diversificar produtos turísticos estão alinhados com os das empresas de jogo, tal vai manifestar-se no desporto, espetáculos, turismo marítimo, entre outros.

O que é que tem de mudar para Macau conquistar novos segmentos de mercado? A que ritmo pensa que isso é possível?

M.H.S.F. – O facto de estarmos a trabalhar muitíssimo e em várias frentes faz-nos esquecer que, na verdade, as fronteiras só reabriram há três meses. Temos noção de que ainda há muito a fazer e de que há coisas que não estão nas nossas mãos, como a recuperação a nível mundial do setor de aviação. Aquilo que podemos controlar, estamos a fazer. No ano passado abrimos uma conta de TikTok para o mercado internacional, entre outras redes sociais a que aderimos para comunicar com pessoas e países diferentes. Estamos também a convidar influenciadores estrangeiros para visitar Macau e a ver a nível doméstico quem tem domínio de línguas estrangeiras para nos ajudar a fazer vídeos diferentes e agilizar o nosso tempo de reação.

Que importância tem Portugal como fonte de novos turistas. Pode ser também ponte para a Europa ocidental e para os Países de Língua Portuguesa?

M.H.S.F. – Temos laços históricos com Portugal. Além disso, muitas pessoas da Europa viajam para Portugal, seja para lazer ou negócios. Portugal é o primeiro passo para reabrirmos o nosso trabalho na Europa e, mesmo nos Países de Língua Portuguesa, tem uma posição muito central no nosso trabalho. A nossa iniciativa de promoção turística e cultural na Praça do Comércio, em Lisboa, é uma manifestação da importância que reconhecemos a Portugal.

Esta primeira visita do Chefe do Executivo da RAEM a Portugal pode ter impacto na promoção de Macau como destino turístico?

M.H.S.F. – Sim, capta maior atenção para Macau. E por isso mesmo estamos a fazer a nossa parte: temos o roadshow, a projeção de vídeo mapping e um seminário B2B. Vai também haver em Portugal um anúncio importante da Organização Mundial do Turismo e do Secretariado do Fórum de Economia de Turismo Global (GTEF), que vão comunicar os moldes do GTEF em Macau daqui em diante.

“Queremos que as pessoas, sobretudo quem vem de mais longe, venham a Macau e aproveitem para passar pelos outros pontos da Grande Baía”

Até que ponto Macau pode também ser uma plataforma turística de língua portuguesa para a Grande Baía e o interior da China?

M.H.S.F. – Antes de mais temos de ajudar a criar uma marca ou noção do que é a Grande Baía junto dos mercados internacionais. O conceito é relativamente novo e muitos não conhecem esta região. Só a partir desse ponto é que podemos começar a trabalhar em excursões e itinerários. Queremos que as pessoas, sobretudo quem vem de mais longe, venham a Macau e aproveitem para passar pelos outros pontos da Grande Baía. Mas, primeiro, têm de conhecer a oferta.

O presidente da Associação do Turismo Chinês em Portugal, Yong Liang, destacou o papel que Macau pode ter na ligação dos turistas chineses a Portugal. Concorda com essa oportunidade?

M.H.S.F. – Sim, concordo. Portugal ainda não está a trabalhar muito no mercado chinês. Países como a Espanha, Itália ou França já estão há muitos anos a trabalhar esse mercado. Num trabalho conjunto, Macau pode ajudar a trazer turistas chineses para Portugal. Digamos que Macau pode introduzir Portugal na China. Ao projetar os elementos portugueses, os turistas chineses podem conhecer melhor Portugal. É necessário perceberem a influência que Portugal teve nesta parte da China para que possam desenvolver alguma curiosidade e interesse em visitar Portugal.
A Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo já nos informou que foi contactada por associações de agências de viagens de Macau com o interesse de formar um protocolo neste âmbito. É uma boa oportunidade para dinamizar o turismo nos dois sentidos.

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